O lado oculto das apostas on line: vício, dívidas e famílias destruídas
As apostas esportivas deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se transformar em um fenômeno social de grandes proporções. O crescimento acelerado das chamadas bets veio acompanhado por uma avalanche de publicidade que ocupa transmissões esportivas, programas de rádio, televisão, portais de notícias e redes sociais. O resultado é a normalização de uma atividade que, para milhares de brasileiros, tem significado endividamento, conflitos familiares, adoecimento mental e perda de patrimônio.
Diversos estudos nacionais e internacionais apontam que os transtornos relacionados ao jogo podem provocar ansiedade, depressão, isolamento social, ruptura de relacionamentos e comprometimento da vida financeira. Não se trata apenas de uma escolha individual. A publicidade exerce influência sobre comportamentos, especialmente quando associa apostas a sucesso, diversão, pertencimento e realização financeira.
É justamente nesse ponto que surge uma reflexão necessária sobre o papel da imprensa e das empresas de comunicação. A comunicação nunca foi neutra em seus efeitos sociais. Ela ajuda a construir valores, moldar percepções e influenciar decisões cotidianas. Quando veículos e comunicadores aceitam a presença massiva da publicidade das apostas sem qualquer debate sobre suas consequências, abre-se um espaço para uma questão ética: até que ponto a busca por receita publicitária pode se sobrepor à responsabilidade social da informação?
Essa reflexão dialoga com o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman. Em suas obras sobre a modernidade e a ética, Bauman argumenta que as sociedades contemporâneas tendem a enfraquecer a responsabilidade moral pelo outro. O distanciamento proporcionado pelas estruturas burocráticas e pelas tecnologias faz com que as consequências das próprias ações pareçam pertencer sempre a outra pessoa. Esse processo reduz a empatia e favorece aquilo que muitos intérpretes de sua obra descrevem como uma forma de "cegueira moral": a incapacidade de perceber o sofrimento humano produzido por decisões aparentemente normais ou rotineiras.
É importante registrar que "cegueira moral" não é um conceito criado exclusivamente para explicar o mercado das apostas. Trata-se de uma interpretação aplicada ao contexto atual a partir da reflexão ética desenvolvida por Bauman em obras como Cegueira Moral.
Sob essa perspectiva, a proliferação da publicidade das bets revela um paradoxo. Enquanto famílias enfrentam dívidas, trabalhadores comprometem salários e jovens são atraídos pela promessa de ganhos fáceis, parte da indústria da comunicação continua tratando as apostas apenas como mais um anunciante. A repetição constante das campanhas publicitárias tende a banalizar os riscos e a reduzir a percepção dos danos sociais.
Isso não significa atribuir aos meios de comunicação toda a responsabilidade pelos problemas causados pelas apostas. A questão envolve empresas do setor, consumidores, reguladores e o poder público. No entanto, também não é possível ignorar que a mídia exerce influência sobre comportamentos e sobre a formação da opinião pública. Essa influência traz consigo responsabilidades éticas.
Ao longo da história, campanhas de comunicação ajudaram a mudar hábitos relacionados ao tabagismo, ao consumo de álcool por motoristas, ao uso do cinto de segurança e à prevenção de doenças. Da mesma forma, a comunicação pode contribuir para ampliar o debate sobre os riscos das apostas compulsivas, oferecendo informação qualificada em vez de apenas reproduzir mensagens comerciais.
Talvez o maior desafio seja recuperar a capacidade de enxergar as pessoas por trás dos números. Cada dívida representa uma família. Cada patrimônio perdido representa anos de trabalho. Cada dependência em jogos representa um sofrimento que raramente aparece nos comerciais de trinta segundos.
A sociedade precisa discutir o impacto das bets para além das cifras bilionárias movimentadas pelo mercado. E a comunicação, cuja missão é informar e servir ao interesse público, não pode abrir mão de refletir sobre o papel que desempenha nesse processo. Ignorar os efeitos sociais das apostas não elimina suas consequências. Apenas torna mais difícil enxergar aqueles que já estão pagando o preço.
Júnior Patente
Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br



