A linguagem nas poéticas de Madonna
Fonte: Divulgação Confessions II / Madonna
Ultimamente eu tenho estado em modo “Madonnamania”, se assim posso dizer. Desde o lançamento do Confessions II, fiquei ainda mais imerso no trabalho artístico da cantora e descobri uma série de tópicos que são muito frutíferos para discussão. Hoje eu decidi abordar brevemente sobre um aspecto recorrente na poética e escrita da maior cantora pop do mundo: a linguagem.
Na última coluna, eu discuti alguns pontos abordados nas letras do mais recente álbum que explicitam o espaço subjetivo em que Madonna enxerga a pista de dança. Um dos exemplos foi a faixa One Step Away, música que possui uma introdução falada em que a artista diz que o espaço das festas e dos encontros em casas noturnas é “um santuário, um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”.
Em outro trecho da música, ela canta: “entenda o seu silêncio / e o drama de maneira interna / ninguém é livre, somente um token” (tradução do autor). Aqui, a palavra “token” é usada para metaforizar a experiência humana individualizada como um receptáculo de emoções e subjetivações, derivadas de coisas que fogem do controle de quem é o token e serve para o objetivo que é maior do que o token em si. Ou seja, essa parte da música afirma a importância de um indivíduo entender seus sentimentos de maneira íntima para que, assim, possa também entender-se como parte de algo maior.
É possível notar nas composições do Confessions II o quanto Madonna importa ideias de diferentes fases da sua carreira, não somente da época e da sonoridade do Confessions on a Dance Floor original, mas principalmente de um de seus discos mais conceituais até hoje, o Ray of Light.
“Não está todo mundo / Percorrendo o seu próprio caminho / Observando os sinais enquanto avançam? / Acho que eu vou seguir o meu coração / É um bom ponto de partida”. Esses trechos estão presentes na música Sky Fits Heaven, de 1998, e acho que se relaciona com os temas do novo disco porque é uma canção que afirma que a intuição é um ponto de partida para continuar vivendo, uma maneira de interpretar o trecho em que ela diz que deve seguir o próprio coração como guia possível para seguir adiante.
Diante disso, não consigo não imaginar que esses “sinais enquanto avança[mos]” são somente inquietações emocionais próprias e individuais de quem as sente, e não exatamente e exclusivamente proferição de palavras vindas de maneira externa que causam um sentido semântico e sintático próprio. A linguagem aí se torna algo muito sagrado, por se tratar de encontrar sentido e possibilidades de vida, mas também algo muito pessoal, que diz respeito apenas a quem enxerga esses sinais. Não poderia, de maneira alguma, ser traduzido em palavras.
Essa reflexão me faz lembrar de outros trabalhos da cantora, que é o caso de Bedtime Stories, disco de 1994. A faixa título do trabalho explora algo basilar do que configura esse manifesto proposto no Confessions II. “Hoje é o último dia que eu vou usar palavras / Elas se perderam, e perderam seus significados / Não exercem mais função”. Em outro momento da faixa, ela diz: “Palavras são inúteis, especialmente frases / Elas não exprimem nada / Como elas conseguiriam explicar o que eu sinto?”.
Ou seja, enquanto a artista de 1994 questionava-se acerca das palavras que faziam-lhe de refém na tentativa de exprimir o que sentia, em 2026 ela encontra na música dance uma maneira de finalmente externalizar seus sentimentos, podendo ser uma evolução daqueles sentimentos da década de 90 ou algo completamente novo. A música dance, portanto, torna-se linguagem e meio de comunicação.
As palavras são uma potente forma tecnológica de se comunicar, assim como a música, o cinema, o teatro, a fotografia e as artes visuais, são linguagens possíveis de transmitir conhecimento e formação de elos que conectam informações e sentimentos. Fato é que, apesar de potentes e ricas em complexidades em suas próprias naturezas, as linguagens ainda são traduções. E nenhuma tradução escapa do ocasional equívoco de seu tradutor.
Voltando ao Confessions II, uma das músicas finais do projeto é a faixa The Test, uma colaboração de Madonna com a sua filha Lola Leon. Nela, a estrela do pop reflete como a sua vida e suas ações moldaram a filha para a indivíduo que ela é hoje, abordando arrependimentos e maternidade. Em contrapartida, Leon canta os seguintes trechos: “Eu não sou a mesma quando eu estou segurando a aba do seu paletó / Às vezes eu queria saber te multiplicar / Mas eu sei que você está por toda parte / Toda parte ao meu redor”. É uma canção simples que me emociona ao pensar o quanto uma relação pode moldar e definir nossa individualidade, e ainda assim, ser tão difícil de apontar exatamente o quê daquela outra pessoa nos compõem. Às vezes é o que é e tentar palavrear só geraria tradução frustrada. Mesmo que traduzir seja poético e potente à sua maneira.



