Redução de riscos
Fonte: Uno Vulpo / Divulgação (Instagram: @sento.mesmo)
Descobri recentemente a existência de postos de saúde voltados para a conscientização e o uso controlado de substâncias psicoativas, sejam estimulantes, depressoras ou alucinógenas. A França criou esses estabelecimentos para atendimento ao público que servem como pontos institucionais de prevenção e redução de danos em relação ao uso de drogas pela população francesa.
Parece ser um dissenso, um espaço que diz ser contra o uso de drogas estar realizando sessões em que o seu uso é permitido e controlado pelos médicos. Vale dizer que eu peguei essa informação assistindo ao vídeo do médico Uno Vulpo em palestra concedida para TEDx. Com quase 265 mil seguidores no Instagram, a conta na rede social do profissional é um artifício para publicar conteúdo informacional a fim de reduzir danos causados pelo uso de substâncias psicoativas.
Nos vídeos postados na conta @sento.mesmo e na palestra mencionada anteriormente, Vulpo não se manifesta contra a proibição do uso de drogas e álcool. Segundo o médico, é possível viver uma vida de alimentação saudável e exercícios físicos diários balanceada com o uso recreativo de drogas e álcool. Na realidade, existem casos que se beneficiam da contraposição, como ele mesmo relata em um caso na palestra para a TEDx.
O objetivo dessa coluna, assim como eu acredito ser o objetivo dos vídeos do Uno Vulpo, é conscientizar o leitor/espectador sobre o consumo de drogas. Eu acredito que silêncio e proibição nunca foram recursos exatamente eficientes para evitar o uso e comercialização de substâncias ilícitas, visto a quantidade de mortes anuais por uso de drogas quimicamente alteradas. Sem contar nas mortes dos corpos pretos periféricos como resultado de ações regulares da polícia militar nas favelas do Brasil, com a justificativa de ser uma ação eficiente contra as drogas.
Não faço de exemplos vagos casos que comprovam a realidade, portanto, trago a situação que acontece em Portugal. Segundo matéria publicada pelo El País, desde o ano 2000 é legalizado carregar consigo até 10x uma dose específica de alguma substância psicoativa. A comercialização ainda é proibida, mas as consequências positivas para a vida da população portuguesa é palpável. “Apesar de o consumo global de drogas não ter diminuído, o de heroína e cocaína, duas das mais problemáticas, passou de afetar 1% da população portuguesa para 0,3%; As contaminações por HIV entre os consumidores caíram pela metade (na população total, passaram de 104 novos casos por milhão ao ano em 1999 para 4,2 em 2015), e a população carcerária por motivos relacionados às drogas caiu de 75% a 45%, segundo dados da Agência Piaget para o Desenvolvimento (Apdes)”, afirma a matéria.
Não é como se a legalização para uso pessoal fosse acarretar em um uso desenfreado de substâncias. Os dados mostram, na verdade, que acontece o oposto. Com a devida regulamentação e capacitação de profissionais da saúde para atuar em casos de regulação do uso, as pessoas podem se relacionar de maneira muito mais saudável com as drogas. Eu entendo que é contraditório falar de saúde corporal e mental e afirmar que é possível usar drogas na mesma frase, mas de fato, é real.
Usar drogas não é saudável, longe disso. As consequências de se fumar uma carteira de cigarro, por exemplo, podem ser lidas mesmo na embalagem, e são reais. Seu uso acarreta enfisema pulmonar, doenças cardiorrespiratórias, câncer e redução de fertilidade para o usuário, ainda assim, o número de adultos que se autodeclaram fumantes no Brasil cresceu nos últimos três anos. A ação lógica não deveria ser a de criminalizar o cigarro, pensando em um meio de evitar a proliferação da cultura do tabagismo entre os jovens, e sim investir em campanhas eficientes de conscientização e protocolos de redução de danos nos postos de saúde, assim como existe na França.
Pensar em ações antidrogas vai muito além de pensar em constitucionalização e criminalização da circulação das substâncias. É preciso analisar o que leva as pessoas a escolherem suas drogas de preferência e interpretar as possíveis causas daquele uso em específico. A nicotina, presente no cigarro, é responsável pela sensação de prazer despertada pela liberação de dopamina no sistema nervoso. A pergunta não deveria ser: como combater a cultura do tabagismo? e sim, como combater os sintomas que causam a cultura do tabagismo? Pensar na causalidade das fatalidades por enfisema pulmonar leva a discussão a lugares muito mais prolíferos do que discutir leis de proibição do uso de cigarro para menores de idade.
Afinal, esses jovens estão em contato com o cigarro, independente de material conscientizador nas embalagens das carteiras ou proibição de venda para menores de 18 anos. A circulação do psicoativo ainda acontece. Não seria mais efetivo pensar, como uma ação antidrogas, o aprimoramento da educação básica? Seja em infraestrutura, seja em capacitações pedagógicas que possam atuar de diferentes formas que não somente em sala de aula? Não seria uma ação antidrogas também fornecer capacitação laboral por direito após a conclusão do ensino médio? E orientações específicas, com psicólogos e pedagogos, sobre o mercado de trabalho? Dentre diversas outras ideias que possam surgir, e abarcam diferentes fatores sociais, com a intenção de distanciar os jovens dos usos de drogas como uma possibilidade.
Essas minhas ideias são a solução para acabar de vez com o uso de drogas? De certo que não. Mas uma política efetiva que incorpore cada uma dessas possíveis atividades de utilização do tempo para estudo e/ou trabalho certamente evita a aproximação com alguma substância. Ou, na verdade, torna-se incentivo para a experimentação de drogas e, vindo de encontro com a ideia inicial de evitar seus usos, transforma-se em válvula de escape de uma realidade regida por estudo e trabalho.
Reitero, assim, que não existe solução 100% eficaz para desincentivar o uso de drogas. O que existe, em realidade testada e comprovada, é a ação de uma política de redução de danos, assim como Uno Vulpo exemplifica diariamente em seus posts no Instagram e fala na TEDx. É preciso pensar em práticas de alerta para saúde e conscientização de como usar as substâncias em medidas seguras. Se não existem, afinal, maneiras de incentivar o completo abandono do uso de substâncias, é possível, ao menos, educar as pessoas para fazerem seus usos de maneiras conscientes e gerando o mínimo risco possível.



