“Tudo o que encontrei não é suficiente para saber sobre ela”: Nélio Silzantov fala sobre Madalena Reinbolt no podcast Correspondência Literária

Em entrevista a Ane Xavier, escritor falou sobre pesquisa, memória, apagamento e as escolhas estéticas de Em busca de Madalena Santos Reinbolt, romance que encerra sua Trilogia Urbana

Foto: Arquivo pessoal/Nélio Silzantov
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 27/08/2026, 05:10h

Entre documentos encontrados e histórias que permanecem desconhecidas, o escritor Nélio Silzantov passou anos procurando Madalena Santos Reinbolt. Artista negra nascida em Vitória da Conquista, ela transformou fios, tecidos, cores e lembranças em obras que alcançaram reconhecimento no circuito artístico brasileiro. Parte de sua própria história, no entanto, permaneceu dispersa em poucos registros. Foi justamente nesse espaço entre o que se sabe e o que ainda falta descobrir que nasceu Em busca de Madalena Santos Reinbolt, publicado pela editora Litteralux. O livro foi tema de uma nova edição do Correspondência Literária, em entrevista conduzida pela jornalista Ane Xavier.

Escritor, crítico literário e professor, Nélio é formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), doutorando em Educação e membro fundador do Foro Literário Sertão da Ressaca. O novo romance encerra a chamada Trilogia Urbana, iniciada com Desumanizados, em 2020, e continuada por A Finitude das Coisas, publicado em 2023. Durante a entrevista, o autor contou que a ideia de escrever sobre Madalena surgiu ainda durante a produção do primeiro romance. A dificuldade de encontrar informações sobre a artista, porém, acompanhou o projeto desde o início. “Tudo o que eu encontrei não é o suficiente para saber sobre ela”, afirma.

A escassez documental não foi apenas uma dificuldade enfrentada durante a pesquisa. No romance, ela se transforma em parte da própria experiência proposta ao leitor. Nélio explicou que decidiu incorporar ao livro o incômodo provocado pelas informações que não conseguiu encontrar. Em vez de oferecer uma reconstrução que pretendesse dar conta de toda a trajetória de Madalena, o escritor preservou espaços de ausência.

“Eu fiz questão de que esse sentimento de falta estivesse ali presente no leitor, porque eu queria que essa obra perturbasse as pessoas da mesma forma como ela me perturbou, no sentido de falar assim: ‘Quem é essa mulher? Preciso conhecer ela, eu preciso ir atrás de informações’.”

A escolha também estabelece uma diferença entre a proposta do romance e a de uma biografia. Durante a conversa, o autor afirmou que uma obra literária se amplia quando o leitor encontra lacunas deixadas propositalmente pelo escritor e passa a participar da construção de sentidos.

No caso de Madalena, existem ainda lacunas anteriores à ficção. Segundo o escritor, são poucos os registros disponíveis sobre períodos como a infância e a adolescência da artista em Vitória da Conquista. Para lidar com aquilo que não poderia reconstruir documentalmente, o autor criou uma personagem que funciona como um “espelho” de Madalena. A partir dela, o romance aborda deslocamento, identidade, costumes familiares e a passagem entre o espaço rural e a cidade. “Madalena tem um duplo sentido, biográfico e metafórico. Então, essa busca por Madalena também é uma busca por identidade"contou.

A aproximação com Madalena não acontece somente pelo conteúdo do romance. A obra da artista também interfere na forma escolhida para narrá-lo. Conhecida especialmente pelos trabalhos que chamava de “quadros de lã”, Madalena construiu composições marcadas pela presença de diferentes figuras, elementos e materiais. Na entrevista, Nélio explicou que a ideia de coletividade presente nessas obras foi transportada para a estrutura do livro.

Além de Madalena, outras figuras ligadas à história de Vitória da Conquista aparecem na narrativa. Entre elas, o autor cita o cineasta Gaguinho. Ao reunir essas diferentes histórias, o autor aproxima o próprio processo de escrita do gesto de tecer. “Quando eu falo sobre a história de vida dessas pessoas, eu estou construindo essa tapeçaria”, declarou.

A relação entre literatura e artes visuais também aparece por meio da écfrase, técnica utilizada para construir literariamente uma imagem. Silzantov explicou que o procedimento não consiste apenas em enumerar aquilo que pode ser visto, mas em transformar a imagem em narrativa, incorporando elementos como ação, textura, som e dramaticidade. O recurso já estava presente em trabalhos anteriores do escritor e foi retomado a partir das obras de Madalena. Essa influência também levou o autor a rejeitar uma sugestão recebida durante uma das leituras críticas do romance. Diante da possibilidade de tornar a voz narrativa mais homogênea, escolhendo um registro predominantemente poético ou ensaístico, Silzantov decidiu manter as variações.

Segundo o escritor, o romance acompanha os contrastes que identifica na produção da artista. Assim, a linguagem pode assumir um tom mais poético em determinados momentos e recorrer a uma construção mais ensaística quando a narrativa exige reflexão sobre questões sociais e históricas.

A oralidade constitui outro elemento da construção estética de Em busca de Madalena Santos Reinbolt. Para trabalhar as vozes de bordadeiras, benzedeiras e contadoras de histórias que atravessam o romance, Nélio retomou tradições narrativas anteriores à literatura escrita. Durante o processo, o escritor voltou à Ilíada e à Odisseia para observar recursos associados à transmissão oral de histórias. Para ele, reproduzir a oralidade literariamente não significa apenas incorporar sotaques, expressões ou marcas regionais à fala dos personagens. De acordo com o autor, “a oralidade vai um pouco mais além. Ela se dá também como forma.”

Repetições, ritmos e outras estruturas capazes de favorecer a memória e a transmissão das histórias também foram incorporadas ao projeto narrativo. O espaço, por sua vez, interfere no ritmo. Na infância da narradora, vivida nos Campinhos, o tempo assume maior lentidão. A mudança para Vitória da Conquista altera essa dinâmica, e o contraste se intensifica quando a personagem chega a São Paulo e visita o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Nesse momento, o escritor procura reproduzir na linguagem a velocidade e a experiência de deslocamento pela metrópole.

A cidade atravessa não apenas o novo romance, mas toda a Trilogia Urbana. Morando atualmente em São Carlos, no interior de São Paulo, Silzantov afirmou que a distância contribuiu para que pudesse observar Vitória da Conquista por outra perspectiva. Na entrevista, o escritor criticou produções que, em sua avaliação, constroem uma relação exclusivamente elogiosa com a cidade, mas também rejeitou o caminho oposto, de reduzi-la aos seus problemas. Para ele, a distância contribuiu para a busca desse equilíbrio.

A relação crítica não elimina, entretanto, o vínculo afetivo. No bate-bola que encerrou parte da conversa, Nélio foi questionado se escrever a Trilogia Urbana havia sido um ato de amor ou um acerto de contas com Vitória da Conquista: “eu diria que foi um ato de amor”, declarou.

Para o autor, esse vínculo também permite chamar atenção para problemas da cidade. Ao longo da trilogia, Vitória da Conquista deixa de funcionar apenas como cenário e passa a integrar os conflitos colocados pela narrativa. De acordo com ele, “a literatura, de certa forma, é uma maneira também de falar o que os documentos oficiais não falam.”

A relação entre Madalena e Vitória da Conquista ocupa um lugar particular nesse percurso. Silzantov recuperou durante a entrevista uma declaração da artista na qual ela manifestava saudade de sua terra e o desejo de retornar. Madalena, no entanto, permaneceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde morreu. No romance, o escritor encontrou uma possibilidade de produzir simbolicamente esse retorno. 

A intenção não é encerrar a procura. Pelo contrário. Ao falar sobre o final do livro, Silzantov explicou que espera provocar outros leitores a buscar informações sobre Madalena e ampliar coletivamente aquilo que se conhece sobre sua trajetória.

 “Quanto maior for o número de pessoas em busca de Madalena, mais a gente vai obter informações sobre ela e a gente vai conseguir construir essa imensa tapeçaria que é a biografia dela, de uma forma coletiva”

Talvez por isso a última pergunta do Correspondência Literária tenha terminado não com uma tentativa de definir Madalena, mas com o desejo de escutá-la.

No tradicional quadro Carta Para..., Nélio foi convidado a imaginar o que diria à artista caso pudesse encontrá-la. A resposta foi breve: “eu, na verdade, faria um pedido para ela. Eu pediria para ela me contar uma história. Só. Eu só queria ouvir.” Depois de uma busca construída entre documentos, imagens, fios e ausências, o romance não reivindica a última palavra sobre Madalena Santos Reinbolt. Deixa, em vez disso, uma pergunta aberta — e o convite para que a procura continue.

O episódio completo, produzido e apresentado por Ane Xavier, está disponível no Spotify. Ouça abaixo:

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