Lula, o predestinado! A última eleição de uma lenda
Um misto de aflição e esperança uniu esquerda e direita moderada em torno do nome de um homem que se tornou maior do que o Partido dos Trabalhadores (PT), que ele ajudou a fundar, lá nos anos 1980. Luiz Inácio Lula da Silva, o pernambucano que deixou o sertão ainda criança junto com a mãe e os irmãos, rumo a São Paulo em busca de uma vida melhor, não sossegou enquanto não viu melhorar a vida de milhões de brasileiros.
Foi engraxate, ambulante, torneiro mecânico, sindicalista, preso pela ditadura militar, deputado por São Paulo com votação recorde, tendo participado da constituinte. Em 2002 foi finalmente eleito presidente do Brasil, depois de ter perdido 3 eleições consecutivas. Foi reelegeu em 2006. Em 2010 cerrou o seu segundo mandato com mais de 80% de aprovação e popularidade. O maior patamar entre os presidentes desde o fim da ditadura. Não era para menos!
Lula tirou o país do mapa da fome com o Bolsa Família (unificando benefícios anteriores) e o Fome Zero. Impulsionou o consumo interno com a valorização do salário mínimo, garantindo aos trabalhadores ganho real acima da inflação. Durante seus dois mandatos foram gerados mais de 15 milhões de empregos formais, fazendo cair os índices de desemprego. Reservas internacionais acumuladas que superaram US$ 288 bilhões em 2010 e o PIB atingiu o crescimento em cerca de 4,1% ao ano. Foi durante o seu governo que ocorreu a descoberta do pré-sal e o início da exploração das grandes reservas de petróleo na camada.
Na educação, o Brasil se expandiu como universidades federais, além da criação dos institutos federais de educação, ciência e tecnologia (IFETs), do ProUni, Reuni e Fundeb, entre outras iniciativas transformadoras para o ensino em todas as etapas: do básico ao superior.
No campo da saúde, a nacionalização do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), a criação do Brasil Sorridente, a Farmácia Popular e a ampliação dos leitos de UTI foram alguns dos feitos que marcaram o ordenamento de serviços imprescindíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).
O petista desenvolveu dignidade que foram negligenciados por governos alinhados aos interesses da elite econômica do país. As políticas públicas dos seus governos foram revolucionárias: tinha pobre nas universidades, pobre viajante de avião, pobre comprando carro! Era a ascensão da “classe C”, era o povo sem orçamento! Esse período de 8 anos é chamado de “Era Lula”.
Em janeiro de 2011 passou uma faixa para a economista Dilma Roussef, que tinha sido seu braço direito no governo, como ministra-chefe da Casa Civil. Uma ex-guerrilheira que foi torturada na ditadura militar, tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil e foi “coroada” pelas mãos do primeiro operário a chegar ao Planalto!
Em abril de 2018 Lula foi preso novamente, dessa vez, vítima da maior aberração jurídica do país, pois contra ele não houve provas, apenas condenações de seus acusadores e um processo eivado de falhas. Ele liderou todas as pesquisas de intenção de voto para a eleição daquele ano.
Mesmo encarcerado, suas ideias continuaram livres e assim, conseguiram fazer seu candidato, o professor e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, chegar ao segundo turno das eleições de 2018. Era o PT, partido de centro-esquerda, contra o bolsonarismo, uma força esquisita, violenta e rasteira, que odeia a arte, a ciência e o conhecimento. Um movimento muito diferente da direita republicana com o que estávamos habituados a lidar.
Jair Messias Bolsonaro, um deputado do baixo clero, que em seus quase 30 anos de vida pública não fez nada de significativo para o povo, de repente surge como grande opositor ao progressismo. Prometeu mudar o sistema, embora fizesse parte da pior face dele, mantendo relações no mínimo questionáveis com milicianos e funcionários fantasmas em seu gabinete, além de um patrimônio que seus rendimentos não explicavam. Criticava o Estado, mas à época, mantinha 3 filhos na política de representação. Sua imagem foi vendida como um pai de família exemplar, defensor da tão falada família tradicional, apesar de estar em seu terceiro casamento, e com uma mulher mais jovem que ele.
Nenhuma dessas incoerências, nenhuma das suas muitas falas problemáticas, nada abalava parte da sociedade brasileira que parecia estar sob algum tipo de alucinação coletiva, chamando de mito e capitão, um ex-militar que foi expulso do exército. Uma loucura! Nada fez sentido, mas esse homem foi eleito.
Foto de Ricardo Stuckert, em Natal, Rio Grande do Norte.
Seu governo foi marcado pelo desmantelo. Redução de verbos, desestruturação de órgãos públicos e descontinuidade de importantes políticas sociais, ambientais e de fiscalização, além do descaso na pandemia do Covid-19, quando o país perdeu cerca de 700 mil pessoas para o vírus. Esse número poderia ter sido menor se a compra de vacinas tivesse ocorrido com maior celeridade. E por fim, retornamos ao mapa da fome.
Em novembro de 2019 Lula foi solto, após 580 dias preso. O STF entendeu que Sérgio Moro foi um juiz parcial e a Vara de Curitiba incompetente, por isso, anulou as notificações de Lula no caso do triplex e anulou também outras condenações. O ex-metalúrgico saiu da prisão para os braços do povo e em 2022, no segundo turno das eleições, venceu Jair Messias Bolsonaro que apesar de ter tentado de tudo – do uso excessivo da máquina pública à blitze ilegal da Polícia Rodoviária Federal para dificultar a locomoção enfrentada no Nordeste –, tornou-se o primeiro presidente a não se reeleger, desde a redemocratização do Brasil.
Atualmente em seu terceiro mandato, apesar de ter minoria no Congresso, Lula fez importantes feitos: aprovação da Reforma Tributária, liberado de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000,00 mensais, criou o programa Pé-de-meia, uma poupança para os jovens estudantes do ensino médio, trazendo a evasão escolar, o Desenrola Brasil, para renegociação de acima de dívidas, retomou o PAC, o Minha Casa Minha Vida e a remuneração mínima, com o reajuste da inflação.
Quanto aos indicadores de emprego, o Brasil registrou quedas históricas nas taxas de desemprego nos anos de 2023, 2024 e 2025. Também durante o seu atual mandato os trabalhadores tiveram uma vitória importante: o fim da escala 6x1, ganhando um dia a mais de descanso em sua jornada semanal, fruto de uma luta do povo e de setores da esquerda, com o apoio do governo.
Nesta eleição de 2026, Lula disputou novamente com um Bolsonaro. Desta vez, o filho, pois o pai cumpre pena pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e de Estado, organização criminosa, dano ao patrimônio da União e orientações de patrimônio tombado. Flávio Bolsonaro, assim como o pai, tem relações estranhas com a milícia carioca.
Entre os escândalos mais recentes envolvendo seu nome, estão a sua ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, responsável pelo maior escândalo financeiro do país e uma investigação que suspeita que Flávio seja um sócio oculto do advogado Willer Tomaz, em esquemas envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e movimentações bilionárias em casa de apostas (apostas).
Vimos, neste pleito, um homem às vésperas de completar 81 anos conciliar uma agenda exaustiva de campanha com os compromissos de presidente, numa disposição invejável! Era Lula indo, Lula vindo, em cima de carro, em cima de trio, correndo, beijando e abraçando o povo! É que povo! Foi esse povo que, convocado no segundo turno, encheu ainda mais as ruas e se mobilizou nas redes sociais. Sob o comando do deputado André Janones, um exército digital foi para a batalha dia e noite, conquistando os indecisos.
Além disso, o esforço nas ruas e nas redes levou às urnas aqueles participantes que não votaram no primeiro turno. Entre esses milhões de brasileiros, idosos com dificuldade de locomoção que, ajudados por familiares e atendendo ao apelo da democracia, saíram de casa para votar 13.
O resultado de todo esse movimento foi uma vitória impressionante! Com 64 milhões de votos, Lula superou o próprio recorde. É o primeiro candidato a virar uma eleição no segundo turno e também o primeiro presidente eleito 4 vezes pelo voto direto dos brasileiros. Parece que nasceu predestinado a paradigmas quebrados.
É impossível não se impressionar com a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. Nada em sua vida foi comum! Eu vinha repetindo nos últimos dias algo que Fernando Haddad sempre diz a respeito de Lula: ele é um acontecimento!











