UNESCO alerta: 189 jornalistas foram assassinados em dois anos; ataques com drones ampliam riscos em zonas de guerra

Relatório divulgado nesta segunda-feira (2) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) revela que 189 jornalistas foram mortos em 2024 e 2025.

UNESCO alerta: 189 jornalistas foram assassinados em dois anos; ataques com drones ampliam riscos em zonas de guerra
  • Júnior Patente
  • Atualizado: 02/11/2026, 02:45h

Desse total, 127 perderam a vida em países afetados por conflitos armados. O documento também aponta o crescimento do uso de drones em ataques contra profissionais da imprensa e o avanço da impunidade, que chegou a 86% dos casos.

O exercício do jornalismo em diferentes partes do mundo é cada vez mais marcado pela violência, pelas ameaças e pela falta de proteção aos profissionais da comunicação. Um relatório divulgado pela Unesco na segunda-feira (2 de novembro) revela que 189 jornalistas foram assassinados durante os anos de 2024 e 2025. O número representa um aumento de 20% em comparação com o biênio anterior e é o maior registrado pela organização em uma década.

De acordo com o Relatório sobre a Segurança dos Jornalistas e o Perigo da Impunidade, 127 mortes ocorreram em países que enfrentam conflitos armados, o equivalente a aproximadamente 67% do total. Os dados evidenciam os riscos enfrentados por repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e outros trabalhadores da imprensa que atuam na cobertura de guerras e crises humanitárias.

Um dos aspectos mais preocupantes identificados pela organização é o emprego crescente de novas tecnologias militares nos ataques contra jornalistas. Segundo o levantamento, 50 profissionais foram mortos por ataques de drones em zonas de conflito durante o período específico. O número corresponde a aproximadamente 40% das mortes registradas nesses territórios.

O documento também chama atenção para ataques contra instalações utilizadas por veículos de comunicação e locais improvisados como centros de cobertura jornalística. Em diferentes episódios, vários profissionais foram mortos em uma mesma ofensiva. Pelo menos 15 jornalistas morreram enquanto utilizavam coletes identificados com a palavra imprensa ou estavam em veículos claramente sinalizados como pertencentes a equipes jornalísticas.

A situação demonstra que a identificação profissional e o trabalho de cobertura não têm sido suficientes para preservar a segurança de quem atua em áreas de guerra.
Palestina concentra parte expressiva das mortes
Os territórios palestinos aparecem entre os locais mais perigosos para o exercício da profissão. Segundo os dados divulgados pela Unesco, 62 jornalistas foram assassinados na Palestina durante o biênio 2024-2025, aproximadamente um terço de todas as mortes contabilizadas mundialmente.

O cenário reforça a dimensão dos riscos enfrentados pelos profissionais que trabalham em regiões submetidas a operações militares, bombardeios e confrontos armados. A morte de jornalistas nessas circunstâncias também compromete o acesso da população a informações independentes sobre os acontecimentos.
Impunidade chega a 86%
Além do número de assassinatos, o relatório apresenta outro dado alarmante: a maioria dos crimes contra jornalistas continua sem solução.

A taxa global de impunidade chegou a 86% em 2026, um ponto percentual acima do índice registrado em 2024. É a primeira elevação desde que a Unesco começou a acompanhar sistematicamente esse indicador, em 2012.

Desde 2006, a organização contabilizou 1.641 jornalistas assassinados em todo o mundo. Apenas 223 desses casos foram solucionados judicialmente, enquanto centenas permanecem sem conclusão ou sem respostas das autoridades responsáveis.

O problema ultrapassa a violência física. Jornalistas também enfrentam sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, ameaças, perseguições e campanhas de intimidação nas plataformas digitais.
Brasil também registra assassinato de jornalista
O levantamento da Unesco identificou uma morte de profissional da imprensa no Brasil durante o período analisado. A vítima foi Luís Augusto Carneiro da Costa, conhecido como Luisinho Costa, assassinado em maio de 2025, dentro do estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no Pará.

Segundo informações da Polícia Civil paraense, o inquérito foi concluído e encaminhado à Justiça, com quatro pessoas indiciadas.

O caso evidencia que a violência contra jornalistas não está restrita aos campos de batalha. Profissionais que investigam corrupção, denunciam atividades criminosas ou acompanham disputas políticas também estão expostos a ameaças e ataques em países sem conflitos armados. 
Agência Brasil+1

Mulheres jornalistas também enfrentaram riscos
O relatório contabilizou 14 mulheres jornalistas assassinadas em 2024 e 2025. Treze morreram delas em países que enfrentaram conflitos armados.

Além da violência física, a Unesco destaca o crescimento das ameaças e agressões direcionadas às mulheres jornalistas no ambiente digital, incluindo assédio, intimidação e ataques motivados pelo gênero.

Essas práticas podem ultrapassar o espaço virtual e provocar consequências na segurança e na vida profissional das vítimas. 
UNESCO+1

Liberdade de imprensa é um direito da sociedade
A divulgação do relatório ocorre em 2 de novembro, dados instituídos pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas.

A busca de dados chama a atenção dos governos e da sociedade para a necessidade de investigar assassinatos, responsabilizar os autores de ataques e criar condições para que os profissionais da comunicação exerçam suas atividades com segurança e independência.

A proteção aos jornalistas não representa apenas a defesa de uma categoria profissional. Está diretamente relacionado ao direito da população de receber informações, conhecer diferentes versões dos acontecimentos, fiscalizar o poder público e participar da vida democrática.

Quando um jornalista é assassinado por causa de seu trabalho, a violência não atinge apenas a vítima, seus familiares e colegas. Também representa uma ameaça à liberdade de expressão e ao direito coletivo à informação.

Os números apresentados pela Unesco deixam um alerta: sem investigação, responsabilização e mecanismos efetivos de proteção, a violência contra jornalistas continuará alimentando um ambiente de medo, censura e silenciamento

 

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