GUILHERME MENEZES: da infância em Iguaí à construção de um projeto político em Vitória da Conquista - Parte 1

Nascido em 12 de dezembro de 1943, em Iguaí, então distrito de Poções, Guilherme Menezes de Andrade iniciou uma trajetória que passou pela medicina, pela saúde pública e pela vida política.

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  • Atualizado: 07/11/2026, 10:56h

Formado em Medicina pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, em Salvador, em 1982, especializou-se em obstetrícia. Antes de disputar eleições, trabalhou na rede pública de saúde e ocupou cargos de direção e gestão, entre elas na Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista, de 1984 a 1987.

Na política, foi eleito deputado estadual em 1994, prefeito de Vitória da Conquista em quatro graças e deputado federal por dois mandatos. Sua primeira eleição para a Prefeitura ocorreu em 1996, com posse em janeiro de 1997. Depois de deixar o cargo em 2002 para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, retornou ao Executivo municipal em 2009 e chegou até dezembro de 2016. Sua trajetória está diretamente ligada a um período de duas décadas de administrações do Partido dos Trabalhadores no município, com a participação também do ex-prefeito José Raimundo Fontes.

A infância em Iguaí e a formação de um médico

A história de Guilherme Menezes começa em uma cidade do interior baiano, em uma realidade muito diferente daquela que encontraria décadas depois como prefeito de Vitória da Conquista. Em entrevista à Mega Rádio, ele registrou a infância em Iguaí, quando o município ainda era uma vila pertencente a Poções.

As brincadeiras aconteciam nas ruas, nos quintais e na zona rural. Não havia a presença constante da tecnologia, a convivência com a natureza fazia parte do cotidiano. Ao relembrar aquele período, Guilherme falou de uma infância marcada pela liberdade e pela simplicidade.

“Brincando com cavalo de pau, com carrinho feito à mão, jogando bola no quintal, indo para a roça, para a zona rural, montar cavalo. Na rua era muito tranquilo. Tomar banho de rio, aprender a nadar. Era outra infância que se tinha”, conto.

A principal dificuldade, segundo ele, era o acesso à educação. Em Iguaí, as oportunidades de estudo eram limitadas, e continuar a formação deixaria a família e procurar escolas em outras cidades. Com a ajuda de um tio, conseguiu uma bolsa para estudar em Jaguaquara, no Colégio Taylor-Egídio. Depois, passou por Jequié e passos para Salvador.

A mudança de cidade ainda jovem representou uma etapa decisiva de sua formação. Em Salvador, trabalhou no Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais e chegou a iniciar o caminho para a universidade. O golpe militar de 1964, entretanto, marcou profundamente aquele período.

Guilherme contou que prestou vestibular para Medicina em 1965, mas acabou interrompendo os planos. “Veio o golpe militar em 1964 e era uma desesperança que existia, principalmente nos jovens”, recordou. Ele só retomaria os estudos posteriormente, concluindo o curso de Medicina em 1982.

A escolha profissional o levou à saúde pública e, mais tarde, a Vitória da Conquista, cidade onde desenvolveria uma parte importante de sua vida pessoal e profissional.

Da medicina à vida pública

Antes de se tornar uma liderança política, Guilherme Menezes construiu sua relação com Vitória da Conquista a partir do trabalho na saúde. Durante a administração do prefeito José Pedral, foi convidado a atuar na Secretaria Municipal de Saúde. A experiência colocou diante de problemas sociais que ultrapassaram os limites do atendimento médico.

Um dos episódios que ele gravou na entrevista foi uma visita ao antigo lixão localizado na região do bairro Bruno Bacelar. O local recebeu resíduos hospitalares misturados ao lixo doméstico e comercial. Adultos e crianças vivem em condições de exposição a materiais contaminados.

Guilherme relatou que, ao chegar à Secretaria, pediu um carro para conhecer a realidade das pessoas que viviam naquela área. “Eu sabia que Conquista tinha um lixão a céu aberto lá no Bruno Bacelar. Eu quero um carro para fazer uma visita, para ver como estão aquelas pessoas, as crianças”, lembrou.

A partir da visita, foram realizadas reuniões e ações externas para verificação dos cartões de vacinação e para identificação das necessidades de saúde daquela população. O médico também chamou atenção para a ausência de separação entre o lixo hospitalar e os resíduos comuns.

A experiência contribuiu para consolidar sua atuação na gestão pública. Posteriormente, transferido a direção regional de saúde, a antiga Dires, responsável por acompanhar os serviços em Vitória da Conquista e em outros municípios da região. Também teve atuação ligada ao Hospital Regional Crescêncio Silveira.

Depois de trabalhar na região, mudou-se com a esposa, Josete, também profissional da saúde, para Caldas do Jorro, no município de Tucano, onde ocorrem por aproximadamente três anos. O casal trabalhava junto em uma unidade de saúde pública.

A medicina, portanto, foi o caminho inicial de sua relação com a administração pública. A política eleitoral chegaria depois, por meio de convites de pessoas que viam nele uma possibilidade de construir uma alternativa para Vitória da Conquista.

A entrada na política e a chegada à Prefeitura

Guilherme Menezes afirma que não planejava disputar cargas eletivas. Em 1992, foi procurado por lideranças políticas que defendiam seu nome para disputar a Prefeitura. Entre as pessoas que participaram das conversas estavam Zé Novais, Elias Dourado e José Raimundo Fontes.

A candidatura foi construída pelo Partido Verde, dentro da formação da Frente Conquista Popular. O próprio Guilherme acreditava que a disputa serviria principalmente para apresentar um novo campo político à população, sem expectativa de vitória.

O resultado, porém, surpreendeu. Segundo ele, havia quem previsse uma votação próxima de 1.800 votos. Nas urnas, alcançou cerca de 14 mil.

"Não era minha praia. Eu queria ficar fazendo as minhas obrigações dentro do ofício meu, que era a medicina", afirmou, ao lembrar que chegou a se afastar da política depois daquela primeira experiência.

A votação de 1992, no entanto, abriu espaço para sua participação em um projeto partidário mais amplo. Depois de conversas com lideranças do PT, filiou-se ao partido e, em 1994, foi eleito deputado estadual. Dois anos depois, voltou a disputar a Prefeitura de Vitória da Conquista e venceu a eleição de 1996.

A posse ocorreu em 1º de janeiro de 1997. O cenário encontrado era de grave dificuldade financeira e administrativa. A Prefeitura acumulava dívidas, a supervisão dos servidores ficava atrasada e os serviços provinciais enfrentavam problemas de funcionamento.

Na entrevista, Guilherme classificou aquele início como uma experiência difícil, mas importante para sua formação como gestor. Segundo ele, alguns funcionários estavam há quatro, cinco e até seis meses sem receber.

"Peguei uma prefeitura realmente com uma dívida com os funcionários de quatro, cinco meses. Alguns chegaram a seis meses. A Prefeitura estava sem crédito", relatou.

A situação era tão delicada que fornecedores e postos de combustível não aceitavam conceder crédito ao município. Para manter os serviços essenciais, o novo governo precisa de apoio à procura de fora da estrutura administrativa.

Guilherme contou que procurou lojas maçônicas, lojas e associações de moradores para explicar a situação e pedir ajuda. A resposta veio de diferentes setores da sociedade. Empresários desenvolvem com combustível, equipamentos e trabalhadores. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também participaram de uma mobilização para retirar lixo e entulho das ruas.

Um dos episódios mais marcantes envolveu um empresário que havia apoiado outro candidato na eleição, mas decidiu colaborar com a nova administração. Ele levou a chave de um trator, com tanque cheio, trabalhadores e ferramentas, para ajudar na limpeza da cidade.

Guilherme registrou a justificativa apresentada pelo empresário: "Vou lhe dizer uma coisa: eu fiz campanha contra você, sou seu oponente. Eu fiz democracia, não é para isso".

O episódio se tornou, em sua memória, um exemplo de convivência democrática e de compromisso com a cidade acima das disputas eleitorais.

Outro momento simbólico foi a visita do político Jadiel Matos, que levou um rolo de papel higiênico e um abacaxi verde. A mensagem era uma referência à necessidade de limpar a cidade e minimizar os problemas encontrados pela nova administração.

"Esse papel higiênico é para você limpar a sujeira da cidade. E o abacaxi verde que eu trouxe é para você descascar", contornou Guilherme, reproduzindo a fala que ouviu naquele dia.

A recuperação financeira e administrativa foi uma das primeiras tarefas do governo. De acordo com o ex-prefeito, em aproximadamente cinco meses a administração conseguiu regularizar os pagamentos dos servidores e atualizar valores relacionados à pensão alimentícia. Também especificação do pagamento do décimo terceiro salário em duas parcelas.

“Em cinco meses a gente não desvia mais um centavo a nenhum servidor, nenhum servidora”, afirmou.

Ele falou aquele período como uma fase de trabalho intenso, com participação direta da população e de sua equipe. "Eu nunca tirei férias. Eu e Josete, trabalhando de dia, de noite, telefones para lá, telefone para cá", lembrou.

O Orçamento Participativo e a Participação Popular

Entre as marcas mais conhecidas das administrações de Guilherme Menezes está a implantação do Orçamento Participativo, em 1997. A proposta era permitir que moradores dos bairros e das comunidades rurais participassem das discussões sobre a aplicação dos recursos públicos e a definição das prioridades da Prefeitura.

A experiência foi inspirada em iniciativas como a de Porto Alegre, durante a gestão de Olívio Dutra. Em Vitória da Conquista, o modelo foi organizado por meio de plenários, escolha de delegados e reuniões nos quais a população apresentava demandas e acompanhava as decisões do governo.

Na entrevista, Guilherme demonstrou entusiasmo ao registrar o funcionamento do programa. Para ele, a participação popular não deveria se limitar à escolha dos governantes nas eleições.

“É uma riqueza, quer dizer, a população opina o que ela quer que seja investida no seu bairro, o que a Prefeitura deve trazer de benefícios”, afirmou.

Os registros históricos apontam que, no primeiro ciclo do Orçamento Participativo, foram realizados 22 plenários, com 1.345 participantes e a escolha de 86 delegados. Os números ajudam a dimensionar a experiência, embora os estudos acadêmicos também apontem limites de participação e desafios para as negociações do processo.

O ex-prefeito registrou especialmente os debates entre os delegados, que cobravam a execução de obras e questionavam a gestão quando as prioridades aprovadas não eram atendidas no prazo esperado.

“Os delegados cheios de orgulho levantando o crachá e discutindo, indo para o microfone dizer que a obra não tinha sido incluída”, contornou.

Ele também destacou a importância de explicar publicamente as razões para atrasos ou mudanças nas obras. Em alguns casos, uma demanda não prevista inicialmente foi incorporada ao projeto, ou que alterou o orçamento e o cronograma.

A experiência, segundo Guilherme, também contribuiu para a formação política dos moradores. “É uma verdadeira escola do gestor”, definindo, ao afirmar que ouvir as comunidades e retornar com os secretários para discutir as prioridades era uma forma de aprender a administrar.

A transparência foi outro aspecto considerado por ele. Durante os gestos, a Prefeitura criou um portal para que a população pudesse acompanhar os gastos públicos. A proposta era ampliar o acesso às informações e permitir que as decisões administrativas fossem fiscalizadas.

Conquista Criança e as políticas sociais

O primeiro ano de administração também foi marcado pela criação de programas sociais. Em setembro de 1997, foi implantada a Conquista Criança, iniciativa voltada ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

O projeto começou com 33 crianças e adolescentes que viviam nas ruas ou em áreas de risco, incluindo o entorno do antigo lixão. A proposta era oferecer acompanhamento educacional, atividades esportivas e recreativas, apoio à escolarização e atenção às famílias, além de assistência clínica e odontológica.

Ao longo dos anos, o programa ampliou sua atuação. Em 2013, a Prefeitura informou que mais de 5 mil crianças e adolescentes já haviam sido atendidos pela iniciativa. O projeto também recebeu reconhecimentos nacionais entre 1998 e 2000, incluindo premiações relacionadas à defesa dos direitos da infância.

A criação do Conquista Criança representou uma tentativa de enfrentar a exclusão social a partir de uma política pública continuada, em vez de ações pontuais de assistência. O atendimento articulado educação, convivência, esporte e transporte familiar.

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Em novembro de 1997, também foi criado o programa Vivendo a Terceira Idade, voltado para a população idosa. A iniciativa buscava estimular a convivência, a participação social e atividades de promoção da saúde. Um estudo sobre o programa de acordos com aproximadamente 400 participantes distribuídos em oito bairros em 2006.

A implantação dessas duas iniciativas no primeiro ano de governo revela a prioridade atribuída pela administração às políticas sociais. Na entrevista, Guilherme relatou essas ações ao compromisso de levar serviços públicos a grupos que, historicamente, enfrentaram maiores dificuldades de acesso.

Continua na Parte 2: saneamento, obras de infraestrutura, atenção à zona rural, a experiência em Brasília, o retorno à Prefeitura e o legado político de Guilherme Menezes.

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