Lula monta maioria de até 364 deputados para o quarto mandato, mas apoio do Centrão tem preço
Após derrota de Flávio Bolsonaro, blocos de centro se reaproximam do Planalto; Câmara dá margem para aprovar PEC, enquanto Senado bolsonarista impõe limite ao governo.
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial rearrumou o tabuleiro do Congresso e abriu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a perspectiva de começar o quarto mandato com uma base de negociação de até 364 dos 513 deputados federais — 70,9% da Câmara e votos aprovados para aprovar até emendas à Constituição. O sinal mais visível dessa aproximação veio nesta segunda-feira (26), quando Lula recebeu no Palácio da Alvorada os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
O encontro contrário à principal aposta da campanha de Flávio, que aproveitou o avanço da direita nas eleições legislativas como argumento de que teriam melhores condições de governabilidade. O crescimento bolsonarista no Legislativo foi justamente o ponto que mais preocupava o Planalto. Agora, a disposição do Centrão em negociar reduz — mas não elimina — esse risco.
De onde vêm os 364
O número resulta da soma de dois blocos que não formam, necessariamente, uma base governamental. De um lado, os 240 deputados do Centrão articulados em torno de Motta — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB-Cidadania, agrupamento anunciado ainda antes do segundo turno. Do outro, os 124 eleitores por PT, PCdoB, PV (88), PSB (15), PSOL-Rede (15) e PDT (6).
A conta supera os 257 votos exigidos para projetos de lei complementares e os 308 necessários para uma PEC na Câmara. Para mudanças constitucionais, porém, a aprovação precisa ocorrer em dois turnos nas duas Casas, com três quintos dos votos em cada uma — o que desloca a disputa real para o Senado.
O gesto e o interesse comum
Ao fim da reunião, Motta publicou uma foto de mãos dadas com Lula e Alcolumbre. "Diálogo, respeito institucional e compromisso com o futuro. Estivemos hoje com o presidente Lula para cumprimentá-lo e desejar êxito no novo mandato, reafirmar nosso compromisso de harmonia entre os Poderes e o trabalho conjunto do Congresso pelo avanço do Brasil", escreveu.
Por trás do gesto há uma convergência clara: Lula precisa de maioria para governar; Motta e Alcolumbre querem permanecer no comando das Casas a partir de fevereiro de 2027. A derrota de Flávio os favorece diretamente — o PL articulava candidaturas próprias, com Rogério Marinho (RN) para o Senado e Sóstenes Cavalcante (RJ) para a Câmara, e uma vitória bolsonarista no Executivo fortaleceria essas pretensões. O encontro, ressalte-se, não formaliza acordo sobre as Mesas Diretoras.
O Centrão contra o avanço do PL
A reaproximação ocorre em meio à reorganização da direita. O PL elegeu 121 deputados, 24 a mais que em 2022, e se consolidou como maior bancada da Câmara. União Brasil e PP, na federação União Progressista, caíram de 105 para 87. O contraste pressionou os partidos de centro, que dependem da capacidade de negociação para manter influência sobre cargos, comissões e pauta.
Com a derrota de Flávio, o bloco de 240 deputados de Motta passa a servir também de ponte com o Planalto — movimento que reduz a capacidade do PL de comandar sozinho a articulação da direita, apesar de sua bancada maior.
Maioria no papel, apoio na prática
A aritmética favorável não se traduz automaticamente em fidelidade. O terceiro mandato mostrou que partidos contemplados com ministérios e cargos federais contrariaram o governo em temas centrais. O núcleo mais sólido de sustentação de Lula deve seguir concentrado na esquerda e nos aliados mais próximos.
Os pontos de atrito já são conhecidos. O Orçamento de 2027 prevê emendas parlamentares de até R$ 57,5 bilhões, o que amplia o poder do Congresso sobre a destinação de recursos. Na agenda ambiental, o Legislativo já impôs derrotas ao Planalto, como a derrubada de vetos à Lei Geral do Licenciamento Ambiental. As reformas institucionais — entre elas as que restringem cargos civis ocupados por militares da ativa e determinam a transferência à reserva de quem disputar eleições — também devem gerar conflito.
O Senado é o verdadeiro obstáculo
É na outra Casa que o quarto mandato encontra seu limite. O PL terá 29 dos 81 senadores a partir de fevereiro, a maior bancada; o PT, dez. A distância torna decisiva a relação com Alcolumbre, que pretende continuar na presidência — cargo que controla tramitação, comissões e a análise de indicações presidenciais, incluindo ministros do STF.
Os números explicam a importância. Uma indicação ao Supremo exige 41 votos; com 29 senadores, o PL precisa de apenas 12 apoios para bloquear. Uma PEC exige 49 votos em dois turnos, de modo que 33 contrários bastam para impedi-la — o PL precisaria de somente quatro votos adicionais para formar essa minoria. Ou seja: mesmo com os 308 votos na Câmara, Lula terá de construir maioria comprometida no Senado para concluir qualquer mudança constitucional.
O que está em jogo
A reaproximação com o Centrão alterou a demonstração de forças que preocupava o Planalto na campanha, mas não apagou o fortalecimento da extrema direita no Congresso. Existe uma oportunidade; o desafio de Lula será convertido em apoio eficaz sem que as condições impostas pelos novos aliados inviabilizem as prioridades de seu governo.
Com informações de Cleber Lourenço, do ICL Notícias











