Entre a fé e a reconstrução: ECPP Vitória da Conquista estreia na Série B cercado por incertezas e resistência
O início do Campeonato Baiano da Série B 2026, marcado para este fim de semana, reúne dez equipes em um cenário que combina ambição esportiva e desafios estruturais. Entre os participantes — Barreiras, Camaçari, Feira Futebol Clube, Fluminense de Feira, Grapiúna, Jacobina, Redenção, Leônico, Salvador e o ECPP Vitória da Conquista —, a disputa segue o formato já consolidado: turno único, com nove rodadas, e classificação direta dos dois primeiros colocados para as semifinais. Os finalistas garantem o acesso à elite estadual em 2027.
“A Série B começa cercada de expectativas esportivas e desafios estruturais”, resume a presidente da Conquista, Ederlane Amorim, ao analisar o panorama da competição.
Para o dirigente, o momento atual do clube está diretamente ligado à ruptura provocada pelo rebaixamento em 2022, após 16 temporadas consecutivas na primeira divisão. Durante esse período, a Conquista se consolidou como uma das principais forças do interior baiano.
"O clube começou de forma meteórica. Em 2006 conseguiu o acesso à forma invicta e, já em 2007, já estava na elite. A partir de 2008, passou a ter desempenhos que marcaram o resgate do futebol da cidade", relembra. Segundo ele, esse ciclo foi fundamental para reposicionar o futebol de Vitória da Conquista no cenário estadual, com maior visibilidade, atração de patrocinadores e aproximação com a torcida.
Mesmo com a queda, Amorim avalia que o legado permanece. "Esse período mostrou que era possível ter um clube organizado, profissional e competitivo. Isso ficou marcado na história."
A realidade atual, porém, impõe obstáculos importantes. A falta de um calendário e contínuo de receitas previsíveis é apontada como um dos principais entraves para clubes do interior.
"Você passa a depender de resultado sem ter um cronograma financeiro definido. O maior desafio é manter uma estrutura equilibrada. Sem isso, não há como competir", afirma. Ele destaca que o impacto do rebaixamento vai além do campo: perda de patrocínios, redução de receitas e queda de visibilidade.
“Você perde o principal patrocinador de qualquer campeonato, que é a televisão”, diz, ao explicar o desequilíbrio financeiro enfrentado.
Apesar das dificuldades, o clube mantém uma estratégia de valorização das categorias de base, que segue ativas e competitivas. "A base é o principal pilar. É de onde vêm os jogadores e, muitas vezes, a única forma de sustentabilidade no momento", pontua. O dirigente cita campanhas positivas, com destaque para o desempenho defensivo nas competições de base.
A documentação também passou por iniciativas estruturais, como parcerias para utilização de centros de treinamento. Ainda na fase inicial, o projeto busca oferece melhores condições para formação de atletas e continuidade do trabalho técnico.
Dentro do campo, o cenário é ainda mais desafiador. Amorim não esconde que a montagem do elenco para a Série B foi impactada diretamente pela escassez de recursos.
"Esse é o pior ano em termos de elenco e parte financeira. Sem recurso, você não faz nada no futebol", admite. A equipe será formada majoritariamente por jogadores de base e locais selecionados, com limitações inclusive no número de opções para as partidas.
“Para a estreia, convidamos ter apenas 16 jogadores à disposição, sendo cinco do sub-20”, revela.
O contraste com os adversários evidencia o desequilíbrio da concorrência. Clubes com maior investimento e estruturas mais robustas entram como favoritos ao acesso. Entre eles, o Feira Futebol Clube surge como um dos exemplos mais emblemáticos, com forte apoio financeiro e elenco reforçado.
"Eles fizeram um investimento muito grande, com estrutura e visibilidade. Vai ser um ambiente totalmente favorável para eles", projeta.
Diante desse cenário, o presidente define a postura da Conquista na competição de forma direta: “Entramos como franco-atirador”. A estratégia, segundo ele, é apostar na superação e aproveitar oportunidades possíveis.
“Vamos tentar surpreender e fazer um bom papel dentro das nossas limitações.”
Ao se dirigir ao torcedor, Amorim regula o momento delicado e não esconde a frustração pessoal.
"Não existe ninguém mais chateado do que eu. São mais de 20 anos à frente do clube, vivendo altos e baixos", afirma. Ele pede compreensão diante das dificuldades e reforça que a limitação não é por falta de esforço.
"Peço desculpas por não entregar uma equipe mais competitiva. Não é falta de trabalho, é falta de condições."
Sem apoio público e enfrentando obstáculos estruturais, o líder aposta na resiliência como caminho.
"O momento é de se reinventar. O futebol exige continuidade. É seguir trabalhando, jogo após jogo."
Em meio a um campeonato que expõe diferentes realidades financeiras e esportivas, o Vitória da Conquista inicia sua caminhada cercada por incertezas — mas também pela tentativa de assistência de um projeto que, no passado recente, já figurou entre os mais relevantes do futebol baiano.







