Música popular ajudou a naturalizar violência contra a mulher, afirma pesquisador em estudo sobre o samba

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 14/07/2026, 09:43h

A música popular brasileira, especialmente o samba, teve papel fundamental na construção da identidade cultural do país. Mas, ao mesmo tempo em que marcou gerações, também contribuiu para reforçar comportamentos machistas e naturalizar diferentes formas de violência contra a mulher. Essa é a principal conclusão do artigo "Canção Popular e Patriarcado: as letras de samba e a naturalização da violência de gênero", de autoria do historiador e mestre em Museologia e Patrimônio, Fábio Sena.

Durante entrevista concedida a Rádio UP de Vitória da Conquista, o pesquisador explicou que o objetivo do estudo é demonstrar como determinadas mensagens, repetidas durante décadas por meio da música e do rádio, ajudaram a consolidar uma cultura que tratava a violência contra a mulher como algo normal.

Segundo ele, o trabalho parte de um caso real ocorrido em Vitória da Conquista, no bairro Guarani, em que um homem demonstrou indignação ao ser repreendido por uma delegada após agredir a esposa, alegando que teria o "direito" de agir daquela forma dentro de casa.

"Quando uma pessoa cresce sendo bombardeada por mensagens que reforçam determinado modelo de sociedade, ela passa a enxergar aquilo como natural", afirmou.

No artigo, o pesquisador analisa sambas consagrados da música brasileira que reproduziam estereótipos sobre as mulheres.

Entre os exemplos está "Ai, Que Saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago, que transformou a figura da mulher resignada, submissa e sacrificada em modelo ideal de esposa.

Outro caso citado é "Mulher de Malandro", cuja letra sugere que a mulher aceita agressões como demonstração de amor, contribuindo para a banalização da violência doméstica.

Também são mencionadas canções de Noel Rosa que reforçavam a imagem da mulher como interesseira ou desonesta.

Segundo Sena, essas composições eram amplamente difundidas pelo rádio entre as décadas de 1930 e 1960, período em que o veículo era o principal meio de comunicação de massa do país.

O pesquisador destaca que a música não cria sozinha a violência, mas ajuda a consolidar valores sociais.

Ele explica que a cultura popular absorve comportamentos existentes na sociedade e, ao serem reproduzidos continuamente pelos meios de comunicação, acabam legitimando essas práticas para diferentes gerações.

Essa lógica, segundo ele, não se limita à violência de gênero.

O estudo também aponta exemplos de músicas que reforçaram preconceitos raciais, discriminação contra pessoas com deficiência e outros estereótipos sociais. 

Embora muitas dessas composições pertençam ao passado, Fábio Sena afirma que o problema permanece atual.

Segundo ele, novas produções musicais continuam, em alguns casos, reproduzindo discursos que objetificam mulheres ou incentivam relações marcadas pelo controle, pelo ciúme e pela violência.

O pesquisador lembrou ainda que a violência contra a mulher vai muito além do feminicídio, abrangendo violência psicológica, patrimonial, sexual e moral, além de práticas recentes como a pornografia de vingança. 

Durante a entrevista, Fábio Sena também destacou a responsabilidade social dos veículos de comunicação.

Na avaliação dele, rádios, emissoras de televisão e plataformas de mídia precisam exercer uma curadoria responsável sobre os conteúdos que divulgam.

Segundo o pesquisador, embora a liberdade artística deva ser preservada, os meios de comunicação não podem ignorar os impactos sociais provocados pela ampla divulgação de músicas que reforçam preconceitos ou naturalizam a violência.

O estudo foi publicado na Revista Internacional de Folkcomunicação, vinculada à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e pode ser consultado gratuitamente no portal da publicação.

Para o autor, compreender como determinadas narrativas culturais ajudaram a formar mentalidades é um passo importante para enfrentar a violência de gênero e construir uma sociedade mais igualitária.

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