Feminicídios batem recorde no Brasil em 2025, enquanto mortes violentas atingem menor nível em 13 anos
Anuário da Segurança Pública aponta aumento de 4% nos feminicídios e queda de 8% nas mortes violentas intencionais em relação ao ano anterior
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde que esse tipo de crime passou a ser previsto na legislação, em 2015. Ao mesmo tempo, o país alcançou o menor número de mortes violentas intencionais dos últimos 13 anos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Foram contabilizados 1.571 feminicídios ao longo do ano, um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024. Na média, quatro mulheres foram mortas por dia em razão da condição de gênero.
Pela legislação brasileira, o feminicídio é caracterizado quando o assassinato de uma mulher ocorre em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição feminina.
Enquanto isso, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma redução de 8% em comparação com o ano anterior. O indicador reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial.
Pela primeira vez desde o início da série histórica do Fórum, em 2012, a taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes violentas por 100 mil habitantes, chegando a 19,1.
Segundo o gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, David Marques, a redução consolida uma tendência observada desde 2018.
"A importante redução de mortes violentas intencionais entre 2024 e 2025 em mais de 8% é um dado bastante significativo. Consolida uma tendência de redução que a gente vem acompanhando desde 2018 nas estatísticas, praticamente ininterrupta."
Apesar da queda geral, ele ressalta que o aumento dos feminicídios e das mortes decorrentes de intervenção policial ainda representam desafios para a segurança pública.
Violência contra mulheres cresce
Além do aumento dos feminicídios, o anuário aponta crescimento na maior parte dos indicadores de violência contra mulheres em 2025.
Os registros de tentativa de feminicídio cresceram 6%, enquanto os casos de violência psicológica aumentaram 17%. Também houve alta de 30% nos casos de stalking, de 17% no descumprimento de medidas protetivas, de 2,6% nas agressões decorrentes de violência doméstica e de 0,5% nas ameaças.
O levantamento aponta ainda que foram registradas três tentativas de feminicídio para cada caso consumado.
Para a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, o aumento não pode ser explicado apenas pelo aperfeiçoamento dos registros policiais.
"Se a gente estivesse lidando apenas com a melhoria do registro, a gente ia esperar uma estabilização após alguns anos. Mas o que a gente tem observado é um crescimento que segue de forma contínua ao longo desse período de monitoramento."
Segundo a pesquisadora, o cenário também evidencia dificuldades na interrupção de ciclos de violência e limitações da rede de proteção às mulheres.
Outros dados importantes do anuário
O estudo também aponta que:
- as dez cidades mais violentas do país estão localizadas no Nordeste, sendo cinco delas na Bahia;
- Santa Catarina passou a registrar a menor taxa de mortes violentas do Brasil;
- as mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 5%, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%;
- os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil aumentaram 25%;
- os casos de bullying e cyberbullying cresceram mais de 60% entre jovens;
- a população carcerária chegou a 964 mil pessoas, com projeção de ultrapassar 1 milhão de presos em 2027 caso a tendência seja mantida.



