O declínio da hegemonia: por que a derrota de EUA e Israel é inevitável e porque isso é bom
Paulo de Tarso M David
Dois regimes dotados de armas nucleares lançaram-se em uma guerra de agressão contra um país que ainda negociava diplomaticamente. Em um de seus primeiros atos, bombardearam covardemente uma escola para meninas, assassinando mais de 160 jovens. Em seguida, executaram um dos mais respeitados líderes religiosos do Islã. Em apenas trinta dias de conflito, dezenas de escolas, hospitais, ambulâncias, usinas de energia e sistemas de abastecimento de água foram destruídos. Esses não são danos colaterais, mas sim crimes de guerra meticulosamente documentados.
Nada disso surpreende. Trata-se de duas nações habituadas a praticar terrorismo de Estado, derrubar governos democraticamente eleitos, destruir nações inteiras e cometer genocídios, seja de forma direta, como em Gaza, ou indireta, por meio de sanções letais e bloqueios econômicos, sempre sob o manto da impunidade.
Desta vez, guiados por dois líderes cujos comportamentos se alinham com perfis de arrogância e insensibilidade Donald Trump e Benjamin Netanyahu, acreditaram ter encontrado o momento histórico para realizar o antigo sonho dos sionistas radicais, que se autoproclamam defensores de um "Grande Israel" bíblico, um território que se estenderia da Síria ao Líbano, atravessando partes do Iraque, Arábia Saudita e até mesmo da Turquia. Para os Estados Unidos, a motivação era ainda mais pragmática: sufocar o avanço da China, controlando as reservas estratégicas de petróleo iraniano e consolidando sua hegemonia energética global. A justificativa, como sempre, foi a esfarrapada retórica de "libertar as mulheres" e "levar democracia" a mesma usada nas tragédias do Iraque, Afeganistão, Síria Sudão e Venezuela.
É importante lembrar que, em quase 250 anos de existência, os Estados Unidos passaram menos de 20 anos sem estar em guerra. E, entre todos os conflitos que empreenderam, o único que pode ser classificado como vitória incontestável foi sua própria guerra de independência. O resto é uma história de intervenções fracassadas, impérios que se desfizeram e países destruídos, populações sacrificadas em nome de interesses geopolíticos.
A cegueira gerada pela prepotência e pela arrogância impediu que Washington e Tel Aviv enxergassem a realidade: o Irã não é uma nação frágil como a
Venezuela, mas uma civilização com mais de 4 mil anos de história. Invadido inúmeras vezes — por gregos, árabes, mongóis e outras potências —, o Irã sobreviveu a todas as investidas. Foi o coração do Império Persa sob Ciro, milênios antes de os Estados Unidos sequer serem imaginados. Sua cultura, sua coesão social e sua memória histórica são suas primeiras trincheiras.
Além disso, a República Islâmica tem na fé xiita um elemento estrutural de resiliência. Em sua tradição, o martírio não é um acidente, mas um ato de entrega espiritual; a morte na luta contra a opressão é vista como libertação e elevação. Essa cosmovisão transforma aquilo que no Ocidente seria considerado um custo humano intolerável em uma fonte de força moral e política.
Há mais de 30 anos sob sanções e ataques, o Irã vem se preparando meticulosamente para este momento. Sabendo de suas limitações e ciente de que não poderia enfrentar duas potências nucleares em um confronto convencional simétrico, Teerã investiu pesadamente na arte da guerra assimétrica. Estudou as lições do Vietnã, do Iraque, do Afeganistão e da Ucrânia. Construiu verdadeiras cidades subterrâneas com fábricas, centros de comando e até laboratórios nucleares equipados com múltiplas entradas secretas, inatingíveis por bombardeios aéreos convencionais.
Em vez de tentar competir em poderio aéreo ou naval, o Irã dedicou-se à produção de mísseis balísticos e drones de alta precisão, baixo custo e grande eficácia, capazes de saturar as defesas das bases militares americanas espalhadas pelos pequenos e artificiais países do Golfo Pérsico. Além disso, detém nas mãos uma arma econômica infalível: o Estreito de Hormuz, por onde escoa cerca de 20% do petróleo e 30% do gás mundial. Assim, a estratégia iraniana não depende de derrotar militarmente os EUA, mas sim de resistir o suficiente para torná-los insustentáveis.
Paralelamente ao campo de batalha, o Irã enfrenta uma guerra cultural. A mídia ocidental, amplamente controlada por corporações alinhadas aos interesses de Washington e Tel Aviv, controla a narrativa. Embora o Irã não tenha invadido nenhum país, tampouco promovido atentados em solo estrangeiro nesse século, enquanto foi repetidamente atacado, invadido e sufocado por sanções impostas pelos EUA e seus aliados —, a narrativa dominante insiste em rotulá-lo como "terrorista" e "perigo para o mundo".
Mas a realidade no terreno já começou a falar mais alto. Ao resistir aos ataques criminosos da "dupla do mal", o Irã já conquistou uma vitória estratégica: mostrou que o poderio militar americano tem limites e que suas bases no Oriente Médio são vulneráveis. O desfecho natural desse processo será a expulsão gradual dos Estados Unidos da região e o consequente fechamento de suas bases militares, um movimento que já se desenha no cenário geopolítico.
O governo de Trump, uma pessoa marcada por um narcisismo maligno agravado pelo declínio cognitivo, assessorado por uma equipe movida por interesses financeiros imediatistas e visões de curto prazo está acelerando, ainda que de maneira caótica, o colapso da hegemonia americana. A ironia histórica é que aqueles que pretendiam expandir o domínio dos EUA estão, na verdade, apressando seu ocaso.
Se a reação do establishment americano a essa perda de controle não degenerar em um conflito nuclear, um risco real, mas ainda evitável, o mundo caminhará para uma estrutura mais estável e multipolar. As potências emergentes, como China, Índia e até mesmo uma Rússia em reconstrução têm características distintas dos antigos colonizadores ocidentais. Nenhuma delas possui a tradição de fazer da guerra de agressão um instrumento permanente de política externa. Países como China e Índia, por exemplo, têm suas expansões orientadas pelo comércio e pela infraestrutura, não por invasões e ocupações militares.
A derrota estratégica do projeto de domínio absoluto de EUA e Israel no Oriente Médio não representa o triunfo do caos, mas o fim de um ciclo histórico de violência e ingerência. Um mundo multipolar, baseado em soberanias respeitadas, equilíbrio de poder e cooperação econômica entre civilizações milenares, tende a ser um mundo mais pacífico, mais estável e, enfim, mais justo. Não será um mundo perfeito, mas será um mundo onde a agressão unilateral e a impunidade deixarão de ser a regra.
O futuro que desponta no horizonte não é o do domínio de um único império, mas o do encontro entre nações que aprenderam, muitas vezes à força, que a paz duradoura só pode ser construída sobre o respeito mútuo, a história compartilhada e a impossibilidade da hegemonia absoluta. E esse é o princípio de um mundo verdadeiramente melhor.






