O olhar que transforma — a importância dos óculos para pessoas com T21

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 06/05/2026, 10:17h

Na interseção entre ciência, inclusão e qualidade de vida, a oftalmologia ocupa um papel decisivo no desenvolvimento de pessoas com trissomia do cromossomo 21. Nesta edição do programa INCLUSÃO EM FOCO, o oftalmologista Jaime Rosenblatt, referência nacional no acompanhamento de pacientes com T21, trouxe um alerta direto: a necessidade do uso de óculos não é exceção, é regra.

Com mais de três décadas de experiência clínica, o especialista é enfático ao afirmar que a grande maioria das crianças com T21 apresenta distúrbios de refração, especialmente hipermetropia e astigmatismo. Na prática, isso significa que, até prova em contrário, toda criança com a condição deve ser avaliada precocemente e, na maioria dos casos, iniciar o uso de correção óptica ainda nos primeiros anos de vida. Trata-se de uma medida simples, mas com impacto profundo no desenvolvimento global.

A visão, como destaca o médico, está diretamente conectada a múltiplas habilidades: interação social, aprendizagem, coordenação motora, equilíbrio e até mesmo aspectos da linguagem. Quando não corrigidas, as limitações visuais podem comprometer esse conjunto de competências, ampliando desafios que poderiam ser minimizados com intervenção adequada e no tempo certo.

O processo começa cedo. O primeiro exame oftalmológico deve ocorrer ainda na maternidade, seguido por avaliações regulares ao longo da infância. Entre seis meses e um ano de idade, já é possível identificar alterações importantes e definir a necessidade de óculos. Ao contrário do que muitos pais imaginam, o fato de a criança não falar não impede o diagnóstico. Técnicas como a esquiascopia permitem ao médico determinar o grau com precisão, observando a forma como a luz é refletida no interior do olho.

Outro ponto central abordado na entrevista é a adaptação. Apesar da resistência inicial ser uma preocupação comum entre famílias, a experiência clínica mostra que a aceitação dos óculos tende a ser rápida e positiva. Muitas crianças, após o período inicial, passam a solicitar espontaneamente o uso, ao perceberem a melhora na qualidade da visão. Nesse processo, o comportamento familiar é determinante. Apoio, incentivo e naturalização fazem diferença direta na adesão.

Ainda assim, um dos principais obstáculos relatados na prática médica não está na criança, mas no entorno. A resistência de pais e responsáveis, muitas vezes por desconhecimento, pode atrasar ou dificultar o uso adequado da correção visual. Esse cenário, segundo o especialista, vem mudando com o avanço da informação e a atuação de grupos de apoio, que têm ampliado a conscientização sobre a importância do cuidado oftalmológico contínuo.

A rotina exige atenção. Crianças pequenas demandam supervisão constante no uso dos óculos — desde a limpeza das lentes até o posicionamento correto no rosto. Situações como arranhões, quedas ou até episódios de recusa fazem parte do processo e devem ser conduzidas com paciência, sem punições. Estratégias simples, como manter um par reserva, ajudam a garantir continuidade no tratamento.

Do ponto de vista clínico, há também particularidades importantes. Crianças com T21 apresentam maior predisposição a condições como estrabismo, nistagmo e ceratocone — este último frequentemente associado ao hábito de coçar os olhos, comum em perfis alérgicos. A prevenção, nesse caso, passa por medidas aparentemente simples, como evitar o atrito ocular e utilizar colírios adequados quando indicados.

A escolha da armação também não é detalhe. Devido às características faciais específicas da síndrome, é necessário optar por modelos adaptados, com hastes flexíveis, apoio nasal adequado e, preferencialmente, lentes de policarbonato — material mais seguro em caso de impacto.

Outro aspecto frequentemente cercado de dúvidas diz respeito à evolução do grau. O aumento ou redução ao longo do tempo não deve ser interpretado automaticamente como piora ou melhora clínica. Trata-se, na maioria das vezes, de um reflexo natural do crescimento. O foco, segundo o especialista, deve estar na qualidade da visão alcançada com a correção.

Em relação à acuidade visual, pessoas com T21 tendem a apresentar limites diferentes daqueles observados em indivíduos sem a condição, em função de características do sistema nervoso central. Ainda assim, níveis considerados dentro dessa faixa são plenamente compatíveis com aprendizado, autonomia e boa qualidade de vida.

A entrevista também desmistifica a ideia de cirurgia como alternativa para eliminar o uso de óculos. De acordo com o médico, procedimentos refrativos não são recomendados para esse público, especialmente devido à maior fragilidade da córnea e ao risco aumentado de complicações como o ceratocone.

Ao final, a mensagem que se consolida é clara: enxergar bem não é apenas uma questão de conforto — é um fator estruturante no desenvolvimento humano. Para pessoas com T21, o acesso precoce ao diagnóstico e ao uso adequado de óculos representa uma ferramenta essencial de inclusão, autonomia e dignidade.

No INCLUSÃO EM FOCO histórias ganham profundidade e informação se transforma em instrumento de mudança. E, neste episódio, ficou evidente que, muitas vezes, o primeiro passo para ampliar horizontes começa, literalmente, pelo olhar.

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