“Racismo começa no silêncio”: especialista defende educação antirracista nas escolas brasileiras
A discussão sobre racismo e representatividade dentro das escolas brasileiras vai muito além de uma pauta pedagógica. Ela envolve legislação, justiça social, valorização cultural e a construção de uma sociedade mais democrática. Esse é o entendimento do professor Paulo Melgaço da Silva Júnior, pós-doutor, doutor e mestre em Educação, além de autor de obras voltadas à educação antirracista.
Em entrevista ao programa INCLUSÃO EM FOCO, o educador destacou que discutir as questões raciais no cotidiano escolar é uma obrigação prevista em lei e uma necessidade histórica do país. Segundo ele, as leis 10.639, de 2003, e 11.645, de 2008, determinam que as escolas brasileiras incluam nos conteúdos a história e a cultura africana, afro-brasileira e dos povos originários.
Para o professor, a escola precisa reconhecer a pluralidade racial do Brasil e enfrentar um processo histórico de apagamento e subalternização de diferentes povos. Ele afirma que trazer essas discussões para o ambiente escolar significa ampliar a representatividade e fortalecer a construção de um país mais justo, democrático e igualitário.
Ao analisar os livros didáticos, Paulo Melgaço observa avanços importantes após a implementação do Programa Nacional do Livro Didático, o PNLD. Segundo ele, o programa passou a exigir dos autores uma abordagem mais plural e inclusiva, permitindo que negros, indígenas e diferentes modelos familiares fossem apresentados de maneira positiva dentro do material escolar.
O educador destaca que os livros didáticos passaram a ocupar um papel importante na educação antirracista ao apresentar culturas e histórias antes invisibilizadas. Para ele, mostrar famílias negras, indígenas e multirraciais ajuda crianças e adolescentes a reconhecerem diferentes identidades e compreenderem melhor a diversidade brasileira.
A valorização da representatividade também foi apontada como elemento essencial para fortalecer a autoestima e ampliar horizontes para estudantes negros e indígenas. O professor defende que as escolas apresentem referências positivas em diversas áreas do conhecimento e da sociedade.
Entre os exemplos citados por ele estão Nilo Peçanha, apontado como o primeiro e único presidente negro do Brasil, e Milton Santos, considerado um dos maiores geógrafos brasileiros. Segundo Paulo Melgaço, mostrar trajetórias como essas permite que crianças e jovens percebam que também podem ocupar espaços de destaque na sociedade.
Durante a entrevista, o pesquisador também chamou atenção para as desigualdades enfrentadas pela população negra no Brasil. Ele destacou diferenças salariais, dificuldades de acesso à educação, à saúde e a outras oportunidades sociais, afirmando que a população negra ainda ocupa a base da pirâmide social brasileira.
Na avaliação do professor, essas desigualdades são consequência de um processo histórico que atravessa desde a escravidão até a chamada “pseudoabolição”, sem que o país tenha construído políticas suficientes para garantir igualdade de oportunidades.
Paulo Melgaço ressaltou ainda o papel histórico do movimento negro na luta por direitos e reconhecimento. Ele lembrou a atuação de organizações como a Frente Negra Brasileira, o Teatro Experimental do Negro e o Movimento Negro Unificado na denúncia do racismo estrutural e na defesa de políticas públicas de inclusão.
O professor também citou a importância do trabalho desenvolvido por Abdias do Nascimento, um dos principais nomes do movimento negro brasileiro, responsável por ampliar o debate sobre racismo, desigualdade e a falsa ideia de democracia racial no país.
Outro ponto destacado foi a importância do debate antirracista dentro das famílias. Para o pesquisador, a participação familiar fortalece as discussões desenvolvidas na escola e ajuda a evitar contradições entre o ambiente escolar e o ambiente doméstico.
Segundo ele, a família tem papel fundamental na continuidade dessas reflexões, acompanhando o cotidiano escolar e contribuindo para uma educação mais consciente e inclusiva.
Mesmo reconhecendo os avanços das políticas de reparação e inclusão, Paulo Melgaço avalia que a população negra ainda enfrenta dificuldades para ocupar espaços de poder e destaque no Brasil. Apesar disso, ele demonstra esperança em mudanças futuras impulsionadas pelo fortalecimento da luta antirracista e pela ampliação da conscientização social.
Paulo Melgaço da Silva Júnior é autor do livro Caminhos para Educação Antirracista: Teorias e Práticas Docentes.







