13 de Maio: liberdade sem reparação mantém população negra entre as maiores vítimas da desigualdade no Brasil

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 13/05/2026, 10:36h

O 13 de maio de 1888 entrou para os livros de História como a data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil. Mas, para o movimento negro brasileiro, a data também representa um marco de reflexão e denúncia sobre um processo de “liberdade incompleta”, que deixou milhões de pessoas negras sem qualquer garantia de inclusão social, acesso à terra, educação ou trabalho digno.

Mais de 130 anos depois da abolição, os reflexos dessa dívida histórica continuam estampados nos indicadores sociais do país.

Hoje, a população negra — formada por pessoas pretas e pardas — representa a maioria da população brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ainda assim, permanece concentrada nos maiores índices de pobreza, violência e exclusão social.

Os números revelam uma desigualdade profunda e persistente.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 76,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Em 2022, foram mais de 35 mil pessoas negras assassinadas no país. Na prática, para cada pessoa não negra morta de forma violenta, três pessoas negras perderam a vida.

A violência tem endereço, cor e classe social. A Bahia aparece entre os estados com os índices mais alarmantes de homicídios contra pessoas negras, refletindo uma realidade que atinge principalmente jovens das periferias.

Mas o racismo estrutural não aparece apenas nos índices de violência.

Dados sociais do IBGE mostram que pessoas pretas e pardas continuam sendo maioria entre os brasileiros em situação de pobreza. Enquanto cerca de 15% da população branca vive abaixo da linha da pobreza, o percentual sobe para quase 26% entre pessoas pretas e quase 30% entre pessoas pardas.

As desigualdades também estão presentes no acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos espaços de poder. Pessoas negras recebem, em média, salários menores, ocupam menos cargos de liderança e enfrentam mais barreiras para concluir o ensino superior.

Especialistas apontam que isso acontece porque a abolição da escravidão não foi acompanhada de políticas de reparação. Após séculos de exploração, a população negra foi deixada à própria sorte, sem moradia, emprego, escolarização ou acesso à direitos básicos.

O resultado desse abandono histórico atravessa gerações.

O racismo brasileiro também se manifesta de maneira silenciosa e cotidiana. Está na abordagem policial desigual, na dificuldade de acesso a oportunidades, na ausência de representatividade e nas estruturas sociais que ainda associam pobreza, violência e marginalização à população negra.

Por isso, movimentos sociais e organizações antirracistas defendem que o 13 de maio não seja tratado apenas como uma celebração da liberdade formal, mas como um momento de debate sobre justiça racial, memória histórica e igualdade de oportunidades.

Para lideranças do movimento negro, lembrar a data significa reconhecer que a escravidão acabou oficialmente, mas seus efeitos continuam vivos nas periferias, nas estatísticas e nas desigualdades que ainda marcam a sociedade brasileira.

Mais do que recordar o passado, o 13 de maio se transforma, ano após ano, em um chamado para enfrentar o racismo estrutural e construir um país onde liberdade também signifique dignidade, acesso e oportunidade para todos.

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