Memória como objeto de estudo da Museologia

Como as relações afetivas e os vínculos emocionais se tornam o fio condutor dos processos museológicos

Fonte: Museu das Coisas Banais

 

A memória é parte fundamental da vida. Agimos cotidianamente com as experiências do passado e sentimos baseado em como aquelas ações, ou falta de ações, nos fizeram sentir e experienciar o mundo ao nosso redor.

Cotidianamente perguntam-me o que faz um museólogo, área da qual eu possuo graduação, e a resposta mais fácil sempre é dizer “trabalho em museus”. Não é mentira. Quando uma pessoa é formada em museologia, o principal local de trabalho é o museu, de fato. Porém, também é fato que a pessoa museóloga, na verdade, trabalha com a memória. E a memória, por ser um objeto de estudo e de trabalho imaterial, requer um manuseio muito mais complexo do que aquilo que se vê em exposição nas salas dos museus.

Afinal, a memória é fruto de experiências e ações, portanto, produto da capacidade e subjetividade de quem cria memórias. O carnaval, o programa da Xuxa, o filme E.T O Extraterrestre, a música do “parabéns para você”, a independência da Bahia e o ataque de 8 de janeiro de 2023 no Palácio do Congresso Nacional são exemplos de memórias a partir de acontecimentos que moldaram lembranças no coletivo. Foram/são ações realizadas por certos indivíduos que impactaram a memória coletiva, em certa medida, e cada qual gerando algum tipo de impacto social.

É possível criar uma exposição a partir de qualquer dessas memórias, afinal, a museologia é uma área interdisciplinar, dialogando com quaisquer outras áreas possíveis. A elaboração de uma exposição em um museu necessita, dessa forma, de profissionais dos mais diversos campos de trabalho da cultura. A exposição sobre a música do “parabéns para você”, por exemplo, pode ser realizada de diversas maneiras. A partir dos objetos e suportes expositivos, pode ser narrado como uma retrospectiva histórica da tradição da canção em aniversários brasileiros: como surgiu, como foi popularizada, quais as possíveis mudanças inferidas com a passagem do tempo…

A partir disso, uma pesquisa dialogada com profissionais do campo das ciências sociais, digamos, poderá ser realizada para desvendar e construir uma linha narrativa sobre tradições em aniversários nas famílias brasileiras, ou mesmo como as canções populares influenciam a criação de memórias coletivas, e que, de certa maneira, impactam e moldam a cultura a partir da forma como comemoramos aniversários.

Definida a ideia central da exposição, novas pessoas profissionais são responsabilizadas por entregar demandas em diferentes vertentes possíveis: a pessoa conservadora/restauradora ficará responsável pela integridade física do acervo da exposição, o técnico de som será encarregado de verificar os aparelhos de transmissão de músicas nos alto-falantes e dispositivos multimídia, o curador será aquele que pesquisa e escolhe quais peças são necessárias ser exibidas para retratar a ideia da exposição, os mediadores serão os facilitadores do diálogo entre visitante e exposição, dentre outras posições possíveis de serem necessárias para a concepção e execução de um projeto expositivo.

Agora, voltando ao tema central desta coluna, e utilizando o exemplo de uma exposição sobre a canção do “parabéns para você”, a ideia do projeto não é simplesmente informar sobre o objeto exposto. É sobre conectar a ideia de uma manifestação cultural brasileira com a memória daquela pessoa visitante do museu. E, caso não exista memória pré-existente sobre aquela temática, a exposição também serve como uma maneira de desencadear a memória do presente, pois o diálogo entre exposição - observador é estabelecido no tempo presente, desencadeando experiências proporcionadas ali, dentro do museu.

Outro ponto importante de destaque é o fato de que, enquanto agentes de cultura e memória, a pessoa museóloga não precisa, necessariamente, atuar dentro de um espaço museal. É possível fazer ações culturais-educativas em escolas, universidades, eventos de cunho educativo e ações públicas de conscientização social. Ou até mesmo em textos, a exemplo desta própria coluna, que é uma tentativa de explicitar o objeto de estudo da museologia: a memória.

É interessante também notar que existem processos museológicos, em menor escala, é claro, acontecendo dentro das nossas casas. Eu amo dar o exemplo dos álbuns de fotografia de família: cadernos de papelões com páginas plastificadas para garantir a integridade da foto. Por vezes, os álbuns são elaborados pela família pensando em separar as fotografias por ano ou a partir de um evento marcante específico, ou mesmo preservar as cópias de certidão de nascimento dos filhos ou alguma carta de algum parente ou amigo distante.

E não acaba por aí. Existe ainda o momento de mostrar para uma nova pessoa todas aquelas memórias guardadas nos papelões, e daí as fotografias viram espaço para contação de histórias, piadas e entrelaçamento de novos vínculos emocionais. Tudo por conta da memória materializada a partir da preservação, inventariação e escolha do que apresentar nos álbuns de família.

Portanto, é possível dizer que o trabalho de documentação, preservação, exposição e comunicação é um trabalho à mercê da memória. E o massa de trabalhar em prol dela é que ela está em todo lugar, desencadeada a partir das mínimas coisas, podendo se referir ao passado ou mesmo sendo formadas no presente. E é por isso que ela é tão complexa. E tão potente.

Por vezes, decidimos esquecer certas coisas que acontecem em nossas vidas. E se machuca tão profundamente, de fato, relembrar talvez não sirva de consolo. Porém, é inegável que todos os fatos, decididos ou impostos, trouxeram-nos até aqui, e por isso se fazem importantes para a construção da nossa identidade e intenções de agir. Podemos decidir esquecer de algo, mas a consequência daquela memória é sempre manifestada na individualidade de cada pessoa.

Recomendo a visita ao Museu das Coisas Banais como formato potente de compreender o valor da memória e da importância da simbologia afetiva que esse objetos “nada banais” podem desencadear.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

Comentários


Instagram

Facebook