Como Castiel Vitorino relaciona vivências com ancestralidades
A artista Castiel Vitorino Brasileiro — Foto: Felipe Amarelo/Divulgação
Eu mencionei a algumas colunas atrás a participação da Castiel Vitorino na composição da última faixa do recente disco de estreia da cantora Vita. Desde então, procurei alguns textos da autora e psicóloga para me debruçar e encontrei o potente “Ancestralidade Sodomita, Espiritualidade Travesti”. Esse tem estado comigo mesmo dias depois de eu tê-lo lido.
É um texto que aborda, primariamente, sobre a transmutação dos corpos das pessoas transgênero e travestis. Vitorino é muito poética na maneira que conduz os seus textos e que elabora os significados do mundo a partir das suas perspectivas. Para simplificar, a autora acredita que tradições e hereditariedade, sanguínea ou espiritual, fazem parte fundamental da construção da identidade transgênero de uma pessoa. Para isso, o conceito de transmutação é elaborado, afirmando que as relações entre mundo(s) e indivíduos acarretam em suas transmutações. Ou modificações.
O título lida exatamente com a construção da imagem da mulher trans idealizada ao longo da história. “Ancestralidade Sodomita” se refere aos homens homossexuais, a partir de um ponto de vista que binariza e categoriza o gênero, enquanto aquele que cumpre um papel no ato sexual de performance feminina de passividade. As mulheres trans também têm um passado sodomita, a partir do fato de que são indivíduos que uma vez foram biologicamente designados enquanto homens.
Já a “Espiritualidade Travesti” é a ideia de que existe uma linhagem espiritual anterior a um indivíduo, o “transmutando” em uma pessoa transgênero. A umbanda é notoriamente uma religião que abriga diversas pessoas gênero dissidentes e que compreende o gênero de maneira muito mais simbólica do que as passagens sexistas existentes em documentos sagrados de outras religiões cristãs, dado o exemplo da bíblia. A língua pajubá, inclusive, utiliza diversos termos do iorubá para a sua criação léxica.
Para explicar rapidamente, o pajubá nada mais é do que um dialeto criado por mulheres trans e travestis trabalhadoras sexuais com o objetivo de comunicação interna e que não poderia ser compreendido por ninguém que não conhecesse a sua lógica. Esse era um uso estratégico da língua para que essas mulheres pudessem se proteger contra ameaças de clientes e abusos de poder de autoridades civis.
Portanto, o pajubá pode ser considerado exemplo que explicita a proximidade dessas pessoas com as casas de terreiro, mostrando como as práticas culturais influenciaram o modo de organização social da comunidade trans. Ava Cruz Marchese possui um texto chamado “A memória resgatada e a disputa da tradição: o lugar das quimbandas no movimento de ialorixás trans no campo afro-religioso brasileiro” (2025) e relata que Xica Manicongo, primeira travesti identificada brasileira, foi considerada uma quimbanda, “termo que associava práticas de transgeneridade a um papel sacerdotal que, diante do contato colonial, passa a assumir outros significados, notadamente de ‘feiticeiro sodomita passivo’” (2025, p. 147). Manicongo foi perseguida pela igreja e a “inversão dos papéis de gênero” performada por ela era vista como uma penetrabilidade espiritual aguçada.
Vitorino, portanto, entende que a ideia de transgeneridade também se relaciona à história ancestral do indivíduo trans. Gosto muito e me identifico com a maneira que a autora narra a maneira como as individualidades são construídas e como nossa história pessoal não é apenas sobre nós, pessoalmente, mas sim sobre todos aqueles que nos compõem. A passagem “O limite é o Mundo (moderno), e interagimos com este Mundo (e com qualquer outro) porque ele interage conosco em intensidades que aproximam nossas existências umas das outras, numa relação de fazer desaparecer (findar-se) ou possibilitar transmutar, modificar” (2020, p 42) revela exatamente isso.
Vitorino ainda abre brechas para destruir o conceito de tradição intocável. Explico. É comum pensarmos que tudo aquilo que passa de uma geração para outra, é feito assim de forma imaculada e intocada. Se uma lição nos é passada, assim cumpriremos o que ela diz de maneira fiel à forma como nos foi contada. Mas na verdade, nada é exatamente como a sua forma original, ou é cumprida como uma vez foi dito que seria. Tradição é aquilo que construímos a partir do que nos foi dado, podendo se transformar em algo completamente diferente.
A psicóloga cria, de maneira pessoal e, ao mesmo tempo, relacionável, a ideia de que nossas existências somente são possíveis a partir de um coletivo de pessoas que vieram antes de nós. E que, a partir das nossas vivências e condições de vida, moldamos a nossa maneira de agir, transformando a tradição em solo seguro para seguir vivendo à nossa maneira. E, às vezes, a fé é o combustível principal que abastece e dá vazão ao sentimento de querer viver.
E o interessante da fé é que ela pode ser sobre qualquer coisa. A fé designa o ato de acreditar em algo sem que possa, objetivamente, provar ser real. No entanto, muito pouca coisa na vida pode ser resolvida de maneira estritamente objetiva. Portanto, limitar o conceito de fé apenas à religiosidade é ser contraintuitivo para com o significado da própria palavra. Fé é acreditar sem “mas”.
Tenho me reunido semanalmente com um grupo de estudos intitulado “Transcestralidades em movimento”. O objetivo é compreender, a partir de diversos pontos de vista diferentes, como a ancestralidade, história e manutenção de uma intelectualidade transgênero impactam nas vivências dessas pessoas e na produção cultural contemporânea que aborda a temática. Em um desses encontros, um colega sugeriu o uso do termo “opaco” para definir algo que não possui explicação objetiva, algo que seria melhor traduzido a partir de sentimentos e sensações.
Édouard Glissant define como “direito à opacidade” a ideia de que culturas não precisam ser compreendidas por outras culturas. As ideias, os costumes, as crenças e as práticas não devem ser didáticas para que algum outro indivíduo de outra cultura possa entender ou julgar a partir daquilo que lhe foi culturalmente passado.
Fato é que o que é irrevogável é apenas construção colonial do que é permitido. E que, se eu sou opaco, eu entendo que irrevogável é a minha ideia sobre o(s) mundo(s), que somente eu posso modificá-la ao meu bel prazer e que nenhuma outra visão de mundo pode ser construída à obstruir a minha. E, por isso, eu agradeço à Castiel Vitorino por me alertar que eu também sou corpo capaz de viver na imprevisibilidade.







