A reinvenção das artistas pop
Fonte: Reprodução / Capa do disco Equilibrivm de Anitta
Reinvenção parece ser a direção que as cantoras estão tomando para a construção de seus novos projetos. Anitta e Luísa Sonza lançaram no último mês seus mais recentes discos. No caso de Anitta, a estética e a sonoridade do que uma vez foram reconhecidas como caracterizantes da artista foram repaginadas. Em seu novo álbum, Equilibrivm, Anitta explora temas como espiritualidade, autoexpressão e fé, tópicos nunca antes abordados de maneira tão aprofundada pela cantora.
Luísa Sonza não sai muito do que tá acostumada a fazer no recente Brutal Paraíso, mas se antes a bossa nova da faixa “Chico”, presente no disco de 2023, Escândalo Íntimo, era só um caso de ocasião encontra oportunidade, a gaúcha abraça de vez a influência do ritmo na primeira metade do novo disco. Na verdade, o disco anterior já mostrava clara afinidade com o ritmo por ser exatamente um compilado de músicas regravadas da bossa nova, a exemplo das clássicas composições de Tom Jobim e Roberto Menescal, como as canções “Águas de Março” e “O Barquinho”, respectivamente.
Sobre o restante do álbum de Sonza, a reinvenção ou um “rebranding” não veio dessa vez. A cantora ainda explora o funk, o pop e as baladas emocionais com influência do pop rock e MPB. A estética dos clipes ainda são muito a cara do que a artista construiu ao longo dos últimos anos: por vezes setentista, por vezes oitentista, sensualidade escancarada e cores quentes.
Apesar disso, eu vejo como uma grande vontade da cantora, e um movimento que anda exigindo certo esforço por parte dela, de concretizar a imagem pública de uma cantora séria. E por isso, ela separa a primeira metade de Brutal Paraíso para as melhores composições e influências de gêneros musicais “mais sérios”, no caso, a bossa nova. Esse é um passo que insiste em reinventar e renovar a cantora de pop e funk que o grande público já está acostumado.
No caso de Anitta, a construção de Equilibrivm deu-se de maneira a costurar diversas facetas da cantora carioca, antes exploradas apenas em singles e músicas que não estavam atreladas a nenhum disco em específico, e que agora estão devidamente trabalhadas em um contexto que libera o espaço para a artista explorar a sua relação com esses gêneros e temáticas. O disco tem samba, reggae, MPB, pop e funk, e apesar de ser uma mistura, mantém a coesão por tratar em suas letras de temas ligados às divindades e cultura do candomblé, bem como cantar sobre fé e amor a partir de uma visão mais íntima do que a gente está acostumado a ver da artista.
De fato, Equilibrivm é um passo arriscado e potente na carreira construída por Anitta até aqui. Apesar de influências de artistas como Luedji Luna, Liniker, Majur e MC Tha, a artista carioca possui um público que não é limitado pelo idioma português. Vencedora de dois VMA’s (Video Music Awards, ou Premiação de Vídeos Musicais) e indicada a dois grammys, Anitta poderia simplesmente lançar um álbum de reggaeton ao estilo da música que alavancou o seu sucesso fora do Brasil, Envolver, de 2021. Ao invés disso, a artista busca trabalhar novos temas e apresentá-los de uma maneira que nunca havia feito antes.
Aqui, cabe uma discussão sobre como a inovação, ou reinvenção, pode despertar novas oportunidades e novos caminhos artísticos possíveis que um artista pode escolher seguir. No caso de Anitta, a ideia de lançar músicas que soam iguais pode fidelizar o público, mas não alcança novas audiências e pode soar como se a cantora permanecesse “em uma nota só”.
Madonna é um exemplo de artista pop que não acomodou-se com o som que ficou conhecida, explorando cada vez mais em sua discografia diferentes temas e gêneros. Se a cantora, que ficou amplamente reconhecida e aclamada por hits como “Holiday” e “Like a Virgin”, não tivesse renovado o seu som em discos como Erotica e Bedtime Stories, certamente não existiria importantíssimos discos na história da música como o Ray of Light e Confessions on a Dance Floor.
Se uma vez renovado, ou reinventado, o artista é tendencioso a seguir em novas direções ao longo da sua trajetória artística, tornando-o uma figura multifacetada e mais interessante, portanto. Madonna certamente não seria Madonna se o primeiro passo para sua reinvenção não tivesse sido o lançamento de “Like a Prayer”; e sem esse primeiro passo não teríamos músicas como “Ray of Light” ou “Human Nature”.
Dito isso, parece que os novos artistas entenderam que a rigidez da não atualização de seus projetos artísticos pode comprometer, não somente a sua longevidade enquanto trabalhador das artes, mas também o motivo pelo qual ele é artista, em primeiro lugar. Fora do Brasil, temos o exemplo da cantora Charli xcx, que depois de anos tentando ser uma reconhecida artista fora da sua bolha, finalmente estoura com o disco de 2024, Brat, que não havia intenção nenhuma de atingir métricas de popularidade e, ainda assim, conquistou 3 grammys em 2025 e é o trabalho mais vendido na carreira da cantora.
Em 2026, prestes a lançar mais um disco, a cantora lança a faixa “Rock Music” ou “Música de Rock”. A música não é completamente distante do que a britânica já é acostumada a lançar, porém, como também é o caso da Luísa Sonza, agora ela abraça uma ideia que algumas vezes pode ter sido cogitada, mas nunca antes debruçada e completamente realizada. Certamente essa música não será tocada nas baladas como “Von Dutch” ou “Guess” foram, mas reivindica Charli xcx como uma cantora que não tem medo de arriscar; e nem de se reinventar.







