Legitimação de arte e a discussão sobre ocupação de espaços
Fonte: Exposição Perfuro / Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA)
A exposição Perfuro, disponível no site do Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA), inaugura a nova galeria do chamada de Vasconcelos. O nome é advindo de “uma ação de valorização da memória de uma pessoa corpo e gênero variante noticiada como ‘Almerinda Vasconcelos’, localizada e pesquisada por [Ian] Habib (2021)[diretor do museu]”.
O espaço é dedicado à exposição de obras de arte desenvolvidas em atividades educativas realizadas pelo MUTHA. No caso da Perfuro, as pessoas artistas participantes foram orientadas a partir de uma pesquisa encabeçada por babel babel, mestrando em processos artísticos contemporâneos e curadore da exposição.
A exposição em si tem como objetivo tensionar a ideia de legitimação de arte e quais os agentes que são capazes de “avaliar” a possibilidade de suas circulações em museus, feiras e galerias. A exposição inicia-se com trechos de diversas obras literárias de autorias brasileiras, dentre elas a de Fabio Moraes, que afirma o seguinte: “O lado comercial da arte, no qual tudo se vende, até mesmo indiscrições críticas como a de jogar luz sobre essa esfera mercantilista - afinal, a crítica institucional é um dos produtos preferidos nas prateleiras das feiras de arte e nos programas de exposições de museus, e haja psicanálise institucional, de pessoa jurídica, para explicar isso”.
O que Moraes quis dizer com o trecho é que, apesar das críticas às instituições de arte serem legítimas e incitarem discordâncias com o sistema do qual as artes fazem parte, a maior chance que uma pessoa artista tem de construir uma carreira sustentável no ramo é ceder às expectativas do mercado. O que não diminui, sob análise em qualquer ótica, a qualidade dos trabalhos. Apenas reforça que, mesmo quando o produto parte de um campo subjetivo e ligado às emoções e intenções de uma pessoa, o capitalismo se apropria de suas relações e influencia a dinâmica de produção artística e suas veiculações.
A proposta de Perfuro é desafiar as artistas a ocupar espaços de legitimações de discursos sem serem propriamente convidadas. Cada uma presente em uma cidade do Brasil, a exposição contou com os trabalhos de performance, fotoperformance, fotografia e intervenção urbana de Nestor Varela, Mira Visuais, Gabe Nascimento, Silè, Maju Ferrati, Ronna, Lusquédi e Georgi Andres.
É importante pensar, a partir dessa exposição e da afirmação de Moraes, que existem locais que legitimam certos trabalhadores do campo da cultura e das artes simplesmente pela escolha de exclusão de quem não pode ocupá-los. Assim, se existe um critério de escolha, existe a ideia de que há algum nível de exigência a ser alcançado. E se a realidade é essa, quem pode escolher quem entra e quem sai? Mesmo um curador pode avaliar a potência artística de uma obra? Existe mesmo critério, ou entra apenas àqueles que corroboram com a narrativa que as instituições e profissionais de altos cargos decidem apresentar?
É claro, o trabalho da pessoa curadora é essencial na medida que é sua função compreender o objetivo da exposição e selecionar as melhores obras que se encaixam com a proposta escolhida. Contudo, existe a ideia equivocada de que se uma obra não é selecionada, a artista não é boa o suficiente, quando, na realidade, existem uma série de fatores ideológicos e mercantilistas que influenciam a tomada de decisão.
Moraes ainda provoca as artistas, no mesmo trecho mencionado, que mesmo essas ocupando esses espaços, elas escolhem fazer uma crítica ao espaço que as recebem. Crítica institucional não é um tópico novo no mundo das artes; projeto artístico de artista nenhum é difundido se não existe uma visão política a ser defendida. É por isso que existe a necessidade de ocupar os espaços categoricamente elitizados de arte, pois são neles que os discursos são socialmente legitimados e, se existe um discurso contra a norma presente, mais pessoas têm acesso ao discurso posto.
E, mesmo quando se fala sobre “mais acesso”, não existe espaço ou profissional de qualquer área possuidor do poder de legitimar a existência ou potência de discurso de uma obra de arte, ocupando ou não o espaço de um museu.
Essa discussão toda me lembra o refrão da música “Cobra Criada / Bicho Solto” de BaianaSystem, Pitty e Vandal: “Eu me domestiquei / Para fazer parte do jogo / Mas não se engane, maluco / Continuo bicho solto”.







