Goleada não ganha Copa

A Seleção Brasileira venceu seu último amistoso antes de embarcar para os Estados Unidos, onde disputará mais uma Copa do Mundo. E o roteiro não poderia ser mais conveniente para alimentar a empolgação de parte da torcida: goleada, gol de Vinícius Júnior, boas participações de jovens promessas e uma atuação que, para muitos, parece sinalizar que o Brasil está pronto para brigar pelo título.
Mas será mesmo?
O futebol costuma ser cruel com quem tira conclusões apressadas. E amistosos, especialmente contra adversários de nível técnico inferior, frequentemente produzem ilusões que desaparecem no primeiro grande teste competitivo. O placar elástico pouco revela sobre o que realmente importa quando a Copa começar.
Algumas observações, porém, podem ser feitas. A primeira delas é preocupante: o Brasil parece atravessar uma rara escassez de goleiros de elite. Em outras gerações, a posição era motivo de sobra de confiança. Hoje, há dúvidas.
Outra questão chama atenção. Em vários momentos, a equipe considerada reserva apresentou um futebol mais dinâmico e interessante do que o time titular. A pergunta que surge é inevitável: o treinador terá coragem de rever conceitos? Terá disposição para alterar sua base, modificar o esquema de jogo ou abrir mais espaço para atletas jovens que demonstram merecer oportunidades?
A dúvida aumenta quando se observa a insistência em nomes que vivem de prestígio acumulado. Neymar é o principal exemplo. O técnico afirmou que não levaria para a Copa jogadores sem condições físicas ideais. Ainda assim, convocou um atleta que há anos convive com lesões, longos períodos de inatividade e que está muito distante daquele jogador capaz de decidir partidas sozinho. O passado é incontestável. O presente, nem tanto.
Se o objetivo do amistoso era empolgar a torcida, a missão foi cumprida. Principalmente entre aqueles que observam apenas o resultado final. Afinal, já há quem enxergue o caminho aberto para o hexacampeonato e até visualize o capitão erguendo a taça.
A realidade, porém, parece menos generosa.
Estamos falando da mesma seleção que teve uma campanha irregular nas Eliminatórias Sul-Americanas. Um time que terminou atrás de Argentina, Equador, Colômbia e Uruguai. Em outras palavras, a quarta força do continente durante boa parte do ciclo. É legítimo perguntar: isso é suficiente para sonhar com o título mundial?
O Brasil ainda carrega o peso simbólico de ser chamado de "país do futebol". Mas talvez seja hora de admitir que essa condição pertence mais à história do que ao presente. O futebol mundial mudou profundamente nas últimas décadas.
Os clubes europeus entenderam cedo onde estavam as maiores fontes de talento. Passaram a recrutar jovens brasileiros, argentinos, colombianos e africanos cada vez mais cedo. Muitas vezes ainda adolescentes. Em alguns casos, praticamente crianças.
O resultado está diante de nós. Os principais jogadores das seleções sul-americanas são formados dentro de sistemas distintos, adaptados às escolas táticas da Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália ou França. Basta lembrar de Lionel Messi, talvez o maior ídolo da história da Argentina, que jamais atuou profissionalmente por um clube de seu país.
Além da Europa, surgiram novos polos econômicos capazes de atrair talentos. Arábia Saudita, Catar e outros mercados oferecem contratos milionários impossíveis de ignorar. E é compreensível. A carreira de um atleta é curta, e poucos recusariam a oportunidade de garantir o futuro financeiro de suas famílias.
Nesse cenário, as seleções nacionais passaram a ser montadas a partir de peças espalhadas pelo mundo, muitas vezes com características completamente diferentes entre si. O desafio dos treinadores é reunir esses fragmentos e transformá-los em equipe. Nem sempre conseguem.
Por isso, convém manter os pés no chão. O Panamá, adversário do amistoso, está longe de representar a elite do futebol mundial. Os verdadeiros testes virão contra seleções como Espanha, Alemanha, França e Inglaterra. É nesses confrontos que qualquer candidatura ao título será realmente colocada à prova.
A pergunta inevitável é: o Brasil pode ser campeão?
Claro que pode. Em Copa do Mundo, talento individual, momentos de inspiração, lesões de adversários, cruzamentos favoráveis e até fatores imprevisíveis podem mudar uma competição inteira.
Mas, hoje, o Brasil não entra como favorito. Não pela qualidade apresentada ao longo do ciclo. Não pela regularidade. Não pela superioridade demonstrada em campo.
Se alcançar as quartas de final e terminar entre as oito melhores seleções do planeta, já terá atingido um resultado compatível com o futebol que apresentou até aqui.
E há uma última reflexão que merece espaço.
Enquanto bilhões de pessoas acompanham cada lance da Copa do Mundo, o mundo continua girando. Governos seguem governando. Parlamentos seguem votando. Decisões econômicas continuam sendo tomadas. Conflitos permanecem acontecendo. Problemas sociais não entram em recesso por causa do futebol.
A Copa é uma das maiores celebrações esportivas do planeta e merece ser apreciada como tal. Mas sem que percamos a capacidade de observar tudo o que acontece fora das quatro linhas.
Porque, quando o apito final soar, o campeonato terminará. Já as decisões que afetam nossas vidas continuarão produzindo consequências por muitos anos.

 


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão de Pessoas com Deficiência.
Instagram: @junior_patente

Comentários

Mega Conversa





Instagram

Facebook