Cinema da Boca do Lixo

Gêneros de filmes como a pornochanchada não possuem iniciativas de preservação

Fonte: Cartaz do filme A Mulher que Inventou o Amor, 1980, de Jean Garrett

 

Algumas coisas ficam perdidas na história da cultura, né? Digo perdidas em um sentido de disponibilização de acesso e cuidado para com a suas preservações, não que essas determinadas práticas deixaram de existir no imaginário coletivo.

Destaco, por exemplo, a extensa produção de filmes brasileiros do gênero da pornochanchada, material audiovisual essencial na história do cinema nacional e que é praticamente irrastreável hoje em dia. A pornochanchada é caracterizada por um forte teor sexual, completamente explícito, e que discute variadas temáticas que circundam a simbologia do ato sexual na sociedade.

Com um interesse genuíno em me aprofundar nessa vertente do cinema brasileiro, busquei onde poderia encontrar filmes da produtora Boca do Lixo, por exemplo, grande expoente de filmes contra-normativos, assim podemos dizer, e me espantei com a completa inexistência das produções em serviços de streaming e até mesmo para aluguel digital.

A Boca do Lixo refletia-se mais como uma ação de uma comunidade específica de cineastas e trabalhadores do audiovisual do que de um grupo institucional. Localizado entre os bairros da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos na grande São Paulo a partir da década de 20, essas pessoas estavam interessadas em produzir cinema essencialmente brasileiro, refletindo em suas narrativas audiovisuais críticas, subversões e modos de viver que só poderiam ser produzidas em território nacional.

A jornalista Larissa Basilio afirma que os processos de criação da Boca levavam em conta “o fato de que o Brasil está em uma frequência totalmente diferente da Europa e Estado Unidos e cria[vam] algo novo totalmente a partir deles”. Para além das pornochanchadas, os grupos também produziam filmes de comédia, terror e cinema marginal, porém existe uma falta de continuidade de difusão dos seus trabalhos, especialmente dos filmes de pornochanchada.

Segundo matéria da Revista Esquinas, é possível nomear como o motivo pelo declínio das produções da Boca as exportações cada vez mais frequentes de produções pornográficas do exterior, aliado ao fato de que, como afirma Basilio, ao decorrer da década de 90, o Brasil enfrentou uma recessão econômica durante e ao final da ditadura civil-militar, impossibilitando a contínua produção audiovisual da equipe da Boca.

A questão que eu trago aqui é: como um acervo de filmes importantes para a cultura brasileira e para a história do audiovisual nacional pode ser deixado de lado nos processos de difusão cultural de hoje em dia? Existem importantes ações de preservação do audiovisual acontecendo, vide o exemplo da criação do Tela Brasil, serviço de streaming com um catálogo 100% composto de filmes nacionais. Por que os filmes do Jean Garrett e do David Cardoso, grandes diretores do gênero da pornochanchada, também não são contemplados por esses processos de preservação e difusão?

Eu acredito que esse processo de descentralização da região onde majoritariamente aconteciam as produções desses filmes seja importante fator de causalidade, adicionando o fato de que tais títulos deixaram de ser populares e atrair audiências para as salas de cinema no período político anteriormente comentado. Além de que, não posso deixar de fora a realidade de que estes filmes são derivados de filmes pornográficos, apesar de serem uma categoria à parte e que dialogam sobre variadas questões e objetivam conscientização política, a indústria do pornô é vista sob diferentes lentes das quais a indústria cinematográfica é vista.

Ou seja, há o fato de que as pornochanchadas são avaliadas como produções nesse meio termo, entre o cinema “normalizado” e o cinema underground. Sendo assim, existe toda uma discussão, a partir de discursos populares e socializados, que questionam a articidade e processos éticos de feitura desses filmes.

Dentre os filmes dessa época, eu consegui uma cópia, a partir de meios não convencionais, do filme A Mulher que Inventou o Amor (1980) de Jean Garrett. Estrelado por Aldine Müller, a narrativa acompanha a história de Doralice, uma jovem moça que se apaixona copiosamente por astros da televisão e sonha um dia se casar com um deles, ansiando em ser amada de volta. Nesse meio tempo, Doralice é envolvida em uma situação traumática e não vê outra escolha a não ser entrar para o trabalho da prostituição, quebrando, assim, sua idealização de um dia ser a noiva perfeita.

Eu fiquei em completo choque ao perceber que a história escrita por João Silvério Trevisan conseguia discutir e tensionar as ideias de amor romântico e sexo de uma maneira complexificada em um filme de 1 hora e 39 minutos com muitas cenas de sexo. Afirmo que é a melhor abordagem sobre as temáticas que eu já vi em tela, considerado, inclusive, como um dos mais importantes filmes da história do Brasil segundo a lista divulgada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) em maio deste ano.

Dito isso, acredito que a pornochanchada é um gênero legítimo e serve como símbolo de um cinema marginal e revolucionário na história do audiovisual brasileiro. Não consigo levar a sério discussões sobre deslegitimação de algum tipo de obra de arte somente porque ela aborda sexo como viés central. É como a Madonna disse na sua música Human Nature, de 1994, “Você me pune porque eu verbalizo as suas fantasias [...] Opa, eu não sabia que eu não poderia falar sobre sexo”.

Esse trecho da faixa reverbera com a exata história da Boca do Lixo aqui no Brasil que, por tratar sobre sexo tão explicitamente, ou porque seus agentes de produções participavam de uma indústria não convencional, não há ações de preservações nem mesmo por parte da Agência Nacional de Cinema (ANCINE). A Cinemateca de São Paulo possui registros das existências dos filmes de Jean Garrett na sua catalogação, segundo o site, mas não possui as cópias físicas. Como que o público geral interessado na história do cinema, ou até mesmo pesquisadores, podem acessar esses arquivos se não através da clandestinidade?

Há a necessidade de uma democratização eficiente de filmes de arquivo no Brasil. Iniciativas como o Tela Brasil são importantes, mas é necessário uma maior valorização da preservação desse material a partir de suas difusões. Pornochanchada e cinema da Boca do Lixo são parte crucial da história do cinema marginal e merecem suas ideias tão difundidas quanto de qualquer outro cineasta histórico.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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