Madonna lança o Confessions II

Novo disco confirma por que Madonna é a maior artista pop da história

Fonte: Capa do disco Confessions II / Madonna

 

Madonna lançou na última sexta-feira (03/07) o aguardadíssimo 16º disco da sua carreira, Confessions II. O álbum serve como uma continuação do álbum de 2005 Confessions on a Dance Floor (Confissões na pista de dança) e traz como principais elementos o house, o techno e o eletrônico, resultando em um disco de dance music como poucas ainda sabem fazer.

A artista é uma das principais vozes da música mundial, mesmo com mais de 40 anos desde o lançamento do seu primeiro álbum homônimo, lá em 1983. Madonna continua relevante, em comparação com muitos dos seus companheiros artistas da mesma época, porque se permite reinventar e criar novas maneiras de estabelecer conexão com o seu público. Diálogo esse que nunca deixou de ser político, contemporâneo e consciente, fator indispensável que a torna figura pública relevante em qualquer contexto.

Em I Feel So Free, Madonna abre o disco: “Obrigada por comparecer / Às vezes eu gosto de me esconder nas sombras / Crio uma nova persona / Uma identidade diferente / Eu posso ser quem eu quiser / Criando uma nova persona / Sinceramente, eu queria ser como as outras pessoas / E simplesmente não me importar / Mas aqui / Na pista de dança / Eu me sinto tão livre” (tradução do autor). Os versos são indiscutivelmente Madonna, com uma pitada de insegurança que traz aprofundamento nessa “persona” que a rainha do pop diz criar.

A cantora sempre fez questão de assumir responsabilidade de seu papel político enquanto figura que dita tendências e comportamentos. Faixas como Express Yourself, de 1989, é exemplo de como a música serve de testamento para toda uma comunidade de ouvintes e influencia suas maneiras de relacionar-se com o mundo. Madonna canta: “Então se você quer agora, faça com que ele te mostre como / Diga o que ele tem / Sim, baby, pronto ou não / Se expresse”.

Em I Feel So Free, trechos como “Às vezes eu gosto de me esconder nas sombras / [...] / Eu queria ser como as outras pessoas” mostram um lado vulnerável da artista que poucas vezes tivemos acesso enquanto público. Uma outra artista que faz uso da música eletrônica quase como um ato ritualístico de catarse emocional é a britânica Charli xcx.

Em 2024, Charli teve sua carreira meteoricamente alavancada pelo sucesso do disco Brat, também eletrônico, dance e completamente vulnerável. Composições como Sympathy is a knife escancaram as incertezas e inseguranças da sua cantora, comparando-se constantemente com outras figuras bem sucedidas. Enquanto as lamúrias são despejadas nos ouvintes, a batida da música contagia. Charli xcx certamente é uma artista influenciada por Madonna, inclusive na maneira como ambas visualizam na criação artística um método de expressão individual e de identidade, ao contrário de ideias que dizem que se trata de talento ou sucesso metrificado.

Na faixa do Confessions II One Step Away, Madonna canta: “As pessoas pensam que a música dance é superficial / Mas eles entenderam tudo errado / A pista de dança não é só um lugar / É um portal / Um espaço ritualístico onde movimento substitui a linguagem”. Aqui, a artista assume que existem ideias no mundo que vão de encontro com as suas, como a de que a música dance é superficial, mas compreende que é no encontro das pessoas com os mesmos propósitos que é criado uma forma de comunicação que vai para além de quaisquer proferição de palavras.

O álbum lida com a pista de dança como a Igreja lida com o altar. É o local de confissão de pecados e a concessão de perdão divino. Em Confessions II, o divino supremo não se personifica nem se materializa, mas é incorporado nas pessoas que frequentam as baladas e festas. Como grande parte do público da artista é LGBTQIAPN+, o senso de comunidade dessas pessoas nunca se fez, primariamente e majoritariamente, na igreja e na família. A sensação de pertencimento historicamente é construída por outros membros da comunidade em locais exatamente como uma pista de dança.

O que eu acho mais tocante é que a mensagem de Madonna retrata a espiritualidade exatamente dessa forma. Única, exclusiva de cada pessoa que se sente vulnerável a ela e interpretativa de quem é tocado por esse divino, seja lá o que Ele for.

O lançamento desse álbum, no cenário contemporâneo de recusa de discursos pró-LGBTQIAPN+, só concretiza o que há mais de quatro décadas pudemos ter certeza: Madonna é uma artista que se importa com a mensagem da sua arte. E em Confessions II não é diferente. As letras reiteram que existe vulnerabilidade por trás da fachada, mas estabelece que o que realmente sustenta uma vontade de viver é a conexão entre as pessoas, seja através da pista de dança, da arte ou da espiritualidade.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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