Messi se despede da Argentina: o fim de uma era que mudou a história do futebol
Aos 39 anos, Lionel Messi faz nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, sua última partida pela Seleção Argentina. No Monumental de Núñez, diante de mais de 80 mil torcedores, termina uma história de mais de duas décadas que atravessou gerações, derrubou críticas, colecionou títulos e transformou o camisa 10 em um dos maiores personagens da história do futebol.
Crédito, Getty Images
Há jogadores que ganham títulos. Há jogadores que quebram recordes. Há aqueles que encantam uma geração. E existem raríssimos atletas capazes de reunir tudo isso e, ao mesmo tempo, alterar a maneira como o futebol é percebido.
Lionel Andrés Messi pertence a essa última categoria.
Nesta terça-feira, diante de Benim, em Buenos Aires, o futebol argentino fecha um dos capítulos mais importantes de sua história. Messi veste pela última vez a camisa da Argentina em uma partida que será muito mais do que um amistoso. Será uma celebração, mas também uma despedida. A despedida de um jogador que, durante 21 anos, carregou sobre os ombros uma camisa que, por muito tempo, pareceu pesar mais do que qualquer outra. (FIFA)
De Rosario para o mundo
A história começou em Rosario, mas ganhou dimensão mundial quando Messi chegou ao futebol espanhol ainda adolescente.
No Barcelona, tornou-se símbolo de uma geração e construiu uma carreira extraordinária. Foi ali que desenvolveu grande parte de seu repertório: velocidade curta, dribles em espaços reduzidos, mudança de direção, visão de jogo, capacidade de passe e uma relação quase incomum com a bola.
Entre suas principais referências esteve Diego Maradona, figura máxima do futebol argentino e personagem inevitável em qualquer comparação sobre os grandes camisas 10 do país.
Mas Messi também construiu sua própria identidade. Não precisou ser Maradona. Tornou-se Messi.
E essa talvez seja uma das marcas mais importantes de sua trajetória: o garoto de Rosario deixou de ser comparado aos ídolos que vieram antes dele para passar a ser referência para os que chegaram depois.
A relação complicada com a Seleção
Curiosamente, a história de Messi com a seleção principal não começou como um conto de fadas.
Seu primeiro jogo, em 17 de agosto de 2005, contra a Hungria, terminou poucos segundos depois de sua entrada em campo, após receber cartão vermelho. Um ano depois, na Copa do Mundo de 2006, ele já aparecia como uma das grandes promessas do futebol mundial. (FIFA)
Mas a camisa argentina lhe trouxe cobranças que não existiam na mesma intensidade no Barcelona.
Durante anos, Messi foi questionado porque seus títulos e suas grandes atuações no clube não se repetiam com a mesma frequência pela seleção. Vieram derrotas dolorosas, finais perdidas e uma cobrança permanente para que ele conduzisse a Argentina novamente ao topo.
A sequência de derrotas nas finais da Copa do Mundo de 2014 e das Copas América de 2015 e 2016 levou Messi, inclusive, a anunciar temporariamente sua aposentadoria da seleção em 2016. (FIFA)
Foi um momento que parecia simbolizar uma relação ainda incompleta entre o craque e seu país.
Mas a história estava longe de terminar.
A transformação
A virada aconteceu em 2021.
Na final da Copa América, no Maracanã, a Argentina derrotou o Brasil por 1 a 0 e Messi finalmente conquistou seu primeiro grande título com a seleção principal.
Aquele momento mudou a relação entre jogador e torcida.
Depois vieram a Finalíssima de 2022, contra a Itália, e o momento que durante anos parecia impossível: a conquista da Copa do Mundo de 2022, no Catar.
Na final contra a França, Messi marcou duas vezes, participou de uma das partidas mais memoráveis da história das Copas e converteu sua cobrança na disputa de pênaltis. A Argentina conquistou o título mundial, e Messi recebeu o prêmio de melhor jogador do torneio. (FIFA)
Era o troféu que faltava.
E, naquele instante, uma discussão que havia acompanhado toda a sua carreira perdeu parte de seu sentido: Messi não precisava mais provar que poderia ser campeão mundial.
Ele era.
O legado em números
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da trajetória.
Messi deixa a Seleção Argentina como recordista de partidas e maior goleador da história do país. São 207 jogos e 125 gols, além de 68 assistências segundo o balanço oficial da Associação do Futebol Argentino. (AFA)
Ele disputou seis Copas do Mundo, participou de 34 partidas no torneio e marcou 21 gols. Também conquistou duas Copas América, uma Copa do Mundo e a Finalíssima pela seleção principal. (AFA)
A lista de títulos pela Argentina inclui ainda:
• Copa do Mundo Sub-20 — 2005
• Medalha de ouro olímpica — 2008
• Copa América — 2021
• Finalíssima — 2022
• Copa do Mundo — 2022
• Copa América — 2024
Em 2026, mesmo aos 39 anos, Messi voltou a disputar uma Copa do Mundo. A Argentina chegou novamente à final, encerrando sua participação mundialista com uma derrota para a Espanha. (AFA)
E os clubes?
Antes de ser o capitão da Argentina, Messi já havia construído uma coleção impressionante de títulos no futebol de clubes.
No Barcelona, viveu o período mais vitorioso de sua carreira, conquistando quatro títulos da Liga dos Campeões, dez Campeonatos Espanhóis, sete Copas do Rei, três Mundiais de Clubes e três Supercopas da UEFA, além de outros troféus nacionais.
Também passou pelo Paris Saint-Germain, onde conquistou o Campeonato Francês, e pelo Inter Miami, nos Estados Unidos, onde continuou acrescentando troféus à carreira.
Em setembro de 2026, Messi chegou aos 100 gols pelo Inter Miami e ajudou o clube a conquistar seu quarto troféu desde sua chegada à equipe. (Reuters)
No plano individual, o currículo também é excepcional: Messi foi eleito oito vezes vencedor da Bola de Ouro, além de receber duas vezes o prêmio de melhor jogador de uma Copa do Mundo.
O jogador que inspirou gerações
Talvez o maior legado de Messi não esteja em uma estatística.
Está nos campos de futebol espalhados pelo mundo.
Milhões de crianças cresceram tentando reproduzir o drible curto, a arrancada, o passe entre linhas ou a cobrança de falta do argentino. Camisas 10 passaram a enxergar em Messi uma referência de criatividade, técnica e inteligência dentro de campo.
Ele influenciou uma geração de jogadores que não apenas assistiu às suas conquistas, mas cresceu querendo jogar como ele.
E há algo ainda maior: Messi mostrou que a genialidade não precisa ser barulhenta.
Seu futebol quase sempre falou por ele.
O fim de uma era
A despedida desta terça-feira acontece no Monumental de Núñez, diante de uma torcida que esgotou os ingressos rapidamente. A partida contra Benim foi organizada como uma homenagem ao capitão e maior referência da seleção argentina. (AFA)
É difícil imaginar a Argentina sem Messi.
Durante duas décadas, muitas vezes a pergunta antes de uma partida era simples: o que Messi vai fazer hoje?
Agora, a pergunta será outra:
quem será a Argentina sem Messi?
A resposta não poderá ser dada por um único jogador.
A camisa 10 ficará diante de uma nova geração, com nomes como Nico Paz e Franco Mastantuono entre os jogadores que aparecem no debate sobre o futuro da equipe. Mas nenhum deles terá a obrigação de ser uma cópia de Messi — porque não haverá outro Messi. (Folha de S.Paulo)
A seleção terá de aprender a distribuir responsabilidades que durante anos estiveram concentradas em um único craque.
E talvez essa seja a maior herança do argentino.
Messi deixa uma seleção que aprendeu a vencer.
Deixa uma geração campeã.
Deixa uma identidade construída ao lado de jogadores como Ángel Di María, Rodrigo De Paul, Emiliano Martínez, Julián Álvarez e tantos outros.
E deixa, principalmente, a certeza de que a Argentina conseguiu transformar a relação com seu maior craque.
Durante muito tempo, Messi foi cobrado para alcançar Maradona.
Hoje, quando se fala sobre os maiores jogadores da história, é o nome de Messi que aparece inevitavelmente na conversa.
O adeus
No futebol, nenhuma carreira dura para sempre.
Até mesmo os gênios precisam, um dia, sair de cena.
Messi continuará jogando por seu clube, mas a partir desta noite a camisa argentina pertencerá ao passado.
Serão lembrados os gols, os dribles, os títulos, as finais, as lágrimas, as derrotas, o abraço com a taça da Copa do Mundo e aquele momento em que o capitão finalmente levantou o troféu que perseguiu durante toda a carreira.
Mas talvez o maior símbolo seja outro.
Um menino de Rosario que um dia vestiu a camisa da Argentina e passou mais de duas décadas tentando conquistar o país.
Conseguiu.
E quando sair do Monumental nesta noite, Lionel Messi não levará apenas seus troféus.
Levará consigo uma parte da história da Seleção Argentina.
E deixará para o futebol mundial algo que nenhum recorde consegue medir:
a memória de ter visto um dos maiores jogadores de todos os tempos jogar.
Júnior Patente
Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br







