Intolerância política chega às escolas e provoca episódios de bullying entre crianças e adolescentes

Após o segundo turno das eleições presidenciais, estudantes passaram a relatar xingamentos, ameaças e perseguições motivadas pelas preferências políticas de suas famílias. Casos foram registrados em diferentes estados e levantam questionamentos sobre

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 30/10/2026, 08:57h

A polarização política que marcou a disputa presidencial de 2026 ultrapassou o ambiente das campanhas e das redes sociais e chegou às salas de aula. Nos dias seguintes ao segundo turno, escolas de diferentes regiões do país registraram episódios de bullying, intimidação e agressões verbais entre estudantes por causa das posições políticas de seus familiares.

Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (30) reúne relatos de pais que procuraram as instituições de ensino para denunciar ataques contra seus filhos. Na maioria dos episódios relatados, crianças identificadas como filhas de apoiadores de Jair Bolsonaro direcionaram ofensas a colegas cujas famílias apoiaram Luiz Inácio Lula da Silva. Também existem denúncias de perseguição contra estudantes ligados ao campo político de direita.

Um dos casos aconteceu em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde um estudante de 12 anos teria sido cercado por colegas e chamado de "petista nojento". A denúncia foi divulgada pela mãe nas redes sociais e provocou manifestações de outras famílias que relataram situações semelhantes.

Em outro episódio, uma mãe contou que a filha, de apenas seis anos, reproduziu uma ameaça de violência contra o presidente Lula que teria ouvido de um colega. O relato evidencia como discursos agressivos presentes no ambiente político e nas conversas entre adultos podem ser reproduzidos pelas crianças.

Estudantes são alvo de perseguição dentro das escolas

Em São Paulo, pelo menos duas instituições de ensino enfrentaram denúncias de bullying político. Na Escola do Futuro, localizada na zona sul da capital, uma estudante de 12 anos teria sido cercada e pressionada por colegas após o resultado eleitoral. Segundo o pai, a menina chegou em casa chorando.

A família criticou a condução do episódio pela orientação pedagógica da escola e relatou novos ataques nos dias seguintes, incluindo provocações relacionadas à posição política da estudante.

No tradicional Colégio Bandeirantes, também na capital paulista, uma adolescente foi alvo de ofensas graves. Segundo relato do pai, uma colega chegou a defender que a menina fosse vítima de violência sexual por apoiar Lula. Outra estudante também teria sido alvo de insultos relacionados à aparência física.

Os episódios provocaram questionamentos das famílias sobre a capacidade das instituições de ensino de enfrentar situações de discriminação e garantir um ambiente seguro para todos os estudantes.

Caso também é investigado no Distrito Federal

A violência política entre estudantes não ocorre apenas entre apoiadores de Lula. No Distrito Federal, um adolescente de 16 anos relatou ter sofrido perseguição por apoiar Flávio Bolsonaro. O caso aconteceu no Centro Educacional 6 do Gama e teria levado o estudante a mudar de escola.

A denúncia motivou manifestações de autoridades políticas e a abertura de um procedimento administrativo pela Secretaria de Educação do Distrito Federal. A Polícia Civil também investiga a ocorrência.

Psicóloga alerta para reprodução do discurso de ódio

A psicóloga Vera Rocha Resende, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, alerta que a reprodução de discursos de ódio dos adultos pelas crianças compromete o desenvolvimento das relações sociais e a maneira como elas compreendem o mundo.

Na avaliação da especialista, quando crianças aprendem a dividir as pessoas entre grupos considerados bons e ruins, passam a reproduzir comportamentos de intolerância e rejeição às diferenças.

A psicóloga defende que o enfrentamento do problema também precisa alcançar os adultos, responsáveis por transmitir referências de convivência, respeito e comportamento democrático.

Escola precisa ser espaço de respeito e convivência democrática

Os episódios reacendem uma discussão fundamental sobre o papel da educação em uma sociedade marcada por divergências políticas. A escola deve ser um espaço de formação cidadã, onde crianças e adolescentes possam aprender a conviver com opiniões diferentes sem transformar divergências em humilhação, ameaças ou violência.

O direito à liberdade de expressão não pode ser utilizado como justificativa para intimidar, constranger ou discriminar colegas. A pluralidade de ideias faz parte da democracia, mas exige responsabilidade, respeito e reconhecimento da dignidade de cada pessoa.

Quando a rivalidade política transforma crianças em alvos de perseguição, o problema deixa de ser apenas eleitoral. Torna-se também uma questão educacional, social e de proteção à infância e à adolescência.

Fonte: reportagem de Claudinei Queiroz e Ideídes Guedes, Folha de S.Paulo.

Comentários


Instagram

Facebook