Copa do Mundo de 2026 expõe uma FIFA submissa e um Mundial marcado por exceções, barreiras e desigualdade

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 28/06/2026, 10:58h

A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada não apenas pelo futebol, mas também por um debate que desafia um dos principais discursos defendidos historicamente pela FIFA: a igualdade de tratamento entre as nações participantes.

Ao longo de décadas, a entidade máxima do futebol impôs exigências rigorosas aos países que receberam o torneio. Diversos governos precisaram alterar legislações, conceder isenções fiscais, flexibilizar normas comerciais e adaptar regras internas para atender aos interesses da organização. Em diferentes edições do Mundial, a FIFA exerceu enorme influência sobre os países-sede, impondo condições consideradas inegociáveis para a realização do evento.

Nos Estados Unidos, porém, o cenário foi diferente.

Em vez de exigir mudanças estruturais para garantir condições iguais a todas as delegações, a entidade acabou se adaptando às políticas migratórias e de segurança estabelecidas pelo governo norte-americano. O resultado foi uma competição em que nem todas as seleções disputaram o torneio sob as mesmas circunstâncias.

Poucas equipes simbolizaram essa diferença de tratamento de forma tão evidente quanto o Irã.

Durante toda a competição, a delegação iraniana enfrentou restrições para permanecer em território americano, sendo obrigada a realizar deslocamentos internacionais e passar por procedimentos migratórios antes de cada partida. Uma rotina inexistente para a maioria das demais seleções.

A situação provocou forte reação do capitão Mehdi Taremi, que não escondeu sua indignação.

"Eles fizeram de tudo para nos eliminar", afirmou o atacante, ao criticar o fato de a equipe precisar cruzar fronteiras e enfrentar novos controles de imigração antes de cada jogo. Segundo o jogador, nem mesmo uma promessa feita pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de buscar uma solução para o problema foi concretizada.

"Não podemos ficar no país, viajamos e nos submetemos a controles migratórios toda vez que queremos jogar. Eles fizeram de tudo para nos eliminar. Do nosso ponto de vista, sim, é isso que querem", declarou.

As dificuldades não ficaram restritas ao aspecto logístico.

Ao longo do torneio, relatos de obstáculos enfrentados por torcedores, profissionais e representantes de países africanos também alimentaram críticas sobre o tratamento desigual dispensado a determinadas delegações. Em diferentes momentos da competição, jogadores, árbitros e torcedores africanos enfrentaram dificuldades relacionadas à entrada, circulação e permanência nos Estados Unidos, situação que gerou questionamentos sobre o princípio de universalidade que a própria FIFA costuma defender.

Embora questões de imigração sejam prerrogativa dos governos nacionais, críticos apontam que a entidade aceitou previamente um cenário no qual parte dos participantes estaria submetida a condições muito mais rigorosas do que outras seleções.

A desigualdade também ganhou dimensão humana nas palavras do lateral iraniano Ramin Rezaeian após a dramática partida contra o Egito.

Emocionado, o jogador afirmou que o grupo entrou em campo pensando exclusivamente na população iraniana.

"Jogamos por amor ao nosso povo."

A declaração resumiu um sentimento que ultrapassou o futebol. Para os atletas iranianos, a Copa deixou de ser apenas uma competição esportiva para se transformar em um ambiente marcado por pressão política, controles migratórios constantes e incertezas fora das quatro linhas.

O episódio reacende um debate antigo sobre o papel da FIFA diante dos governos que sediam seus torneios.

Se em países da América do Sul, Europa, África e Ásia a entidade historicamente exigiu mudanças legais, adaptações administrativas e inúmeras garantias para proteger seus interesses comerciais, a edição de 2026 apresenta um contraste evidente: diante das políticas adotadas pelos Estados Unidos, foi a própria FIFA que flexibilizou seu discurso.

A consequência foi uma Copa em que nem todos os participantes chegaram ao campo de jogo enfrentando apenas o adversário. Para algumas seleções, especialmente aquelas oriundas de países submetidos a restrições diplomáticas ou migratórias, a competição começou muito antes do apito inicial, nas filas da imigração, nos postos de controle e nas fronteiras.

Em um torneio que costuma ser apresentado como a maior celebração da universalidade do futebol, a Copa de 2026 deixa como legado um questionamento inevitável: quando regras diferentes passam a valer para participantes diferentes, o princípio da igualdade esportiva também entra em campo — e pode sair derrotado.

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