Quase 2 milhões de brasileiros trabalharam por aplicativos em 2025, aponta IBGE

Trabalhadores de plataformas enfrentaram jornadas maiores, remuneração menor por hora e informalidade superior à dos demais ocupados no setor privado

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 05/09/2026, 03:37h

Cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostra que esses profissionais trabalham mais horas por semana e recebem menos por hora do que os demais trabalhadores do setor privado.

Os dados fazem parte de uma edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua dedicada ao trabalho por plataformas digitais. Ao todo, 1,959 milhão de pessoas com 14 anos ou mais utilizaram aplicativos para obter trabalho, o equivalente a 1,9% da população ocupada no país.

O IBGE classifica esses profissionais como trabalhadores “plataformizados”. A maior parcela está no transporte de passageiros: cerca de 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9% do total. Desse grupo, aproximadamente 1,1 milhão utilizava plataformas de transporte particular, enquanto 232 mil trabalhavam exclusivamente com aplicativos de táxi.

As entregas também representam uma parcela significativa. Cerca de 376 mil pessoas, ou 19,2% dos trabalhadores por plataformas, realizavam entregas de alimentos e outros produtos.

Outros 313 mil, equivalentes a 16%, utilizavam aplicativos para oferecer serviços gerais ou profissionais, categoria que inclui atividades como design, tradução e até serviços médicos mediados por plataformas digitais.

Número de trabalhadores cresce

Embora a pesquisa tenha identificado quase 2 milhões de trabalhadores por aplicativos em 2025, o IBGE ressalta que o número não pode ser comparado diretamente com os levantamentos anteriores. Desta vez, foram incluídas também pessoas que utilizavam as plataformas apenas como fonte complementar de renda.

Considerando somente aqueles que tinham os aplicativos como ocupação principal, o número passou de 1,3 milhão em 2022 para 1,7 milhão em 2024 e chegou a 1,8 milhão em 2025. O crescimento foi de 9,1% em um ano e de 36,8% em relação a 2022. Entre 2024 e 2025, o número de entregadores de aplicativos avançou 18,6%.

O levantamento também traçou o perfil desses trabalhadores. Entre aqueles que tinham as plataformas como atividade principal, 84,4% eram homens, enquanto 47% tinham entre 25 e 39 anos.

Para motoristas de transporte particular e entregadores, a principal razão apontada para começar a trabalhar por aplicativos foi a dificuldade de encontrar outro emprego. Flexibilidade e possibilidade de obter rendimentos maiores também apareceram entre as motivações.

Mais horas de trabalho e menor remuneração por hora

O rendimento médio mensal dos trabalhadores por aplicativos foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual aos R$ 3.148 recebidos pelos demais trabalhadores analisados. A diferença aparece quando a jornada é considerada. Os profissionais de plataformas trabalhavam, em média, 44,7 horas por semana, enquanto os demais registravam jornada de 39,3 horas — uma diferença de 5,4 horas semanais. Com isso, o rendimento médio por hora dos trabalhadores por aplicativos ficou em R$ 16,20, contra R$ 18,40 dos demais ocupados. Na prática, os profissionais de plataformas receberam 12% menos por hora trabalhada.

Informalidade chega a 72%

A pesquisa também aponta uma diferença significativa nas condições de proteção trabalhista e previdenciária. Entre os trabalhadores por aplicativos, 72,1% estavam na informalidade, enquanto entre os demais ocupados a proporção era de 42,7%. Apenas 34% dos trabalhadores plataformizados tinham cobertura previdenciária, ante 63% entre os demais.

A maior parte também se declarava profissional por conta própria: 86,8% dos trabalhadores por aplicativos estavam nessa condição. Apesar disso, o IBGE identificou um elevado grau de dependência em relação às empresas responsáveis pelas plataformas. Entre os motoristas de transporte de passageiros, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada serviço dependia totalmente do aplicativo. Entre os entregadores, o percentual chegou a 78,3%.

Para o analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes, essa relação diferencia esses profissionais do trabalhador autônomo tradicional. “Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital”, afirmou.

A divulgação ocorre em meio ao debate sobre a chamada “uberização” das relações de trabalho. O Supremo Tribunal Federal (STF) analisa a possibilidade de reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas digitais, tema que envolve divergências entre representantes das categorias e empresas do setor.

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