Sarampo avança nas Américas, e nenhum estado brasileiro alcança meta de vacinação

Cobertura com duas doses da vacina está abaixo de 80% no país, segundo levantamento divulgado pelo g1; surtos em países vizinhos aumentam o risco de novos casos e de transmissão local

O sarampo é transmitido por via respiratória e pode passar de uma pessoa para outra antes mesmo do surgimento das manchas na pele. Foto: Freepik
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 22/10/2026, 10:13h

Nenhum estado brasileiro atingiu a meta de vacinar 95% das crianças menores de dois anos com as duas doses da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Segundo dados do Ministério da Saúde citados em reportagem do g1 publicada nesta quinta-feira (22), a cobertura nacional com o esquema completo está abaixo de 80%, cenário que preocupa especialistas diante do avanço da doença em países das Américas.

O Brasil recuperou, em novembro de 2024, o reconhecimento de país livre da transmissão endêmica do sarampo. Isso, porém, não significa que a doença tenha deixado de representar uma ameaça. Casos importados continuam sendo identificados, e a circulação do vírus pode provocar novos surtos em regiões onde há pessoas com vacinação incompleta.

Segundo o diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti, o Ministério da Saúde tem reforçado a vigilância e intensificado a vacinação em municípios próximos à fronteira com o Peru, no oeste do Amazonas.

A vacina tríplice viral oferece proteção elevada contra o sarampo. De acordo com os dados apresentados na reportagem, a primeira dose garante proteção de aproximadamente 94% a 96%, enquanto duas doses elevam a eficácia para mais de 97%.

Em 2024, a cobertura da segunda dose entre crianças de até cinco anos chegou a 91%, mas ainda ficou abaixo da meta de 95%. O período recomendado para completar o esquema vacinal infantil é até os 15 meses de idade.

Os dados estaduais referentes a 2026 mostram diferenças entre as coberturas. Paraná, Ceará e Minas Gerais aparecem entre os estados com índices mais altos, todos abaixo da meta. Amapá, Pará, Maranhão e Rio de Janeiro estão entre os que apresentam os menores percentuais no levantamento citado.

Especialistas alertam que, além de alcançar uma cobertura elevada, é necessário garantir que a vacinação esteja distribuída de maneira uniforme entre municípios e comunidades. Regiões com concentração de pessoas não imunizadas podem facilitar a disseminação do vírus, mesmo quando os índices gerais são mais altos.

Surtos nas Américas preocupam autoridades de saúde

O avanço da doença em outros países aumenta o risco de entrada de novos casos no Brasil. Segundo a reportagem, o Peru registra cerca de 3 mil casos, enquanto outros países da região também enfrentam surtos. Nos Estados Unidos, o total ultrapassou 3,6 mil casos em 2026, com cinco mortes registradas até o período analisado.

O infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explica que a entrada de casos importados é esperada diante da circulação internacional de pessoas. O principal fator para evitar que essas ocorrências se transformem em surtos é manter a população protegida.

A circulação do vírus pode ser interrompida quando há um número suficientemente alto de pessoas imunizadas. Por isso, coberturas vacinais baixas ou concentradas em determinadas comunidades representam um risco mesmo em locais que apresentam bons resultados gerais.

O Brasil registrou 39 casos de sarampo em 2025 e, em 2026, já havia ultrapassado 50 casos no período da reportagem. A maior concentração das ocorrências deste ano foi identificada em São Paulo.

Sintomas e complicações do sarampo

O sarampo é uma doença infecciosa altamente contagiosa, transmitida pelo ar, por meio de partículas eliminadas quando uma pessoa infectada tosse, espirra, fala ou respira.

Os sintomas iniciais incluem febre alta, tosse seca, conjuntivite e mal-estar. Entre três e cinco dias após o início dos sintomas, costumam aparecer manchas avermelhadas na pele, inicialmente no rosto e atrás das orelhas, que depois se espalham pelo corpo.

Embora seja frequentemente associado às manchas, o sarampo pode provocar complicações graves. Entre elas estão pneumonia, otite média aguda e encefalite, uma inflamação do cérebro. Crianças pequenas, especialmente menores de um ano, e pessoas imunossuprimidas estão entre os grupos mais vulneráveis.

A doença também pode causar a chamada amnésia imunológica, condição em que o organismo perde parte da memória de defesa contra outros agentes infecciosos, ficando mais vulnerável a novas infecções após a recuperação.

Diante de sintomas compatíveis com sarampo, a orientação é procurar atendimento de saúde para avaliação.

Quem deve tomar a vacina?

A principal forma de prevenção é a vacinação com a tríplice viral. Conforme o Calendário Nacional de Vacinação apresentado na reportagem, o esquema de rotina inclui:

  • Aos 12 meses: primeira dose da tríplice viral.

  • Aos 15 meses: segunda dose, para completar o esquema infantil.

  • Dos 5 aos 29 anos: pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto devem ter pelo menos duas doses registradas.

  • Dos 30 aos 59 anos: a recomendação de rotina é de pelo menos uma dose.

As recomendações podem variar em situações específicas, como surtos e campanhas de bloqueio. Por isso, quem não sabe se está com a vacinação em dia deve procurar uma unidade de saúde e apresentar a caderneta para conferência.

Pessoas que já possuem o número de doses recomendado para sua faixa etária não precisam, em regra, receber doses adicionais de rotina. A avaliação do histórico vacinal deve ser feita de acordo com as orientações do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

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