O fiasco anunciado da Seleção Brasileira

A eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo não foi um acidente de percurso. Tampouco pode ser tratada como uma surpresa. O que se viu em campo foi apenas o desfecho previsível de um projeto que nasceu atrasado, foi conduzido sem continuidade e jamais apresentou sinais de maturidade suficientes para disputar o principal torneio do futebol mundial.

A Seleção Brasileira passou anos sem uma linha de trabalho consistente. Foram sucessivas trocas de treinadores, dezenas — talvez centenas — de jogadores convocados em testes intermináveis e uma demora excessiva para definir uma base. Enquanto as principais seleções do mundo consolidavam seus elencos e aperfeiçoavam sistemas de jogo, o Brasil ainda buscava descobrir quem seriam seus titulares.

A contratação de Carlo Ancelotti representou um impacto positivo pelo peso de seu currículo, mas aconteceu tarde demais. Assumir uma seleção a aproximadamente um ano da Copa do Mundo é um desafio gigantesco, mesmo para um dos técnicos mais vencedores da história. Seleções nacionais não oferecem tempo de treinamento diário, nem longas pré-temporadas. Os encontros são raros, limitados às Datas FIFA e a poucos amistosos. Não há como construir, nesse espaço reduzido, um time com identidade sólida, mecanismos bem assimilados e competitividade suficiente para enfrentar as maiores potências do futebol.

Além disso, Ancelotti chegava sem um conhecimento próximo e recente do futebol brasileiro. Precisava conhecer jogadores, entender características e formar uma equipe praticamente durante a competição. Era uma missão que exigia tempo, justamente o recurso que ele não possuía.

Também houve incoerência em decisões importantes. O treinador afirmou que convocaria apenas atletas em plenas condições físicas, preparados para suportar a intensidade de uma Copa do Mundo. No entanto, a presença de Neymar na lista levantou dúvidas sobre a independência da comissão técnica para tomar decisões exclusivamente técnicas. Um jogador sem ritmo competitivo dificilmente suportaria a exigência máxima de um Mundial.

Na fase de grupos, a campanha acabou mascarando parte dos problemas. O Brasil venceu, mas enfrentou uma chave de nível técnico limitado. Escócia e Haiti ofereceram pouca resistência. Apenas Marrocos apresentou dificuldades reais e já indicava que a equipe brasileira estava longe de transmitir segurança.

Quando chegaram os confrontos eliminatórios contra adversários de maior qualidade, as limitações ficaram evidentes. O Japão já havia exigido muito da Seleção. Contra a Noruega, então, o domínio europeu foi absoluto. O Brasil terminou a partida com apenas 34% de posse de bola, o pior índice da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo desde 1966, retrato claro da incapacidade de controlar o jogo ou competir em igualdade.

As decisões durante a partida também levantaram questionamentos. Ancelotti lançou Endrick aos 12 minutos do segundo tempo para aumentar o poder ofensivo. O jovem começou a incomodar a defesa norueguesa e dava sinais de que poderia mudar o panorama da partida. Pouco depois, porém, Neymar entrou em campo. Sem ritmo, sem intensidade e distante da melhor forma física, passou boa parte do tempo caminhando, participou pouco das ações ofensivas e ainda obrigou Endrick a deixar a posição central para atuar pelo lado direito, setor em que seu rendimento caiu consideravelmente.

Como se o desempenho técnico já não fosse decepcionante, ainda houve espaço para atitudes incompatíveis com a tradição do futebol brasileiro. Neymar protagonizou um lance de agressividade ao chutar um adversário, recebeu cartão amarelo e iniciou um princípio de confusão. Depois, ao converter um pênalti quando a eliminação já estava praticamente consumada, provocou o goleiro norueguês. Nunca foi essa a identidade do Brasil. A Seleção construiu sua história encantando o mundo com talento, criatividade, respeito ao adversário e superioridade técnica, jamais por provocações ou demonstrações de descontrole emocional.

A eliminação não pode ser atribuída à falta de talento. O futebol brasileiro continua produzindo jogadores capazes de competir no mais alto nível. O problema está na ausência de planejamento, na falta de continuidade e na desorganização institucional que se tornou rotina nos últimos anos.

Uma Copa do Mundo não se vence apenas com nomes. Conquista-se com projeto, estabilidade, convicções e tempo de trabalho. O Brasil chegou ao torneio sem nenhum desses elementos. Por isso, o fracasso não começou diante da Noruega. Ele foi construído ao longo de anos de improvisação.

O resultado final apenas confirmou aquilo que muitos já enxergavam desde o início: este era um vexame anunciado.


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.
Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br

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