Educação para a igualdade de gênero é caminho para prevenir o feminicídio, defende pesquisadora
Professora Fadja Froes destaca que a violência contra a mulher está relacionada à reprodução de padrões machistas e defende mudanças na educação familiar, escolar e social para romper o ciclo da violência.
O enfrentamento do feminicídio exige mais do que medidas de proteção às mulheres e punição aos agressores. Também passa pela transformação de valores e comportamentos que, ao longo das gerações, contribuem para a desigualdade entre homens e mulheres. A educação para a igualdade de gênero é apontada pela professora e pesquisadora Fadja Froes como uma das principais estratégias para prevenir a violência e construir uma sociedade em que as mulheres tenham respeitados seus direitos, sua autonomia e suas escolhas.
Em entrevista ao jornalista Júnior Patente, a pesquisadora defendeu que a prevenção precisa começar na infância, dentro de casa, e continuar nas escolas, nas instituições públicas e nos demais espaços de convivência social. Para ela, a ideia de que homens e mulheres devem cumprir papéis diferentes, com a submissão feminina como regra, contribui para perpetuar relações desiguais de poder.

Segundo Fadja Froes, esses padrões são reproduzidos por discursos e práticas presentes em diferentes ambientes sociais, incluindo famílias, escolas e espaços religiosos. Quando a mulher é apresentada como alguém que deve obedecer ao homem ou ocupar um lugar predeterminado na sociedade, essa visão pode contribuir para a naturalização de comportamentos de controle e violência.
A pesquisadora ressalta que romper com essa lógica exige um processo educativo contínuo. Não se trata de uma mudança imediata, mas de uma construção que envolve diferentes gerações e instituições.
A educação começa dentro de casa
A divisão das tarefas domésticas é um dos exemplos apresentados para mostrar como a igualdade pode ser ensinada desde os primeiros anos de vida. Cozinhar, lavar a louça, cuidar das crianças e organizar a casa não são responsabilidades determinadas pelo sexo, mas atividades que podem ser compartilhadas entre os integrantes da família.
A participação de meninos e meninas nessas tarefas ajuda a demonstrar, na prática, que homens e mulheres têm responsabilidades e direitos iguais. O mesmo princípio vale para as escolhas profissionais, os projetos pessoais e as oportunidades oferecidas às crianças.
Para a pesquisadora, meninos não devem ser desencorajados a seguir profissões tradicionalmente associadas às mulheres, assim como meninas não devem ter seus sonhos limitados por estereótipos de gênero.
A educação para a igualdade também precisa envolver os adultos. Pais, mães e responsáveis desempenham um papel importante na formação das novas gerações, tanto pelas orientações que oferecem quanto pelos comportamentos que reproduzem no cotidiano.
O que significa educar para a igualdade de gênero?
A educação para a igualdade de gênero busca questionar a ideia de que existem atividades, profissões, comportamentos ou posições sociais exclusivos de homens ou de mulheres.
Isso não significa desconsiderar as diferenças individuais, mas reconhecer que elas não justificam desigualdades de direitos, restrições à liberdade ou relações de subordinação.
Na prática, significa ensinar às crianças que meninas podem ocupar posições de liderança, praticar esportes, escolher qualquer profissão e tomar decisões sobre suas vidas. Da mesma forma, meninos podem expressar sentimentos, cuidar da casa e dos filhos e escolher caminhos profissionais sem serem submetidos a preconceitos.
Fadja Froes defende que essa formação também contribui para que crianças e adolescentes reconheçam comportamentos abusivos e compreendam que controle, humilhação, ameaças e agressões não são demonstrações de amor ou autoridade.
A escola, nesse contexto, pode desempenhar um papel importante na construção de relações baseadas no respeito e na igualdade. A abordagem do tema deve contribuir para identificar estereótipos, prevenir discriminações e ensinar que nenhuma pessoa tem o direito de controlar a vida de outra.
Feminicídio não pode ser justificado pelo comportamento da vítima
Um dos pontos centrais da entrevista é a necessidade de mudar a maneira como a sociedade interpreta os casos de violência contra a mulher, especialmente os feminicídios.
A pesquisadora critica a prática de investigar a vida pessoal da vítima para procurar explicações que possam relativizar a responsabilidade do agressor. Questionamentos sobre roupas, relacionamentos, separações ou decisões pessoais desviam a atenção de quem praticou a violência.
A pergunta fundamental, segundo ela, não deve ser o que a mulher fez para morrer, mas por que o agressor decidiu matá-la.
O feminicídio não pode ser tratado como consequência de uma escolha da vítima nem como uma reação justificável diante do fim de um relacionamento, de uma recusa ou de uma decisão de viver de forma independente.
A ideia de que uma mulher pertence ao companheiro e não pode decidir sobre a própria vida está entre os comportamentos que precisam ser enfrentados. A separação, a autonomia e o exercício da liberdade não autorizam ameaças, perseguições ou agressões.
A pesquisadora também chama a atenção para a atuação de pessoas nas redes sociais que procuram informações sobre a vida das vítimas para defender os agressores ou relativizar a violência. Essa postura pode reforçar a culpabilização das mulheres e contribuir para a naturalização de comportamentos violentos.
A responsabilidade pela agressão é de quem a pratica. A exposição da vida pessoal da vítima não deve servir para desviar o foco do crime ou constranger outras mulheres que precisam de ajuda.
Medidas protetivas são importantes, mas não encerram o problema
As medidas protetivas de urgência representam um instrumento importante para a segurança de mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Entretanto, a existência de uma decisão judicial não significa que o risco tenha desaparecido.
Fadja chama a atenção para os casos em que agressores descumprem as determinações judiciais, invadem os espaços frequentados pelas vítimas e mantêm comportamentos de perseguição e ameaça.
Na Bahia, a Ronda Maria da Penha é citada pela pesquisadora como um mecanismo de acompanhamento e fiscalização do cumprimento das medidas protetivas. Ainda assim, ela avalia que os instrumentos de proteção precisam estar associados a uma política mais ampla de prevenção.
A mulher que denuncia uma agressão pode continuar exposta ao perigo, inclusive quando precisa deixar a própria residência para preservar a vida. Essa situação evidencia a necessidade de ampliar as condições de segurança, acolhimento e apoio às vítimas.
A prevenção também exige atenção aos sinais anteriores à violência letal, como ameaças, perseguições, intimidações e tentativas de controlar a rotina e as decisões da mulher. Esses comportamentos não devem ser tratados como manifestações normais de ciúme ou conflitos comuns de relacionamento.
Acolher sem julgar: responsabilidade dos serviços públicos
Outro aspecto destacado na entrevista é o atendimento oferecido às mulheres que procuram as autoridades para denunciar situações de violência.
A pesquisadora utiliza o conceito de vitimização secundária para explicar o sofrimento adicional provocado por instituições que deveriam proteger a vítima, mas acabam expondo-a a constrangimentos, desconfiança ou repetição desnecessária de relatos dolorosos.
Quando uma mulher procura uma delegacia ou outro serviço público e tem sua palavra colocada em dúvida, pode sentir vergonha, medo e desestímulo para continuar a denúncia. A experiência negativa também pode levar outras vítimas a acreditar que não serão acolhidas caso procurem ajuda.
Por isso, o preparo dos profissionais que atuam nas delegacias, nos serviços de assistência e no sistema de Justiça é fundamental. O atendimento deve ser realizado com respeito, escuta qualificada e compreensão das particularidades da violência de gênero.
A pesquisadora ressalta que a crítica não se dirige indistintamente às instituições policiais, mas à necessidade de preparar adequadamente os agentes públicos responsáveis por receber e encaminhar essas ocorrências.
O acolhimento precisa evitar julgamentos sobre a conduta da vítima e garantir que a denúncia seja tratada com seriedade. A mulher que procura ajuda deve encontrar orientação e proteção, não novas formas de constrangimento.
Uma mudança que envolve toda a sociedade
A proposta defendida por Fadja Froes vai além das ações direcionadas às vítimas e aos agressores. Para ela, a prevenção do feminicídio depende de uma transformação cultural que envolva famílias, escolas, instituições religiosas, serviços públicos e meios de comunicação.
Isso significa questionar discursos que colocam a mulher em posição de inferioridade, combater a discriminação e deixar de reproduzir a ideia de que a autoridade masculina deve prevalecer sobre as decisões femininas.
O debate sobre igualdade de gênero também precisa ser compreendido como uma oportunidade de ensinar respeito, responsabilidade e convivência. Meninos e meninas devem aprender que as diferenças não estabelecem hierarquias e que ninguém pode impor sua vontade a outra pessoa por meio de ameaças ou violência.
A educação, isoladamente, não substitui a investigação dos crimes, a responsabilização dos agressores, as medidas protetivas nem os serviços especializados de atendimento. Ela integra, porém, uma estratégia de prevenção que busca agir também sobre as condições culturais que favorecem a desigualdade e a violência.
A mensagem central da pesquisadora é que a construção de uma sociedade mais segura para as mulheres começa nas relações cotidianas. Dividir responsabilidades, respeitar escolhas, combater estereótipos e ensinar igualdade desde a infância são atitudes que ajudam a transformar a maneira como homens e mulheres se relacionam.
O feminicídio não é um desfecho inevitável dos conflitos afetivos. É uma forma extrema de violência que precisa ser enfrentada com proteção, responsabilização e mudanças sociais. Educar para a igualdade significa afirmar que nenhuma mulher deve perder a vida por decidir sobre o próprio corpo, seus relacionamentos ou seu futuro.











