Empresa acusada de prejudicar investidores transferiu R$ 563 mil a Paulo Guedes; PF apura relação com negócio
Ex-ministro da Economia recebeu pagamento por meio de consultoria da qual é sócio com familiares. OnilX enfrenta mais de 100 ações judiciais, questionamentos da CVM e denúncias de clientes que afirmam não conseguir recuperar o dinheiro investido.
Um pagamento de R$ 563,1 mil realizado por uma empresa envolvida em denúncias de irregularidades financeiras colocou novamente o ex-ministro da Economia Paulo Guedes no centro de questionamentos sobre sua relação com o mercado de investimentos em criptomoedas.
Segundo documentos obtidos pelo portal Metrópoles, a transferência foi realizada em 7 de julho de 2026, por meio de Pix, pela ActivosX Onil OTC Ltda. para a PG&A Consulting Ltda., empresa que tem Paulo Guedes, sua esposa e sua filha entre os sócios.
A operação chama atenção porque a empresa responsável pelo pagamento integra o grupo OnilX, que enfrenta denúncias de investidores, processos judiciais e medidas regulatórias relacionadas à oferta de produtos financeiros.
A Polícia Federal investiga o ex-ministro e o empresário Fábio Lino de Almeida, proprietário da OnilX, por suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O inquérito tramita sob sigilo na Justiça Federal do Paraná.
O caso levanta uma questão que vai além do valor transferido: qual foi o papel efetivamente desempenhado pelo ex-ministro em uma empresa que passou a enfrentar graves questionamentos sobre suas operações financeiras?
Nome de ex-ministro era utilizado para atrair investidores
A relação de Paulo Guedes com a OnilX não se limitava, segundo as informações reunidas pela reportagem do Metrópoles, ao recebimento de valores por serviços de consultoria.
O ex-ministro participou de reuniões estratégicas, conversou com potenciais investidores e teve sua imagem utilizada em materiais de divulgação da companhia.
Mensagens anexadas a processos judiciais mostram que uma assessora da empresa mencionava a participação de Guedes ao tentar convencer um possível cliente a investir. Em uma das conversas, ela afirmava que o economista estava dentro da empresa e oferecia a possibilidade de uma reunião para discutir estratégias com interessados em aplicações entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões.
O uso do nome de uma figura que comandou a economia brasileira entre 2019 e 2022 tinha potencial para transmitir confiança a investidores. Esse aspecto ganha importância diante das reclamações de clientes que afirmam ter acreditado na segurança das operações oferecidas.
A investigação policial busca esclarecer, entre outros pontos, se a participação e a atuação do ex-ministro contribuíram para conferir legitimidade às atividades da empresa.
Investidores relatam dificuldades para recuperar dinheiro
A OnilX atraiu clientes com ofertas relacionadas a criptomoedas e stablecoins, incluindo promessas de rendimentos que poderiam chegar a 2,8% ao mês.
Entretanto, investidores passaram a relatar dificuldades para retirar os recursos aplicados. Há reclamações de pessoas que afirmam não conseguir recuperar o dinheiro, mesmo diante das condições de liquidez apresentadas pela companhia.
Levantamento publicado pelo Metrópoles identificou 108 ações judiciais contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro de 2026.
Em alguns processos, investidores levantam suspeitas de funcionamento de pirâmide financeira. Essas alegações, porém, ainda precisam ser apuradas pelas autoridades e não representam, por si só, uma condenação judicial.
CVM já havia determinado suspensão de ofertas
Os problemas envolvendo a OnilX também chegaram à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Em janeiro de 2026, a autarquia determinou a suspensão de ofertas públicas de serviços de intermediação de valores mobiliários realizadas pelo grupo, por entender que determinadas atividades estavam sendo oferecidas sem a autorização necessária.
Em abril, o colegiado da CVM manteve a determinação, esclarecendo que a restrição não abrangia operações de simples intermediação de criptoativos, como Bitcoin, Ethereum e USDT, quando não houvesse promessa de rendimento ou contrato de investimento.
A medida regulatória reforça a necessidade de distinguir o mercado de criptoativos das atividades que, pelas características dos produtos oferecidos, estão sujeitas à fiscalização do mercado de valores mobiliários.
Empresa nega irregularidades e apresenta sua versão
Em manifestação divulgada ao Metrópoles, a OnilX afirmou que Paulo Guedes atuou exclusivamente como consultor, prestando serviços relacionados à macroeconomia, geopolítica e conjuntura econômica nacional e internacional.
A empresa também declarou que o ex-ministro prestou esclarecimentos à Polícia Federal na condição de testemunha, e não de investigado.
A companhia sustenta que suas atividades são legais, afirma colaborar com as autoridades e diz continuar cumprindo seus compromissos de pagamento aos clientes.
A versão apresentada pela empresa não encerra os questionamentos sobre a transferência de R$ 563,1 mil, a utilização da imagem do ex-ministro na divulgação comercial e as reclamações de investidores.
Transparência e responsabilidade precisam ser esclarecidas
O episódio merece atenção porque envolve uma empresa com centenas de milhões de reais em interesses financeiros? Não há, nas informações consultadas, base suficiente para afirmar esse montante. O que está documentado é uma transferência de R$ 563,1 mil, uma série de ações judiciais e uma investigação policial sobre possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
A questão central é esclarecer a natureza dos serviços prestados, a relação comercial entre as empresas e se a atuação de uma autoridade econômica de alto escalão foi utilizada para atrair investidores para operações que posteriormente passaram a ser questionadas.
Não se trata de antecipar culpa ou transformar investigação em condenação. Trata-se de exigir esclarecimentos sobre relações financeiras que envolvem figuras públicas, empresas sob suspeita e cidadãos que afirmam ter perdido o acesso às próprias economias.
Quando o prestígio de um ex-ministro aparece associado à divulgação de investimentos, a transparência sobre sua atuação deixa de ser apenas uma questão privada. Torna-se também um tema de interesse público.
A investigação precisa esclarecer os fatos, identificar eventuais responsabilidades e garantir que os investidores tenham seus direitos respeitados.









