A luta de Juliany Brito por um sonho que Vitória da Conquista não pode abandonar

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 19/06/2026, 10:09h

Enquanto muitos atletas brasileiros desistem diante da falta de apoio, a conquistense Juliany Brito escolheu continuar lutando. E não apenas dentro do ringue.

A jovem atleta de Muay Thai, criada em Vitória da Conquista, acaba de ser convocada para representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos da modalidade, no México. A notícia deveria ser motivo de orgulho coletivo, mobilização e celebração. Mas, mais uma vez, a caminhada até a competição internacional será marcada por um adversário conhecido: a falta de incentivo.

Juliany já provou inúmeras vezes o seu valor. Foi terceira colocada em um Campeonato Mundial, conquistou título brasileiro, atua em um projeto social que transforma vidas através do esporte e tornou-se referência para crianças e adolescentes que enxergam nela a prova de que é possível sonhar alto mesmo saindo da periferia.

Agora, vestindo novamente as cores do Brasil, ela se prepara para mais um desafio internacional.

Mas o que deveria ser apenas uma preparação esportiva tornou-se uma corrida contra o tempo para arrecadar recursos.

A atleta havia garantido vaga para disputar o Mundial, inicialmente previsto para acontecer na Tailândia. No entanto, mudanças na organização transferiram o evento para Berlim, na Alemanha, elevando drasticamente os custos da viagem.

Diante da realidade financeira, veio a decisão difícil: abrir mão do sonho mundial naquele momento e concentrar esforços na disputa do Pan-Americano.

"A convocação para o Pan-Americano foi uma surpresa muito boa. Agora temos mais tempo para nos preparar e buscar apoio para chegar lá da melhor forma possível", afirmou Juliany.

Muito além das medalhas

A história de Juliany vai além dos resultados.

Ela nasceu esportivamente dentro de um projeto social localizado no bairro Covema e hoje se tornou inspiração para dezenas de crianças que frequentam o mesmo espaço.

Ao falar sobre esse papel, a atleta emocionou ao destacar a responsabilidade de servir de exemplo.

"Quando comecei, minhas referências eram atletas que eu via na televisão. Hoje, poder ser referência para as crianças do projeto e para as pessoas do bairro é algo que me traz muita felicidade. Não é só ganhar medalhas; é mostrar que é possível ser uma pessoa boa dentro e fora do esporte."

Ao seu lado está o treinador Fagner Sagate, convocado junto com a atleta para integrar a delegação brasileira.

Para ele, o esporte salva vidas muito antes de formar campeões.

"Muita gente procura a luta como saída para ansiedade, depressão e problemas pessoais. O esporte ensina disciplina, respeito e transforma a forma como as pessoas enxergam a vida."

Uma cidade que produz campeões, mas ainda falha em reconhecê-los

Vitória da Conquista tem tradição esportiva.

A cidade já revelou nomes importantes no judô, natação, futsal, vôlei, basquete e diversas modalidades individuais. Ainda assim, atletas de alto rendimento seguem dependendo de rifas, campanhas e da solidariedade da comunidade para competir em nível internacional.

Juliany não esconde a frustração.

"Falta incentivo, principalmente do poder público. Não só para quem já está em nível internacional, mas para quem está começando. O apoio no início faz diferença para que mais pessoas persistam."

A crítica não é um ataque. É um pedido de socorro.

Porque cada medalha conquistada por atletas como Juliany representa muito mais do que vitória pessoal. Representa autoestima para uma cidade inteira, esperança para jovens e uma alternativa concreta diante da violência, do sedentarismo e da falta de oportunidades.

O Brasil será representado. Mas quem vai representar Juliany?

É comum que, depois de uma medalha, autoridades corram para a foto oficial.

Difícil é encontrar quem esteja presente antes da viagem, quando faltam recursos para inscrições, passagens, hospedagem e alimentação.

Juliany já fez a parte mais difícil: treinou, venceu, persistiu e conquistou a convocação para defender o país.

Agora, a pergunta que fica é inevitável:

Será que Vitória da Conquista permitirá que uma de suas maiores atletas lute sozinha?

Do Covema para o mundo, Juliany Brito já mostrou que tem talento, disciplina e coragem suficientes para enfrentar qualquer adversária.

O que ela precisa agora é que a cidade, empresários, apoiadores e gestores públicos entrem no mesmo corner.

Porque campeões não nascem do acaso.

Eles são construídos pelo esforço individual, mas também pelo compromisso coletivo de acreditar em quem leva o nome da nossa terra cada vez mais longe.

E Juliany Brito já provou que merece esse apoio.

Que o próximo golpe decisivo não venha do abandono, mas da união de uma cidade inteira em defesa de uma atleta que nunca deixou de lutar.

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