Proposta de delação à PGR cita investimentos de ACM Neto em fundo ligado a ativos do Banco Master

João Carlos Mansur, ex-dono da Reag Investimentos, apresentou 17 anexos à Procuradoria-Geral da República; acordo ainda não foi assinado nem homologado pelo STF

Foto: Reprodução/CNN
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 26/08/2026, 04:16h

O ex-presidente do Conselho de Administração da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de acordo de colaboração premiada com informações sobre suspeitas de crimes financeiros envolvendo o Banco Master. Entre os nomes mencionados nos anexos está o candidato ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil), que mantinha investimentos por meio de um fundo administrado pela Reag.

A existência da proposta foi revelada nesta quarta-feira (26) pela jornalista Natália Portinari, do UOL. O documento possui 17 anexos e tem como principal foco Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo a reportagem, Mansur também se comprometeu a pagar cerca de R$ 40 milhões em multas.

A proposta, entretanto, ainda não constitui uma delação premiada homologada. O acordo está em fase de ajustes finais e ainda não foi formalmente assinado. Caso seja firmado, deverá ser encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso, a quem caberá analisar uma eventual homologação.

De acordo com a apuração do UOL, Mansur afirma que a Reag prestava serviços ao Banco Master desde 2019, quando Vorcaro assumiu o controle da instituição. O empresário sustenta que fundos administrados pela empresa teriam sido utilizados para desviar recursos do banco, inclusive por meio de supostos laranjas e estruturas financeiras no exterior. As afirmações integram a proposta de colaboração e ainda dependem das etapas de validação e investigação pelas autoridades.

Um dos políticos mencionados no material é ACM Neto. Segundo a reportagem, o ex-prefeito de Salvador é o único cotista do fundo Seattle 95, administrado pela Reag até 2025. Por meio desse fundo, houve aplicação no Structure, fundo relacionado a empréstimos consignados originados pelo Banco Master.

Conforme os dados divulgados, Neto realizou dez aportes que somaram R$ 7,92 milhões no Seattle 95. Em outubro de 2025, o patrimônio do fundo havia alcançado aproximadamente R$ 11,94 milhões. A reportagem do UOL aponta ainda que cerca de R$ 4,8 milhões foram aplicados, por meio do Seattle 95, no fundo Structure.

A menção de ACM Neto na proposta de colaboração não significa, por si só, que ele seja acusado de participar dos crimes financeiros atribuídos aos investigados. A relação descrita até o momento envolve os investimentos realizados pelo fundo do qual ele é cotista e que era administrado pela Reag.

Ao UOL, ACM Neto afirmou que o Seattle 95 foi criado no final de 2021 com recursos próprios, declarados e de origem lícita. Segundo Neto, a contratação da Reag ocorreu para atender às regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e seu fundo era cliente da administradora.

O candidato também afirmou que a rentabilidade registrada foi compatível com o mercado, que os impostos foram recolhidos e que as operações ocorreram dentro da legalidade e sob regulação da CVM.

João Carlos Mansur foi alvo da Operação Carbono Oculto, investigação na qual a Reag apareceu sob suspeita de utilização de fundos para lavagem de dinheiro relacionado ao crime organizado. Posteriormente, Mansur também passou a ser investigado na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master e está sob relatoria de André Mendonça no STF.

Segundo o Poder360, o Banco Central identificou operações consideradas irregulares entre fundos da Reag Trust e o Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024.

Mansur chegou a tentar uma colaboração conjunta com Daniel Vorcaro. As informações apresentadas por Vorcaro, porém, foram consideradas insuficientes pela Polícia Federal e pela PGR. Agora, Mansur negocia individualmente sua proposta com a Procuradoria.

Além das informações relacionadas a ACM Neto, os 17 anexos apresentados por Mansur tratam de diferentes operações e personagens relacionados às investigações. Segundo o UOL, Mansur afirma ter identificado pessoas que teriam atuado como laranjas em fundos relacionados a Vorcaro. Um dos casos apresentados envolve um fundo registrado nas Ilhas Cayman que recebeu R$ 494 milhões do Banco Master. A titularidade efetiva desses recursos é uma das questões levantadas pelo empresário na proposta.

Outro político mencionado é o senador Jaques Wagner (PT-BA). Nesse caso, o relato envolve a compra, em 2023, de ingressos para um show de Taylor Swift avaliados em R$ 63,3 mil. Wagner declarou ao UOL que se tratou de um pedido pessoal feito a um amigo para conseguir os ingressos e afirmou não conhecer Mansur nem possuir relação com a Reag.

A proposta de colaboração ainda precisa passar pelas etapas formais antes de produzir os efeitos jurídicos de um acordo de delação premiada. Caso seja assinada pela PGR, caberá ao ministro André Mendonça analisar sua eventual homologação no Supremo.

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