A violência racial enquanto manifestação da contínua estrutura colonial
Fonte: Instagram @muitoalemdaterapia
O carnaval é época de folia e alegria. É um dos momentos mais aguardados do ano pelo povo brasileiro porque é quando a celebração sem motivo específico é permitida. É importante porque nos lembra de que a festa faz parte da vida cotidiana, mesmo que na maioria das vezes, engolida pelo cansaço do trabalho e da labuta diária.
Apesar da euforia, carnaval também é sinônimo de convivência. Durante cinco ou seis dias de festa, convivemos com pessoas que talvez não conviveríamos no nosso dia a dia. É nesse momento que as rachaduras imbricadas da nossa sociedade transparecem. É claro, existem diversos outros momentos e acontecimentos que deixam claro nossas falhas culturais, mas vamos seguir dessa vez com a narrativa de que, no carnaval, as situações acontecem de maneiras facilitadas, dado o fato de que estamos convivendo com outros foliões, não somente nossos amigos e colegas.
Dito isso, é lamentável o quanto o racismo ainda permeia a nossa convivência em sociedade. Assim digo porque o psicanalista e mestrando em psicologia pela Universidade Federal da Bahia, Manoel Neto, relatou em um post no seu perfil do Instagram uma situação de racismo vivida no camarote Ondina, um dos principais do circuito Barra-Ondina em Salvador.
Após sua saída do banheiro do local, Neto se esgueirava entre os pagantes do camarote e pedia licença no processo, até que, dado momento, um homem branco impossibilitou a passagem do psicanalista. Após pedir uma vez para que a passagem lhe fosse concedida, o rapaz recusa ceder, olhando nos olhos do homem preto e insistindo em negar seu acesso pelo espaço. Neto relata que, após uma terceira tentativa, o tom do seu pedido se tornou agressivo. E foi assim que o homem branco lhe concedeu a passagem.
Ainda no relato feito pela rede social, Neto explica que é comum a visão do homem preto agressivo. É um estereótipo que foi colocado sobre essas pessoas e as acompanham pelo resto da vida, modificando as formas como as estruturas sociais vão se estabelecendo e construindo. O psicanalista mostra descontentamento com essa forma de enxergar os homens pretos a partir desse viés que foi socializado.
É comum que atitudes como a do homem branco nessa situação podem ser vistas como brandas ou sem grande importância. É mais fácil uma situação de morte ou agressão ganhar mais comoção do que a atitude de negar a passagem de um homem preto. Fato é que as relações de poder, na verdade, se desenvolvem dessa maneira. É a partir da repetição sucessiva dessas ações que acontecem os desfechos trágicos.
O que também é fato é que, diante de uma vida de microagressões e recipiente de “sutis” ações de preconceito, o desfecho trágico pode ocorrer sem que exista um único indivíduo culpado, assassino ou agressor. Foi noticiado que, alguns dias depois da publicação sobre a imposição da discriminação sofrida, Manoel Neto havia cometido suicídio.
É notório que não é possível pontuar o racismo ocorrido no camarote Ondina como ação catalisadora do falecimento de Neto. Essa tragédia é evidência de que as sucessivas relações de poder subjetivamente impostas na sociedade existem e violentam corpos marginalizados. O homem branco, em seu conceito colonial e a partir de um pacto de branquitude, ainda enxerga no homem preto como uma coisa que lhe deve submissão, e na mais branda das hipóteses, não deve conviver nos mesmos espaços que os deles. Eu coloco o substantivo “coisa” aqui como categoria que desumaniza esses corpos pretos, afinal, é sob uma condição desumana que essas pessoas são postas em constantes provas de reafirmação de suas humanidades.
Para fins de contexto, branquitude refere-se ao pacto não verbalizado entre as pessoas brancas que tem como objetivo manter às estruturas sociais, hierarquizadas e privilegiando certos indivíduos em detrimento de outros. Segundo a doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano, Cida Bento, essa ação pactual “possui um componente narcísico de autopreservação, como se o ‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’ [...] Esse sentimento de ameaça e medo está na essência do preconceito, da representação que é feita do outro e da forma como reagimos a ele”.
Em um dos capítulos do livro Ensinando a Transgredir - A Educação como Prática da Liberdade, Bell Hooks vai apontar a existência do conceito de essencialismo, caracterizando a maneira como as pessoas pontuam suas experiências formativas de vida e como elas enxergam o mundo e suas relações a partir delas. É um livro que aborda o processo educacional e como a prática pode ser realizada a partir de diferentes métodos e perspectivas.
Para a reflexão aqui proposta, é interessante analisar a crítica que Hooks faz. A autora afirma que a prática do essencialismo como ponto de partida para discussões acerca de experiências é válida para as classes dominantes (homem, branco, cisgênero, heterossexual). É uma maneira de comunicação ordinária entre as pessoas brancas exprimir suas opiniões a partir das suas experiências. Em se tratando de pessoas que não se encaixam nos moldes da branquitude (aqui coloco branquitude enquanto papel simbólico de dominação colonial e social), a prática do essencialismo é vista como agressivamente transgressora.
Bell Hooks foi uma escritora, professora e artista que revolucionou o modo de pensar as categorias socializadas de raça e gênero integradas às maneiras que as práticas da educação se desenvolvem e como esses recortes afetam seus processos. Portanto, é possível fazer o paralelo entre o argumento da pensadora e o caso de racismo relatado. Enquanto o homem branco, calado e propositalmente fechando a passagem de um homem preto, escancarou sua visão de mundo, moldada a partir de recortes sociais baseados em quem age como senhorio e quem age como serventia, Manoel Neto se vê forçado a se caracterizar, naquele momento, de um estereótipo de homem preto. É violento porque põe em prática as visões racistas suscitadas pela branquitude.
Manoel Neto relata no seu último post a forma como ele enxergava as pessoas e as relações. Eu não conhecia o psicanalista pessoalmente, mas os relatos me dizem que o homem era o oposto daquilo que lhe forçaram a ser em um último momento de gatilho. Na mesma rede social, uma das analisandas de Neto, Késia Rodrigues, lamenta a morte precoce do analista: “A violência racial nos adoece e retira o que temos de melhor [...] Nós ganhamos muito com a vida [de Neto], genialidade e potência”.
Eu acredito que é assim que devemos combater o racismo. Lendo, divulgando, escutando, assistindo e celebrando vozes pretas. E acima de tudo, humanizando-as. É papel da pessoa branca praticar o ato de autoeducação sobre as pautas sociais que permeiam nossas relações há décadas que ainda suscita violências, microagressões e ações de preconceito “sutis”. Enquanto homem branco, eu tenho consciência que o meu papel político como agente social é viver ciente da convivência com as demais pessoas agentes sociais, e que a convivência implica em diversidade. Portanto, eu respeito meus companheiros agentes, assim como os leio, divulgo, escuto, assisto e os celebro.









