A ociosidade no mundo trabalhista
Fonte: Getty Images
Existe uma ideia nesse sistema capitalista hiperativo em que a gente vive que gira em torno da produtividade. Se estamos produzindo, trabalhando, estudando, levantando da cama, escovando os dentes, comendo saudável… Parece que tudo faz parte de um grande esquema de pontos. Cada vez que cumprimos alguma tarefa ou um afazer importante, é dignificante; o ato de cumprir atividades e responsabilidades torna-nos pessoas produtivas.
É a partir dessa ideia que outros sentimentos são possíveis de serem desencadeados, dentre eles o prazer e a culpa. Se eu consigo cumprir, em um dia, exatamente o que um adulto funcional deve cumprir, eu me sinto capaz e disposto. É como se algo me dissesse “muito bem! Você cumpriu com o que você deveria cumprir”. Porém, se eu não me sinto disposto ou exatamente produtivo durante alguns dias, talvez sobrecarregado com outras responsabilidades, emoções e metas pessoais, a fala se transforma em “você deveria se esforçar mais! Para ganhar dinheiro precisa trabalhar”.
É fato que o sistema trabalhista funciona e opera a partir do desgaste do trabalhador. Segundo matéria publicada pela Forbes em 2025, os índices de licenças e pedidos de afastamento no trabalho chegaram a um novo recorde de ocorrências. Isso acontece porque é exigido das pessoas trabalhadoras a realização do cumprimento de metas e entrega de resultados, sempre valorizando a quantidade ao invés da qualidade. Não importa se o tempo do processo é curto demais, ou que as condições que rodeiam o indivíduo são desfavoráveis, se a entrega tem prazo e tem-se expectativa sobre o resultado, assim o trabalho deve ser entregue ou deve atingir aquilo que se espera.
Aliado a esse fato, os indivíduos que trabalham ainda lidam com questões externas ao ambiente e/ou condições que são externas ao trabalho que influenciam à sua produtividade e vontade de produzir: transportes públicos, alimentação, salário, vida pessoal e saúde. Esses são aspectos fundamentais na manutenção do dia a dia de qualquer pessoa. Um indivíduo trabalhador precisa ter todas essas frentes planejadas e asseguradas para que o seu trabalho possa acontecer da melhor maneira possível. E não é isso que ocorre na realidade brasileira.
O que acontece, de fato, é que o transporte público nas principais cidades do Brasil é ruim, superlotado e superfaturado; se o indivíduo trabalhador não é assegurado da sua alimentação pela empresa, ele deve planejar-se semanalmente para levar sua comida de casa, deixando preparada alguns dias antes e em quantidade o suficiente para durar por cinco ou seis dias; os salários não compensam, é praticamente impossível viver com R$4000 por mês quando se tem aluguel e despesas de água, luz, internet, além de utensílios pessoais para se gastar; além das preocupações que envolvem família e saúde, que apesar de serem importantes para o senso de pertencimento e amor de um indivíduo, tornam-se prioridades em segundo plano quando se é preciso priorizar o que deve ser feito para mais uma semana de jornada de trabalho.
Todas essas condições são necessárias para que o trabalho possa ser feito e, na maioria dos casos, as empresas não oferecem suporte. Caso ofereçam, o vale-transporte e o vale-refeição são contemplados em conjunto com o salário, assim, diminuindo o valor total no final do mês.
Outro ponto que é importante de mencionar é a dificuldade que jovens trabalhadores encontram ao tentar inserir-se no mercado de trabalho. Os estágios pagam um valor abaixo de R$1000 e, apesar de diminuir a carga horária em comparação a um cargo CLT, ainda assim se trata de um cargo profissional, por vezes subvalorizado. Tanto é que, no momento de concorrer a cargos profissionais após a graduação, as experiências de estágios muitas vezes não são consideradas nos processos seletivos, sendo vistos como menos importantes na trajetória formativa da pessoa profissional candidata.
Enfim, o que acontece é que o sistema capitalista trabalhista opera de maneira a explorar as pessoas trabalhadoras. Não existe escapatória que não seja buscar uma oportunidade de emprego, passar de cinco a seis dias em função da empresa e, quando existe o momento de ociosidade, sentir uma culpa inescapável por não estar planejando a refeição da semana ou limpando a casa durante o final de semana porque simplesmente não existe tempo durante os dias de trabalho para realizar as atividades domésticas.
E se a culpa não se instaura no momento de lazer ou descanso, ela se instaura como sintoma de ansiedade. É um pensamento corriqueiro de que é preciso se esforçar mais para subir de cargo, ler mais para entender melhor o mercado, estudar mais para ganhar mais um título acadêmico, incrementar o currículo com mais um curso que, no final do dia, não importa muito para o patrão, se não diz respeito a entrega do trabalho. E na data certa. Da maneira como se é esperado.
O sistema capitalista, infelizmente, adoece a subjetividade da classe trabalhadora. Incentiva a constante produção e é programado para evitar os momentos de maior introspecção, que também fazem parte da condição humana.
A cantora Adele lançou uma canção em 2021 que se chama I Drink Wine, em tradução para o português o título é “Eu bebo vinho”. A canção inicia com os seguintes versos (traduzidos para o português): “Como pode uma pessoa ficar à mercê das escolhas que outra pessoa faz? / Como nós dois nos tornamos uma versão de alguém que a gente nem gosta? / Estamos apaixonados pelo mundo, mas o mundo só nos carrega para baixo / Colocando ideias nas nossas cabeças que corrompem nossos corações de alguma forma”.
Adele explora nesses versos as condições de ser humano presos em atividades e ideias que não os dizem respeito, mas que de alguma forma é preciso manter-se restringidos por elas e para elas. Como dito anteriormente, não existe escapatória quando o processo de viver é estipulado e regrado para a classe trabalhadora: ou trabalha e se submete a condições desfavoráveis e desagradáveis ou morre de fome.
Eu ainda acho que a ociosidade cabe em tempos capitalistas. Um segundo a menos é um produto a mais que não é entregue/vendido, porém eu também acredito que é a partir da ociosidade que eu consigo ser plenamente criativo e compreendo o que é importante para mim e busco motivação sobre o porquê eu devo continuar trabalhando.
Pessoalmente, busco trabalhar porque eu entendo meu papel social enquanto agente social e porque, é claro, eu vejo meu valor como produtor e disseminador de conhecimento e cultura. Tenho que pagar minhas contas no final do mês também. Acaba que entre um e o outro, meu trabalho só alimenta uma rede de outros trabalhos que objetiva a exaustão da produtividade. Continuo acreditando que apesar de tudo, meu trabalho faz a diferença. Só assim eu consigo levantar da cama pela manhã e ter forças para continuar produzindo.
“Eles dizem que você deve se jogar, trabalhar duro e buscar o equilíbrio entre o sacrifício / Ainda não conheço alguém que esteja verdadeiramente satisfeito / Acredite que eu estou tentando / Continuar escalando / Mas por mais que eu continue escalando eu sinto que nenhum de nós se torna mais sábio”, continua a canção da cantora britânica nos versos posteriores. Acho que esse trecho sintetiza bem a ideia que eu trago para a coluna dessa semana.






