Quando a crítica é bem fundamentada

As falhas dos comentários críticos sobre o novo disco de Marina Lima

Fonte: Capa do Álbum Ópera Grunkie / Marina Lima

 

Na terça-feira, dia 24 de março deste ano, Marina Lima lançou o seu 18º álbum de estúdio, o Ópera Grunkie. A partir disso, diversos veículos de comunicação publicaram análises e resenhas do disco, dentre eles, a Folha de São Paulo. A crítica escrita por João Perassolo é basicamente uma aula de como não ser crítico e nesta minha coluna destaco os motivos para essa minha afirmação.

Para ser justo, não coloco o peso desta análise nas costas de ninguém, nem mesmo do próprio autor do texto, pois acredito que a intenção do trabalho seja, de fato, opinar e tecer comentários críticos sobre o objeto de análise em questão. Porém, mesmo se tratando de uma crítica negativa, é importante saber se posicionar de forma respeitosa sobre o trabalho de outro indivíduo, coisa que não acontece no caso em questão. É importante destacar também que a Folha publicou o texto de outro autor, o Marcus Preto, que contrapõe o seu colega de trabalho e descreve a ideia de uma Marina que não ficou presa a replicar os sucessos dos anos 80, mas sim que busca criar um trabalho que reflete sobre os tempos atuais a partir de experimentações de novos sons.

É importante deixar claro também que não é proposta desta coluna em específico analisar o disco Ópera Grunkie, mas sim refletir sobre a forma como as críticas podem ser escritas. Eu escutei o disco em questão e admito que concordo com boa parte das pontuações de Perassolo, porém, acredito que uma boa análise crítica deve possuir fundamentação e respeito com o trabalho de quem se propõe analisar. O texto discutido poderia ser mais refinado se fosse melhor argumentado e não tão adjetivado quanto está apresentado.

Eu acredito que o trabalho de um bom crítico é saber como dizer, nem tanto sobre o que vai dizer. Tá permitido gostar e dizer as razões por que gostou, assim como tá permitido não gostar e argumentar por que não gostou. O que não é bacana, principalmente como em veículos que possuem grande circulação como a Folha de São Paulo, é descaracterizar o trabalho a partir de uma análise que não conceitua nem explica os supostos problemas.

“Ninguém vai em busca de um hit certeiro ou uma melodia inesquecível num disco de Marina Lima [...]”, começa a coluna opinativa de Perassolo. O autor continua com frases como: “O álbum soa como uma sequência de bases eletrônicas sem sal com vocais desencaixados por cima - preguiçoso, mesmo.” ou ainda “[...] Marina Lima recrutou a cantora e performer Laura Diaz para cantar em ‘Collab Grunkie’. Trata-se de uma experimentação eletrônica mal resolvida de pouco mais de dois minutos [...]”.

Na rede social X (antigo Twitter) a cantora chegou a se manifestar, descontente sobre a crítica veiculada pela Folha. “Estou chocada com a crítica da Folha de SP sobre o meu disco. O cara achou tudo péssimo, não comentou de nenhuma música [...] que o disco era pior que eu já fiz. Realmente desanima ler coisas assim. Não entendeu nada”. Para falar a verdade, o autor elogia sim duas músicas do disco, as faixas Só Que Não e Um Dia Na Vida. Porém, Perassolo ressalta que não só de duas músicas se fazem um disco.

Então, sobre a crítica ao Ópera Grunkie feita pelo colunista, não é bem fundamentada. O papel da crítica de arte é, de fato, pontuar o que não funciona na obra e discutir a técnica e ideias postas no trabalho. O autor faz isso sem se aprofundar sobre o porquê das opiniões apontadas, além de esquecer de um elemento essencial ao avaliar qualquer trabalho, independente da linguagem ou da autoria: o respeito.

Afirmar que o trabalho de voz e edição do álbum é “preguiçoso” é faltar com o respeito com os profissionais envolvidos na concepção do projeto; mesmo que seja essa a impressão do crítico, é preciso ter em mente que processos artísticos são desenvolvidos a partir de ideias, conceitos que tomam forma sobre alguns requisitos técnicos, e que, apesar disso, a ideia da artista pode não necessariamente agradar o gosto de quem escuta. Isso não torna a execução “preguiçosa”.

É claro, é exatamente esse o papel da crítica, pontuar os aspectos positivos e negativos, o que para ele/ela funcionou e o que não funcionou. Porém, existe uma diferença grande em afirmar que o trabalho não está como você gostaria que estivesse apresentado e afirmar que a execução é “preguiçosa”.

Sobre a “experimentação eletrônica mal resolvida” em Collab Grunkie, eu fiquei me perguntando se o autor conhece o significado da palavra “experimentação”. A ideia da música é criar sons eletrônicos de uma maneira que a Marina nunca havia feito antes, é experimentar novas maneiras de criar música. De novo, pode não ter sido do agrado do colunista, ainda assim, é preciso entender a ideia por trás de uma escolha criativa antes de dizer que se trata de uma execução “mal resolvida”. O autor menciona no texto que “nenhum dos elementos desta música conversa entre si”, sem dizer exatamente porque a opinião dele é essa.

Por fim, acredito que o comentário “Ninguém vai em busca de um hit certeiro ou uma melodia incrível em um álbum da Marina Lima [...]” seja realmente maldoso. Os sucessos do álbum Fullgás (1984) e do autointitulado (1991) são provas de que a cantora é querida e possui público disposto a escutar as canções e interpretações feitas por ela.

Lima é um grande nome da MPB e do rock brasileiro, e mesmo que não esteja no auge de audiência da sua carreira, afirmações de que ninguém procura as músicas da artista pela sua competência técnica mostram apenas que a intenção do colunista foi chocar o leitor. Marina Lima ainda é um nome grande e reconhecido dentro do panteão de cantores da indústria. Irrefutavelmente. 

A turnê Marina Lima 70, que ocorre para promover o mais recente disco, bem como forma de celebração da carreira da artista, já possui datas no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, com a promessa de mais datas a serem anunciadas.

O post do diretor Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto, Bacurau) comentando o caso chegou a viralizar na rede social X. Na ocasião ele disse: “Marina querida, você é Marina Lima, sua voz faz parte da vida do Brasil. Sua voz faz parte das nossas vidas, há 40 anos. [...] Eu não li o texto, nem sei quem escreveu. Pode ter sido um AI Model, quem sabe? Na melhor das hipóteses, é só uma opinião”.

Bom, é compreensível o incômodo da cantora ao ler comentários desatenciosos e inconsequentes sobre o seu trabalho, ainda mais se estes estão sendo ditos em um dos maiores meios de comunicação do Brasil, como é o caso da Folha de São Paulo. É de se abalar, com certeza. Porém, quando a opinião é tão infundada quanto a crítica em questão, o conselho de Mendonça Filho vale. É só uma opinião. E é claro que opinião tem peso, mas afinal, para quê levar em consideração a opinião de uma pessoa que não entendeu nada, muito menos coloca seus argumentos de forma fundamentada e respeitosa?


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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