A promessa de um crime sociopolítico feito por Donald Trump
Fonte: Roberto Schmidt / Getty Images
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump utilizou a sua própria rede social, a Truth Social, nesta última terça-feira (07/04/2026) para fazer a seguinte declaração: “Uma civilização inteira vai morrer esta noite, para nunca mais ser reerguida. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai. Contudo, agora que temos uma completa mudança de regime, onde pessoas diferentes, mais inteligentes e mentes menos radicalizadas prevalecem [referindo-se a sua própria gestão], talvez algo revolucionariamente incrível possa acontecer, QUEM SABE? Nós vamos descobrir esta noite, um dos momentos mais importantes na longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente acabará. Deus abençoe a grandiosa população do Irã”.
Na ocasião, Trump ameaçou bombardear o Irã.. Como sabemos hoje, a prometida tragédia não aconteceu. A situação serviu para deixar escancarado, se até então não estava claro, que o governante representante dos EUA pode dizer absolutamente qualquer coisa e sair impune mesmo assim. É permitido Donald Trump prometer genocídio contra uma população inteira e, no mesmo dia, dormir com a cabeça no travesseiro na Casa Branca em Washington, capital do país.
O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas localizadas ao sul do Irã. A via é considerada uma das mais importantes do mundo porque é passagem de transporte de petróleo oriundo do Oriente Médio para diversas localidades mundiais. Até então, a passagem estava fechada, sendo ameaçada pelas forças marinhas iranianas. O fechamento da passagem foi uma resposta aos constantes ataques na região por parte dos EUA e de israel.
Ou seja, além de cometer atentados contra vidas palestinas, o presidente dos EUA utiliza sua voz como representante maior de um Estado para prometer genocídio contra um país inteiro. Não se trata de estratégia de negociação, não se trata de políticas e acordos internacionais, trata-se de um genocida que sai impune cometendo crimes de natureza sociopolítica.
Segundo Elai Silva, professora de direito internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: “É a imagem da barbárie. Quando a ameaça é mais do que um uso da força pontual para coação, mas de extermínio de um povo, já estamos falando de crimes tão graves que podem envolver a responsabilidade pessoal dos governantes”. A ideia de que as atitudes de Trump são criminosas enquanto chefe de Estado da maior potência capitalista do mundo é corroborada também por outros analistas internacionais.
Segundo Fernanda Magnotta: “Ele, de certa maneira, está tentando ampliar o horizonte político do que é possível e, de certa maneira, daquilo que passa a ser considerado aceitável”, continua em outro trecho da declaração: “[...] Quando ele diz em eliminar uma civilização inteira, essa é a definição que o direito internacional dá para o crime de genocídio”.
A fala de Magnotta é interessante porque é exatamente o palco eleitoral que Trump monta desde os momentos iniciais de suas campanhas eleitorais; ele “amplia o horizonte político [...] do que passa a ser considerado aceitável”, de fato. E outro fato é que a parcela republicana de votantes não é indiferente às atitudes de violência que o presidente propõe, e sim acredita que são políticas de perseguição contra grupos “minoritários” que fará a “América soberana novamente”. Como se a hegemonia política do mundo já não estivesse nas mãos dos norte-americanos há quase um século…
Não que a situação do Estreito de Ormuz se relacione com as políticas estatais que ocorrem dentro do território estadunidense, mas o controle de imigração feito pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) batendo recordes de deportações no início desse ano são indícios mais do que suficientes para afirmar que existe um fator de preconceito racial ligado a maneira como os órgãos ligados à presidência agem.
Adolf Hitler também confirmava a crença de uma hegemonia alemã ao ser um líder fascista que permitia a completa dizimação de diversos povos de origem ou culturas não europeias. A história aqui se repete mais uma vez. Não é estratégia política ameaçar genocídio, assim como acontece com o povo palestino nas mãos de israel com o financiamento armamentista proporcionado pelos EUA. Só que, nesse caso, a ideia de extermínio populacional e epistemicídio não é somente uma ameaça. É uma realidade latente há mais de sete décadas.
Em últimas atualizações, os governantes do Irã e dos EUA concordaram em um comprometimento temporário. Apesar de não ter concretizado o extermínio populacional como declarou no dia 7 de abril, hoje (12/04/2026) Trump anunciou o bloqueio do Estreito pela marinha estadunidense, assim como prometeu interceptar todas as navegações que passarem pela passagem, afirmando que o pedágio que o Irã cobra é ilegal e que, portanto, quem paga taxa ilícita não tem direito de permanecer navegante.
O meu ponto com a coluna de hoje é simplesmente dizer que o que o Donald Trump representa para a política internacional hoje nada mais é do que ser representante de uma ascensão neofascista. Quando as ideias de um megalomaníaco ganham tais proporções que mesmo a ameaça de um genocídio é lida como estratégia política, eu vejo como o mundo de 2026 é um ambiente indiferente ao capitalismo. Eu não acredito que seja uma guerra vencida, acredito que é possível a existência de um mundo onde a classe trabalhadora não seja desumanamente explorada. Porém, quando situações como essa são vistas nas redes de comunicações e a Organização das Nações Unidas (ONU) não emite um estado de alerta mundial, é difícil acreditar que a luta por direitos equitários não seja uma guerra vencida.






