Vita lança seu primeiro disco solo, Vita’s House

A ex-integrante das Irmãs de Pau cria um manifesto sobre pertencimento com suas novas músicas

Fonte: Vita / Divulgação

 

Vita Pereira, do encerrado grupo Irmãs de Pau, lançou o seu primeiro disco solo na última segunda-feira (13/04). Intitulado Vita’s House, ou Casa da Vita, traduzido do inglês, o lançamento marca um novo recomeço na carreira da cantora após 6 anos dividindo os holofotes com a parceira Isma.

Vita’s House chega no mercado como um estudo sobre a música urbana brasileira e a putaria, segundo a própria artista. Em um post publicado no Instagram, ela diz: “Eu diria que também trabalho por uma Estética da Putaria. Algo que conhecemos como música do mundo, sim, do meu mundo, do nosso mundo. Músicas que saciam a fome da carne e nos torna o que somos: carne, osso e espírito em celebração. Sim, todos nós conhecemos essa antiga carne fresca, uma ‘espeçaria’ irredutível nomeada de Travesti”. E concluiu o final do post com o anúncio “[d]este manifesto sonoro [o disco], que transformou meu corpo em um lugar seguro na medida em que acolheu minha condição estrutural inacabada”.

Com uma mistura de house, funk, mandelão, tribal e eletrônico, Vita elabora com o disco um manifesto de reivindicação de ritmos musicais construídos e pavimentados pela comunidade LGBTQIAPN+. O house mesmo é um estilo fortemente associado às dances houses e cultura ballroom dos anos 80, caracterizado por coreografias, estilos de roupas, adereços e maquiagens específicas. 

Já o funk e o mandelão são vertentes da música urbana brasileira que por muito tempo esteve a beira da criminalização, ainda que exista preconceitos com o ritmo em 2026. A década iniciada em 2020 trouxe um frescor para os estilos a partir da ascensão de diversos artistas LGBTQIAPN+, trazendo suas visões e vivências de mundo para as composições. Até então, era um estilo de composição predominantemente heteronormativo que beirava a alusões de estupro e desrespeito às mulheres.

Na verdade, ainda hoje letras criminosas são sucesso nas paradas, como é o caso da música Relíquia do 2T, dos intérpretes DJ Gu, MC Vine7, MC Tuto, MC Joãozinho VT, MC Dkziin e MC Fr da Norte. Os funkeiros cantam na faixa em questão: “Quantas puta mercenária que eu já comi sem colete?”, “É que eu tô sem preocupação, querendo só lazer / Joga duas no Porschão, relíquia do 2T” e “Elas vêm toda montadinha, no prumo / Para a quadrilha moer”. É interessante abrir um parêntesis para pontuar a existência de músicas como essa porque, apesar de ser a música mais escutada atualmente no Spotify Brasil, não existe comoção quanto a sua circulação.

Enquanto isso, no ano passado, ainda performando enquanto dupla, Vita e Isma se depararam com um grande número de homens virando as costas para o palco enquanto a apresentação ainda acontecia, no festival Super Tenda, em São Paulo. Sim, as músicas das Irmãs de Pau, e mesmo as canções das carreiras solo das artistas, abordam sexo, drogas e estilo de vida de “ostentação”, mas não chegam a abordar quaisquer indivíduos de maneira predatória como visto nas letras do DJ Gu. O curioso é que apenas um grupo específico de cantores e cantoras de funk recebe tratamento discriminatório. 

Enfim, o Vitas’s House também é um trabalho abertamente influenciado por outros nomes da comunidade artística LGBTQIAPN+, que inclusive participam da produção do disco atuando como compositoras e intérpretes. Nomes como o da Linn da Quebrada e Candy Mel, da Banda Uó, são reverenciados por Vita como artistas que moldaram a cena musical da comunidade na última década. Elas participam das duas últimas faixas do disco, Ainda Há Vera Verão e Treme a Língua, respectivamente cantadas por Linn e Candy.

Na faixa com a com a cantora de Pajubá, disco da Linn da Quebrada de 2017, Vita canta: “Ame mais, peça mais, afeto nas escondidas não me satisfaz / Bateu portas e janelas, na minha casa você não entra mais”. Aqui o relato é de uma vivência inerentemente LGBT, a experiência de receber afeto escondido, somente possível de ser acessado quando não existe mais ninguém olhando. Porém Vita se recusa a ser recipiente desse tipo de amor, segundo a letra da música.

A última música, com a participação de Mel e também da escritora e psicóloga Castiel Vitorino, Vita honra sua ancestralidade e espiritualidade com linhas que dizem: “Quem tem cunt, entra na roda / Quem não tem se arrepia / Na casa de Exu, a Vita / Ama, ama, chora e grita”. Durante toda a escrita do disco, Vita utiliza a imagem de uma casa para representar seu próprio papel enquanto travesti no mundo, além de destacar sua função individual enquanto artista da cena e da escolha de quais pessoas decide chamar de família para ocupar esse lar metafórico.

House também, além de ser um estilo musical, é como as artistas da cena queer denominam suas famílias fora dos laços sanguíneos. Quem eles e elas decidem chamar de sisters and mothers (irmãs e mães) e quem são essas pessoas que as acolhem. As artistas de uma mesma família são integrantes de uma mesma house, portanto, e fazem parte de uma linhagem hereditária de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.

O trabalho da Vita é potente no cenário atual da música porque esclarece a autenticidade de ser uma pessoa gênero e de sexualidade dissidentes sem querer causar qualquer tipo de higienização e polimento sobre a vida de uma mulher travesti no mundo A ex-irmã de pau referencia sua ancestralidade, seja espiritual ou artística, lembrando que a revolução se faz apenas quando reconhecemos, celebramos e nos juntamos com o nosso povo.

Nos materiais promocionais do disco, a artista afirma: “É impossível construir uma casa sozinha - foram muitas mãos para que cada tijolo fizesse sentido”. “Não estou construindo nada - estou continuando uma história que agora tem a minha perspectiva”. São essas falas que reiteram a ideia de que Vita entende seu trabalho artístico como fruto da luta e visão estética de diversas outras artistas que vieram antes dela.

Vitas’s House explora o ato sexual a partir da visão de uma travesti. É apelativo e explícito, mas essa é a raiz do funk, estilo de música conhecido por abordar o sexo de maneira despretensiosa. O disco ainda é composto de músicas para tocar nas baladas e nas festas, mas acima disso, é um trabalho modelado por referências da cultura contemporânea da música brasileira e LGBTQIAPN+. É um disco sobre pertencimento, transcestralidade e autoamor.

Vita Pereira termina o disco assim: “Abro a porta, saio de casa / Olho para trás, não me perco jamais / Agora no mundo faço do meu corpo / A minha morada”. Em um mundo onde ser LGBT é o ponto desviante da norma, Vitas’s House é um manifesto que explicita a desimportância do mundo heteronormativo com as suas regras de convivência e músicas com letras criminosas. Os mundos dos dissidentes existem em seus próprios lugares composto por indivíduos que habitam em suas próprias moradas-corpo, e que entendem que, enquanto comunidade, não é preciso que o mundo lhes dê permissão para existir.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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