As manifestações do amor e suas complexidades

Fonte: Capa do Álbum You Seem Pretty Sad for a Girl so in Love / Olivia Rodrigo

 

Vou escrever a coluna dessa semana meio inspirado pelo dia dos namorados. Começo a escrevê-la exatamente no dia 12 de junho e me pego inspirado também no recém-lançado álbum da cantora norte-americana Olivia Rodrigo, conhecida por sempre compôr músicas de término bastante emocionais e sofridas.

No disco You Seem Pretty Sad for a Girl so in Love, Rodrigo, agora com 23 anos de idade, amadurece a ideia que concebia nos seus dois primeiros álbuns e agora entende que o amor não resolve todos os problemas de quem o sente, sejam eles causados por uma força externa ou interna. Acaba que a jovem cantora está certa. O amor não traz solução para os nossos anseios e nem remenda uma ferida que é originada por mil e uma possibilidades de origem, mas consegue ser um sentimento confortável de se sentir, sem sombra de dúvidas.

Essa época do ano no Brasil acaba por ser desesperadora para os solteiros, ou pelo menos para àqueles que não querem continuar solteiros, porque além do dia dos namorados, o período junino é igualmente propício para celebrar o amor. Quem nunca escutou os versos de Luiz Gonzaga: “Havia balões no ar / Xote, baião no salão / E no terreiro o seu olhar / Que incendiou o meu coração” em Olha para o Céu, ou a letra mais melancólica de Dominguinhos: “Que falta eu sinto de um bem / Que falta me faz um xodó / Mas como eu não tenho ninguém / Eu sigo a vida assim, tão só” em Eu Só Quero um Xodó.

As letras das músicas juninas também são capciosas para falar de amor, celebrando-o ou ansiando para que chegue logo. O frio de junho também não ajuda muito a causa dos solteiros. O climinha menos caloroso serve muito mais para ficar debaixo das cobertas com outro alguém do que sair para a rua e ficar até altas horas da noite levando vento frio na cara. Parece, então, que é um aglomerado de fatores que fazem com que essa época do ano seja especial para os casais.

Introduzindo assim a coluna, o álbum de Rodrigo realmente me inspirou a escrever a minha própria percepção de amor e eu decidi compartilhar com vocês aqui.

No refrão da música Begged, a cantora diz, aqui traduzida do inglês: “Então eu sou paciente, você está aprendendo, finjo que não está machucando / [...] / Então eu fico tranquila e concedo perdões, eu aceito o que você me oferece / Mas nada é exatamente o suficiente quando eu sei que para conseguir, eu tive que implorar”. Eu disse anteriormente que esse álbum percebe o amor de maneiras diferentes da qual Rodrigo está acostumada a retratar, mas nessa música, em específico, a jovem parece sentir o amor da mesma maneira que das outras vezes: sofrido.

Esse disco retrata o amor de maneira cronológica e começa narrando o momento do primeiro encontro com a pessoa amada até os momentos de incertezas e eventual término, o que a cantora chama durante trechos das músicas de “o desfiar”. O termo é uma analogia à uma bola de lã ou fios de um tecido que, quanto mais você o puxa, mais “desfiada” aquela peça fica ou menos quantidade de tecido sobra.

Existem algumas músicas genuinamente românticas no disco, como o primeiro lançamento dele, Drop Dead, mas eu acho que é exatamente nessas letras mais melancólicas que a compositora consegue destrinchar (ou “desfiar”) as complexidades do amor. Eu entendo que amor, assim como qualquer sentimento, têm suas complexidades e formas de manifestação, mas me parece, a partir do trecho do refrão de Begged, que a pessoa que inspirou a criação da canção não amava sua compositora de volta.

Eu particularmente sinto que amor é ato de devoção, por menor que seja e por mais insignificante que possa parecer. É querer fazer e estar pela pessoa amada apesar dos incômodos que a escolha de ficar com ela possam acarretar. Em suma, eu descreveria o amor assim. E acho perspicaz de Olivia Rodrigo perceber que nada é suficiente quando se é preciso implorar para receber.

Apesar da introdução relatando o dia dos namorados, seria óbvio dizer que amor se sente em diversas configurações de relações, não somente como amor romântico. E acredito que a retórica pessoal anteriormente defendida serve para quaisquer dessas relações.

A partir disso, sinto que muito se fala em amor e pouco se entrega amor. Por questões sociopolíticas, contextuais e pessoais, que não cabe a mim tentar destrinchá-las aqui, o sentimento é muito cobiçado e pouco entregue, de fato. E digo isso com o coração cheio de esperança e pouca melancolia, acho que o passado, presente e futuro sem amor não existe e não é possível de existir.

Não se cresce e nem se desenvolve sem amor, muito menos se sustenta. É importante pensar também que o autoamor é combustível para viver. Se tu acredita em si e continua sobrevivendo a cada dia sem sentir o amor dos outros, muito provavelmente é a sua autoconfiança e esperança por um futuro melhor que serve como manifestação do seu autoamor.

Na música The Cure, do mesmo disco anteriormente mencionado, a cantora diz: “Minha cabeça está cheia de veneno e o meu coração cheio de dúvidas / Tenho toxinas na minha corrente sanguínea, você tenta sugá-las com muita força / E tenho a sensação que se parece com remédios, e é ótimo para mim, com certeza / Mas não importa mais como o seu amor me faz sentir / Nunca vai ser a cura”.

Reitero, sinto que amar e ser amado é parte fundamental da vida. Na verdade, deve ser a melhor parte dela. Porém não dá pra viver esperando que cada pessoa que te diga “Eu te amo” realmente sinta amor por você, e mesmo que sinta, não é a devoção delas que vai satisfazer seus anseios e remendar suas feridas. Não se pode depositar essa confiança ou teorizar que o amor é a cura para todas as dúvidas.

Amo meus amores e acredito que amar é bom demais. Espero sentir cada vez mais devoção na minha vida, em suas múltiplas configurações e formas. Esperançar assim também é ato de autoamor e autodevoção. Sem esperança, eu jamais conseguiria encontrar o amor. 

Feliz dia dos namorados e feliz São João!


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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