Ações hacker a partir de obras de arte

A renegociação de ideias coloniais a partir de poéticas artísticas

Fonte: Registro da Performance “Bala Perdida” de Estevão da Fontoura. Disponível em: https://www.estevaodafontoura.com/bala-perdida

 

Queria saber hackear o (cis)tema. Existem várias configurações socialmente impostas que me prejudicam muito diretamente, e seja por conta de métricas meritocráticas, capitalistas ou coloniais, parece que tudo foi feito para me deixar exatamente no mesmo lugar; no lugar comum; no lugar de sempre.

Dia desses eu visitei o ateliê do artista Estevão da Fontoura e muitas das práticas artísticas do porto-alegrense são atos-manifestos que dialogam com as noções da sociedade e questionam suas perpetuidades. Por exemplo, a obra Bala Perdida (2016) é uma ação performática que consiste em uma intervenção urbana de entrega de balas comestíveis para os transeuntes da praça da Alfândega, em Porto Alegre. Em embalagens escrito “Bala perdida”, Fontoura questiona a intenção da polícia em ações nas periferias das cidades brasileiras que ceifam vidas negras a partir de “ocasionalidades” de “balas perdidas”, dessa vez não mais balas doces e mastigáveis, mas sim as do tipo letais.

Ao distribuir os doces no centro da capital gaúcha, o artista incita a ideia de que as “balas perdidas” letais na periferia não são um acaso e são praticamente teleguiadas para atingir determinados tipos de corpos (pretos e periféricos), assim como as balas que estava distribuindo, não ocasionalmente com a intenção de instigar o pensamento sobre racismo estrutural advindo de práticas coloniais que ainda permeiam a sociedade brasileira.

São ideias como a de Fontoura que podemos chamar de ações hacker. Em conversa com o artista, ele disse estar ciente de que a performance “Bala Perdida” pode não mudar a essencialidade do racismo estrutural, mas que é a partir da ação que ocorre a semeadura da ideia contracolonial.

São ideias postas em prática como essa que, de pouquinho em pouquinho, constróem sistemas e sementes de hackeamento de normas sociais implícitas, impostas e violentas.

Tenho me sentindo um pouco deslocado dessas normas. Na real, quando se cresce distante de ser um recorte fidedigno daquilo que esperaram que eu fosse, a partir de expectativas construídas antes mesmo d’eu nascer e a partir do momento que me denominaram “menino” no útero da minha mãe, não existia mesmo espaço para eu me sentir pertencente de um (cis)tema que objetiva moldar quem eu sou e o que eu devo fazer para que, a partir do meu trabalho (ou do meu fracasso), a engrenagem social continue a girar.

Acredito que esses sistemas de hackeamento, portanto, são fundamentais para construir narrativas contracoloniais e que corrompem noções de meritocracia, LGBTfobia, racismo e machismo.

A arte contemporânea nasce da ideia de “hackear” o sistema das artes compreendido até então, por exemplo. A ação “hacker” de transformar objetos do cotidiano, corpo, voz, cheiro e até silêncio como suporte de uma obra de arte vai completamente contra a ideia do fazer artístico que existia até a década de 70. É engraçado pensar que, vivendo em 2026, é possível encontrar obras de arte que criticam essas vigilâncias sociais que eu estava articulando anteriormente e são postas para vendas em galerias ou expostas em museus que não são acessíveis para populações marginalizadas.

Um trabalho que eu gosto de referenciar quando o tópico é a hipocrisia no mundo da arte é o Sweep It Under the Carpet (ou Varrendo para Debaixo do Tapete, de 2006) de Banksy, artista do Reino Unido que atua principalmente enquanto artista de rua e graffiteiro. O graffiti de 2006 é uma obra que aconteceu na fachada da galeria White Cube, em Londres, e mostra uma empregada doméstica “varrendo” a sujeira até um muro de tijolos.

O trabalho é uma crítica de como a sociedade ocidental tende a postergar ações que, a longo prazo, seriam benéficas para todas as classes sociais, tais como políticas públicas de distribuição equitária de renda, por exemplo. Porém, enquanto sociedade regida por um (cis)tema capitalista, existe a necessidade da exploração da classe trabalhadora como consequência do acúmulo excedente de capital por um percentual baixíssimo de indivíduos.

Ou seja, as pessoas trabalhadoras sofrem as consequências reais da falta de decisões de líderes ocidentais capitalistas. O que é engraçado neste trabalho é que, apesar da crítica social, Banksy se torna um artista pop e super conceituado no mundo das artes. Sinônimo de respeitabilidade no mercado significa, por consequência, mais comercialização, circulação e reprodução dos trabalhos artísticos e, portanto, geração de mais lucro destinados aos bolsos de galeristas e responsáveis pela marca “Banksy”.

Digo que eu queria fazer parte desse sistema de hackeamento, mas eu entendo também que escrever a partir da minha visão política e publicizar obras como “PRECISO DE EDITAL PARA SER ARTISTA?”, disponível na exposição Perfuro do Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA), é uma ação genuinamente hacker. Porém, mesmo que eu entenda o ponto de Fontoura e saiba muito intimamente de que sim, meu trabalho é só semente de um florescer tardio, ainda queria poder contemplar e gozar das consequências das minhas ações hackers e de outros artistas também.

Apesar dos recortes sociais que me colocam numa determinada posição de incapacidade, ainda acredito no poder da mudança através de atitudes que possam despertar novas ideias “hackers” por aí. E continuo acreditando no meu trabalho e no trabalho de outros artistas. 

Anseio por um mundo cada vez mais hackeado.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

Comentários


Instagram

Facebook