A Bola parou, a memória ficou
Antes da despedida, a sensação era a mesma em milhões de casas espalhadas pelo planeta: acabou cedo demais. A Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim, mas deixou aquele inevitável gosto de quero mais. Foram pouco mais de 30 dias de futebol praticamente diário, de histórias que extrapolaram as quatro linhas e de um espetáculo que, quando a bola rolou, fez valer a espera de quatro anos.
É verdade que o Mundial conviveu com questões políticas que, em determinados momentos, acabaram ofuscando parte da festa. Mas, se o assunto for apenas o futebol, poucas Copas entregaram tanto. Jogos de alto nível técnico, seleções estreantes encantando torcedores, craques confirmando expectativas, jovens surgindo para o mundo e partidas que certamente entrarão para a história.
Para quem gosta de futebol, foi uma verdadeira maratona. Aqui em casa, foram mais de 10 mil minutos diante da televisão. Dos 104 jogos disputados, assisti a 95, sem contar as prorrogações. Mas o maior legado não está nos números. Está nas conversas depois de cada partida, nas discussões sobre escalações, nos palpites, nas brincadeiras e, principalmente, na oportunidade de viver tudo isso em família.
Foi impossível não perceber o envolvimento dos meus filhos. Aos 12 e aos 6 anos, eles passaram a querer saber quem eram os jogadores, onde ficavam os países, quais eram as histórias por trás das seleções, quem liderava a artilharia, por que determinado time jogava de uma forma e outro de outra. A Copa virou uma grande sala de aula. Geografia, história, cultura e esporte caminharam juntos. Aprender nunca foi tão divertido.
Também foi uma Copa de personagens inesquecíveis. A Noruega conquistou admiradores muito além dos resultados. Sua torcida, com os cantos e gestos inspirados nos vikings, viralizou e mostrou que o futebol também é alegria, identidade e pertencimento. Dentro de campo, a equipe igualmente encantou e, sinceramente, merecia ter ido mais longe.
Desde o primeiro Mundial que acompanhei, em 1978, talvez este tenha sido aquele em que permaneci mais conectado do início ao fim. Vi bons jogadores, excelentes jogadores e alguns que parecem desafiar qualquer explicação lógica. Atletas que fazem o improvável parecer rotina.
Jude Bellingham confirmou que é um dos grandes nomes da nova geração. Erling Haaland liderou uma Noruega competitiva. Mbappé voltou a decidir partidas importantes. Lukaku reencontrou seu protagonismo. Cucurella mostrou por que é peça fundamental da Espanha.
E houve Lionel Messi.
Aos 39 anos, o argentino realizou uma Copa admirável. Enquanto as condições físicas permitiram, carregou sua seleção. Fez gols, distribuiu assistências, comandou o jogo, emocionou-se, sorriu, chorou e competiu como poucos conseguem fazer. Talvez merecesse encerrar sua trajetória mundialista levantando mais uma taça. Mas encontrou pela frente a melhor equipe do torneio.
A Espanha foi campeã porque apresentou aquilo que o futebol moderno exige: organização, continuidade e uma ideia de jogo consolidada. Não dependia apenas de um talento individual. Funcionava como um conjunto.
Esperava mais de Lamine Yamal. A genialidade apareceu menos do que muitos imaginavam. Ainda assim, completar apenas 19 anos durante a competição e suportar toda a responsabilidade de ser um dos rostos da seleção espanhola já demonstra sua personalidade e seu enorme futuro.
Enquanto isso, a França voltou a provar a força de seu projeto. Se dependesse apenas da qualidade apresentada, espanhóis e franceses fariam a final. O destino, porém, reservou esse confronto para a semifinal. A Argentina, sob Lionel Scaloni, confirmou que deixou para trás antigos vícios do futebol argentino e construiu uma identidade competitiva, embora a decisão tenha sido marcada por atitudes antidesportivas incompatíveis com a grandeza de uma final de Copa do Mundo.
Mas, se há um nome que simboliza esta Copa, além dos protagonistas dentro de campo, ele está no banco de reservas.
Luis de la Fuente entra definitivamente para a história do futebol mundial. Seu trabalho não começou ontem. É fruto de um projeto iniciado em 2013, comandando a seleção espanhola sub-19. Depois vieram o sub-21 e, finalmente, a equipe principal. Poucos treinadores tiveram a oportunidade — e a competência — de acompanhar o crescimento de praticamente uma geração inteira, mantendo conceitos, identidade e filosofia de jogo. O resultado apareceu da forma mais convincente possível: uma seleção segura, intensa, tecnicamente brilhante e merecidamente campeã.
A Copa terminou. Ficaram as lembranças, as histórias, as descobertas e a certeza de que o futebol continua sendo uma das maiores linguagens universais já criadas.
Agora, resta esperar por 2030, a Copa do Centenário. Seja com 48 ou 64 seleções, que ela preserve aquilo que tornou este Mundial tão especial: o encanto pelo jogo.
E que, até lá, o Brasil tenha coragem para recomeçar. Não apenas trocar nomes, mas rever métodos, abandonar velhos vícios e construir um projeto verdadeiro. O futebol atual não reserva espaço para improvisação. Organização, planejamento e continuidade são os caminhos percorridos pelas grandes potências.
Que a próxima Copa nos encontre mais preparados.
E que o futebol continue nos reunindo diante da tela, transformando partidas em memórias e campeonatos em histórias que permanecerão muito além do apito final.
Júnior Patente
Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br



