Menos estrangeiros resolve o problema do futebol brasileiro?

O futebol brasileiro decidiu reduzir o número de estrangeiros. E, olhando apenas para o regulamento, parece uma medida simples: menos jogadores de fora, mais espaço para brasileiros. Mas o problema é que o futebol não funciona com uma conta tão elementar.

A decisão aprovada nesta segunda-feira (21) por clubes das Séries A e B prevê uma redução gradual do limite de estrangeiros relacionados por partida. Hoje, são nove. Em 2027, serão oito; em 2028, sete; em 2029, seis; e, a partir de 2030, cinco. A proposta foi aprovada pela maioria dos clubes, com apenas dois votos contrários, segundo a CBF.

A justificativa é conhecida: abrir espaço para os jovens brasileiros.

E aqui começa a discussão que considero mais importante.

Será que o problema do futebol brasileiro está realmente no excesso de estrangeiros?

A CBF apresentou números que ajudam a entender a preocupação. Segundo a entidade, a participação dos jogadores sub-23 caiu nos últimos anos, enquanto o número de estrangeiros cresceu. Na Série A, 95 estrangeiros entraram em campo em 2022. Em 2025, foram 162. Em 2026, até o levantamento apresentado pela entidade, já eram 146, além de outros 13 inscritos que ainda não haviam estreado.

Outro dado chama atenção: de acordo com a CBF, a minutagem dos jogadores com menos de 23 anos caiu 40% desde a ampliação do limite de estrangeiros para nove atletas.

Portanto, existe um problema real a ser discutido.

Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer o problema e identificar corretamente sua causa.

O estrangeiro virou o culpado?

É preciso tomar cuidado para não transformar o jogador estrangeiro em uma espécie de culpado pela crise de formação do futebol brasileiro.

O argentino, o uruguaio, o colombiano, o equatoriano ou qualquer outro jogador sul-americano não tem responsabilidade pela dificuldade dos clubes brasileiros em formar, desenvolver e manter seus próprios talentos.

Aliás, a internacionalização do futebol brasileiro também pode elevar o nível da competição.

Essa é justamente uma das críticas apresentadas pelo colunista Mauro Cezar Pereira. Ele observa que as principais ligas europeias são altamente internacionalizadas e questiona a ideia de que simplesmente limitar estrangeiros produzirá melhores jogadores brasileiros. O jornalista também chama atenção para outro dado: o Brasileirão envelheceu. A idade média dos jogadores passou de 27,3 anos em 2021 para 28,5 em 2026.

Ou seja: talvez a discussão esteja sendo feita pelo lado errado.

Um estrangeiro de 20 ou 21 anos não necessariamente ocupa o lugar de um jovem brasileiro. Ele também é um jovem jogador e pode, inclusive, elevar a competição dentro do elenco.

O problema é quando o clube deixa de apostar na própria formação.

O futebol brasileiro perdeu a fábrica de talentos?

Aqui está, para mim, o ponto central.

Durante décadas, o futebol brasileiro foi reconhecido pela capacidade de formar jogadores. Os clubes revelavam atletas, davam espaço aos garotos e construíam equipes competitivas a partir de suas categorias de base.

O exemplo da SeleVasco

Um dos exemplos mais emblemáticos da força das categorias de base no futebol brasileiro foi o Vasco da Gama campeão brasileiro de 1989, equipe que ganhou o apelido de SeleVasco justamente pela presença de muitos jogadores formados em São Januário ou com passagem pela Seleção Brasileira.

Na campanha do título, o Vasco tinha como time-base Acácio; Luís Carlos Winck, Marco Aurélio, Quiñones e Mazinho; Zé do Carmo, Boiadeiro, William e Bismarck; Bebeto e Sorato.

Entre os principais símbolos daquela geração estavam Acácio, Bismarck e Sorato, jogadores que criaram raízes no clube e tiveram papel importante na conquista. Na decisão contra o São Paulo, no Morumbi, foi justamente Sorato, revelado pelo Vasco, quem marcou o gol da vitória por 1 a 0 que garantiu o título brasileiro de 1989.

A SeleVasco representa uma época em que as categorias de base tinham papel central na formação das equipes profissionais. O clube conseguia revelar jogadores, dar-lhes espaço no time principal e, ao mesmo tempo, montar um elenco competitivo com atletas contratados.

É esse modelo que precisa entrar no centro da discussão atual. O problema não está simplesmente na presença de jogadores estrangeiros. O ponto fundamental é saber por que os clubes brasileiros passaram a ter tanta dificuldade para transformar seus jovens talentos em protagonistas no futebol profissional.

O problema começa muito antes do profissional

Hoje, clubes brasileiros negociam jovens cada vez mais cedo. E existe uma questão econômica por trás disso.

Segundo dados apresentados pela CBF, entre 2016 e 2025, jogadores de até 20 anos responderam por 50,1% das receitas dos clubes brasileiros com transferências para o exterior.

É uma fonte importante de receita.

Mas existe uma consequência esportiva: o clube pode acabar desenvolvendo um jogador durante poucos anos, vendê-lo antes de sua consolidação no futebol profissional e, depois, precisar buscar no mercado outro atleta para ocupar aquela posição.

E aí surge uma contradição.

O clube diz que precisa revelar jogadores.

Ao mesmo tempo, o mercado estimula a venda desses jogadores justamente quando eles começam a alcançar valor.

Depois, quando falta talento pronto, o clube procura alternativas no exterior.

E não estamos falando apenas de grandes estrelas.

O futebol brasileiro passou a olhar com muito mais atenção para mercados como Equador, Colômbia, Uruguai, Paraguai e outros países sul-americanos.

Isso não deveria ser encarado como demérito desses jogadores. Pelo contrário. É sinal de que o mercado sul-americano passou a ser observado com mais atenção pelos clubes brasileiros.

A questão é outra: por que o Brasil, que historicamente exportou tantos talentos para o restante da América do Sul, precisa recorrer cada vez mais a esses mercados para completar seus próprios elencos?

Há quem veja a redução como um erro

A reação contrária à medida já apareceu dentro dos próprios clubes.

O Flamengo foi um dos clubes que votaram contra a redução. Segundo reportagem do ge, o presidente Bap argumentou que a medida limita a capacidade de contratação e relacionou o problema ao atual limite de 12 jogos para que um jogador possa atuar por outro clube no Brasileirão.

O colunista Rodrigo Mattos, do UOL, também classificou a redução como “muito radical” e argumentou que ela pode afetar a qualidade da competição. Para ele, uma alternativa seria trabalhar com o número de inscritos e exigir maior presença de jogadores formados pelos próprios clubes, em vez de simplesmente limitar estrangeiros.

É uma ponderação que merece atenção.

Porque existe uma diferença entre proteger espaço para o jovem brasileiro e reduzir a concorrência por meio de uma reserva de mercado.

São conceitos diferentes.

E se o problema não estiver no passaporte?

Outro argumento relevante veio do próprio Mauro Cezar Pereira.

Ele chama atenção para a idade dos elencos e para a estrutura de formação. Na visão apresentada pelo colunista, simplesmente trocar um estrangeiro mais velho por um brasileiro igualmente experiente não cria automaticamente espaço para um jogador formado na base.

Essa é uma questão fundamental.

Imagine um clube com nove estrangeiros. A regra reduz o limite para cinco.

Se o clube dispensar quatro estrangeiros e contratar quatro brasileiros de 28, 29 ou 30 anos, o que mudou para a formação?

Praticamente nada.

O problema não é o passaporte.

O problema é quem está ocupando o espaço que deveria estar sendo destinado ao desenvolvimento do jovem.

E isso nos leva ao ponto mais delicado da discussão.

Base não pode ser apenas negócio

O futebol brasileiro construiu uma indústria gigantesca de formação de jogadores.

Mas categorias de base não podem ser tratadas apenas como linha de produção para venda.

É preciso formar, desenvolver e dar oportunidade.

A própria nova regulamentação tenta atacar essa questão por outro caminho. A partir de 2027, os clubes poderão manter até 50 jogadores inscritos, mas haverá uma divisão entre a Lista A, para jogadores acima de 23 anos, e a Lista B, para atletas sub-23. A proporção começará em 30/20 e chegará a 25/25 em 2030.

Essa parte da mudança talvez seja tão importante quanto a redução dos estrangeiros.

Porque ela ataca diretamente a composição dos elencos.

Ainda assim, existe uma pergunta que permanece:

quantos desses jovens realmente vão jogar?

Porque colocar o jogador na lista não significa colocá-lo em campo.

É aí que entram treinadores, dirigentes, estrutura, planejamento e, principalmente, coragem para apostar.

Menos estrangeiros não significa automaticamente mais craques

Esse é o ponto que o futebol brasileiro precisa compreender.

Reduzir de nove para cinco estrangeiros pode abrir vagas.

Mas vaga não é sinônimo de talento.

Se o Brasil quiser recuperar sua capacidade de revelar jogadores, precisa discutir o processo inteiro: categorias de base, formação de treinadores, estrutura, calendário, transição para o profissional, tempo de desenvolvimento e condições financeiras para que os clubes não sejam obrigados a vender seus principais talentos na primeira grande proposta.

O próprio estudo da CBF mostra que existe um problema econômico por trás dessa equação. Se os jovens são uma das principais fontes de receita dos clubes, vender cedo pode ser financeiramente interessante no curto prazo, mas pode também reduzir o tempo de desenvolvimento desses jogadores no futebol brasileiro.

É uma equação difícil.

E não existe solução simples.

O Brasil precisa voltar a formar — e não apenas contratar

A redução dos estrangeiros pode ser discutida. Há argumentos a favor e contra.

Mas transformar essa medida na solução para a crise de formação seria um erro.

O futebol brasileiro precisa voltar a olhar para suas categorias de base não apenas como patrimônio financeiro, mas como patrimônio esportivo.

Precisamos formar jogadores que possam chegar ao profissional, jogar, errar, amadurecer e disputar títulos.

Precisamos criar uma transição mais eficiente entre o sub-20 e o futebol profissional.

Precisamos discutir por que tantos jovens deixam o país tão cedo.

E precisamos entender que contratar um jogador estrangeiro não é, por si só, sinal de fracasso da formação brasileira.

Fracasso seria precisar limitar o estrangeiro porque não conseguimos criar condições para que nossos próprios jogadores tenham espaço.

No futebol, concorrência também forma.

Um bom estrangeiro pode ensinar, elevar a exigência e disputar posição com o brasileiro.

O que não podemos fazer é abrir mão da nossa capacidade histórica de revelar talentos.

Porque, se a resposta para a crise for simplesmente reduzir estrangeiros, podemos até ter menos jogadores de outros países em campo.

Mas isso, sozinho, não garante que teremos mais craques brasileiros.

E talvez essa seja a pergunta que realmente deveria estar no centro da discussão.

O futebol brasileiro quer apenas limitar estrangeiros ou está disposto, de fato, a reconstruir sua fábrica de talentos?


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.
Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br

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