Cristo de Mário Cravo é tombado como patrimônio de Vitória da Conquista, mas preservação abre debate sobre a visibilidade do monumento

Cristo de Mário Cravo é tombado como patrimônio de Vitória da Conquista, mas preservação abre debate sobre a visibilidade do monumento.

Foto: Secom PMVC
  • Júnior Patente
  • Atualizado: 15/08/2026, 07:07h

O Cristo Crucificado de Mário Cravo Júnior, no alto da Serra do Periperi, acaba de ganhar uma proteção que, na prática, reconhece oficialmente aquilo que há décadas já faz parte do imaginário de Vitória da Conquista: a obra é patrimônio da cidade.

O Decreto nº 24.371/2026 determina o tombamento do monumento como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico do Município. O ato será oficializado em solenidade marcada para segunda-feira (17), Dia Nacional do Patrimônio Histórico, na própria área onde está instalada a escultura.

Mais do que uma imagem religiosa, o Cristo de Mário Cravo representa uma interpretação artística do sertão. Inaugurada em 9 de novembro de 1980, a obra foi concebida pelo escultor baiano Mário Cravo Júnior e instalada no ponto elevado da Serra do Periperi, de onde passou a estabelecer uma relação direta com a paisagem urbana.

O projeto, segundo relatos preservados pela Prefeitura, começou muito antes de sua inauguração. Mário Cravo afirmou que a concepção da obra teve início em 1963 e só foi concretizada 17 anos depois. Um documentário dirigido por André Luiz Oliveira registrou o processo de criação e montagem da escultura e depoimentos do próprio artista sobre o trabalho.

A escolha estética também diferencia o monumento de representações tradicionais de Jesus Cristo. O rosto e o corpo da escultura foram associados por Mário Cravo ao homem sertanejo, marcado pela seca, pela pobreza, pelo trabalho duro e pelas dificuldades sociais do Nordeste. A intenção transformou a obra em uma representação que ultrapassa a dimensão estritamente religiosa.

A escultura foi construída em fibra de vidro sobre estrutura de concreto armado. Fontes municipais registram diferentes medidas para o monumento, dependendo do critério adotado para a medição: a figura do Cristo tem cerca de 17 metros, enquanto o conjunto chega a aproximadamente 30 metros ou mais quando considerada sua estrutura e base. A Prefeitura chegou a classificá-la como o maior Cristo crucificado do mundo.

Um antigo símbolo da cidade

A história do monumento também está relacionada ao processo de transformação urbana de Vitória da Conquista nas décadas de 1970 e 1980.

Segundo relato do ex-prefeito Raul Ferraz, responsável pela contratação da obra, a ideia era recuperar simbolicamente a tradição de um antigo Cruzeiro dos Bandeirantes que existia na região. A escolha de Mário Cravo, um dos mais importantes escultores baianos, acabou dando à cidade não apenas um símbolo religioso, mas uma obra de arte moderna de grandes proporções.

O monumento foi inaugurado durante a gestão de Raul Ferraz e rapidamente passou a funcionar como uma referência geográfica e visual de Vitória da Conquista. A própria cronologia oficial do município registra a inauguração do Cristo em 1980 como um dos acontecimentos daquele período.

Durante décadas, o Cristo esteve presente na paisagem conquistense de maneira quase permanente. Para quem chegava à cidade pela BR-116, para quem observava a Serra do Periperi de diferentes bairros ou simplesmente para quem transitava pela área central, a silhueta da escultura fazia parte da identidade visual de Conquista.

A importância desse aspecto paisagístico agora está, inclusive, expressamente reconhecida pelo tombamento.

O decreto estabelece que não devem ser preservados apenas a estrutura física e os elementos escultóricos. Também precisam ser protegidos os aspectos históricos, documentais, simbólicos, culturais e a inserção do monumento na paisagem.

O texto prevê ainda a definição de uma área de entorno e de proteção visual, que deverá ser estabelecida posteriormente por meio de estudo técnico do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural.

É justamente nesse ponto que surge uma questão que merece ser discutida.

Se o Cristo é patrimônio paisagístico, como deve ser visto à noite?

Vitória da Conquista já investiu valores expressivos na recuperação e requalificação do espaço do Cristo.

Em 2019, a Prefeitura informou que havia aplicado cerca de R$ 380 mil na área, incluindo recuperação das edificações, rede elétrica, limpeza, paisagismo e iluminação. Naquele momento, também se discutia a restauração do próprio monumento, cujo projeto havia sido estimado em aproximadamente R$ 800 mil.

Anos depois, veio uma intervenção muito maior.

O contrato para reforma e revitalização do Mirante do Cristo foi firmado inicialmente no valor de R$ 3.311.382, com recursos federais e contrapartida municipal. Posteriormente, aditivos elevaram o valor atualizado do contrato para R$ 3.494.083,97.

O projeto envolveu pavimentação, paisagismo, acessibilidade, recuperação da área, novos mirantes, bancos, pisos, recapeamento e iluminação em LED. A Prefeitura apresentou a intervenção como uma estratégia de valorização do turismo cultural, religioso e de lazer.

Em dezembro de 2025, foi inaugurada uma nova iluminação cênica do monumento, composta por 28 projetores RGB, capazes de produzir diferentes cores. Segundo a própria Prefeitura, a proposta era ampliar a visibilidade do Cristo e permitir que ele fosse visto de vários pontos de Vitória da Conquista.

E aqui aparece uma pergunta que não pode ser ignorada diante do tombamento.

A iluminação instalada está, de fato, valorizando a obra ou alterando a maneira como ela se relaciona visualmente com a cidade?

A questão não é contrária à iluminação do monumento. Ao contrário: um patrimônio dessa dimensão pode e deve receber iluminação adequada, especialmente em uma cidade que pretende explorar seu potencial turístico e cultural.

O problema é outro.

O Cristo de Mário Cravo foi concebido para dialogar com a paisagem. Sua localização no alto da Serra do Periperi não é um detalhe. É parte da própria concepção monumental da obra.

Durante décadas, a presença do Cristo iluminado ou não iluminado podia ser percebida de diferentes áreas da cidade sem que a iluminação transformasse completamente sua leitura visual. Com a nova iluminação cênica, porém, surge entre moradores e observadores uma discussão sobre o efeito produzido à distância: em determinados pontos, a intensidade e a configuração da luz podem fazer com que a percepção da escultura seja diferente daquela que existia anteriormente.

A pergunta ganha ainda mais relevância porque o novo decreto estabelece que a proteção do patrimônio deve considerar justamente sua visibilidade, ambiência e relação com a Serra do Periperi e com a paisagem urbana de Vitória da Conquista.

Ou seja: o tombamento não protege somente o Cristo que está no alto da serra. Protege também, em alguma medida, a relação entre o monumento e aquilo que existe ao seu redor.

Preservar não significa apenas restaurar

O tombamento representa uma mudança importante na responsabilidade do Município.

A partir de agora, intervenções de conservação, manutenção, restauração, instalação de equipamentos ou obras que possam afetar direta ou indiretamente a integridade física, visual, artística ou paisagística do monumento deverão ser submetidas à apreciação e autorização municipal.

Isso significa que o debate sobre o Cristo não deveria terminar na restauração da escultura, na construção de mirantes ou na instalação de iluminação.

É preciso discutir também como a cidade enxerga seu patrimônio.

Uma obra de Mário Cravo não é simplesmente uma estrutura de fibra de vidro colocada sobre uma serra. É uma intervenção artística que dialoga com o território. Seu valor está na escultura, mas também na posição que ocupa, na relação com a cidade e na memória coletiva construída ao longo de quase cinco décadas.

Por isso, a nova condição de patrimônio histórico, artístico, cultural e paisagístico cria uma responsabilidade adicional para o poder público: cada intervenção futura precisa considerar não somente a segurança e a estética do espaço, mas o conceito original da obra e sua relação com Vitória da Conquista.

O patrimônio merece uma discussão pública

O Cristo de Mário Cravo pertence à história de Vitória da Conquista. A obra é patrimônio independentemente da religião de quem a contempla. É arte, memória, paisagem e referência urbana.

A revitalização do espaço também pode ser considerada necessária diante de décadas de desgaste e falta de manutenção. Há registro, inclusive, de que o próprio Mário Cravo alertava para a necessidade de manutenção da obra ao longo do tempo.

Mas exatamente por isso o debate precisa ser mais amplo.

Se o Município reconhece que o Cristo é patrimônio paisagístico, precisa explicar quais critérios foram utilizados para definir a iluminação cênica. Precisa informar se houve estudo sobre o impacto visual da iluminação à distância. E, principalmente, precisa esclarecer se o novo sistema respeita aquilo que o próprio decreto de tombamento determina: a preservação da visibilidade, da ambiência e da relação do monumento com a paisagem urbana.

Não se trata de questionar a importância do investimento. Trata-se de perguntar se todo o dinheiro aplicado na preservação está produzindo o resultado mais adequado para uma obra que, desde 1980, não pertence apenas ao alto da Serra do Periperi.

O Cristo de Mário Cravo é parte da imagem de Vitória da Conquista.

E se agora é oficialmente patrimônio da cidade, a cidade precisa continuar podendo enxergá-lo.

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