Nossa Senhora das Vitórias: a devoção que atravessa a história de Vitória da Conquista
Padroeira do município e da Arquidiocese, Nossa Senhora das Vitórias é celebrada neste 15 de agosto. Devoção chegou ao Sertão da Ressaca ainda no período de formação do arraial e se transformou em uma das principais manifestações religiosas e cultura
Neste sábado, 15 de agosto, Vitória da Conquista celebra Nossa Senhora das Vitórias, sua padroeira. A data reúne anualmente milhares de fiéis em missas, novenário e procissão e representa uma tradição religiosa que acompanha a história do município há mais de dois séculos.
A devoção à Virgem Maria sob o título de Nossa Senhora da Vitória — inicialmente registrado no singular — está ligada à presença portuguesa no Brasil e chegou ao território que posteriormente formaria Vitória da Conquista durante o processo de ocupação do Sertão da Ressaca.
A origem dessa devoção, entretanto, é anterior à formação do município. Segundo registros históricos reunidos por pesquisadores locais, o culto a Nossa Senhora da Vitória tem raízes na tradição portuguesa e se espalhou por diferentes regiões brasileiras. Na Bahia, já existia uma capela dedicada à santa em Salvador no século XVI.
A promessa de João Gonçalves da Costa
A história da padroeira conquistense está associada à trajetória do sertanista João Gonçalves da Costa, personagem central no processo de ocupação colonial da região.
Segundo a tradição histórica, em 1752 ocorreu um confronto entre as forças comandadas por João Gonçalves da Costa e povos indígenas que habitavam o território. A narrativa tradicional afirma que, diante das dificuldades enfrentadas durante a batalha, João Gonçalves teria feito uma promessa a Nossa Senhora da Vitória: caso obtivesse a vitória, construiria uma igreja em sua homenagem.
É importante registrar que essa narrativa está inserida na historiografia tradicional sobre a formação de Vitória da Conquista. A ocupação do território também significou conflitos, expulsão e violência contra os povos indígenas que já viviam no Sertão da Ressaca. Registros históricos citam a presença de Mongoiós, Pataxós e Imborés na região.
A promessa atribuída a João Gonçalves da Costa teria dado origem à construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Vitória. A cronologia dessa construção apresenta algumas divergências entre os registros históricos.
A Prefeitura de Vitória da Conquista registra 1803 como o ano de início da construção da igreja dedicada à padroeira. Outros documentos históricos apontam 1808 como marco da construção da primeira capela. Há ainda referências a uma edificação anterior ou mais simples, associada à promessa feita por João Gonçalves.
A primeira missa em 15 de agosto
Um dos registros mais importantes da história da devoção é a celebração realizada em 15 de agosto de 1809.
Segundo os historiadores Mozart Tanajura e Aníbal Lopes Viana, a primeira missa em homenagem à padroeira teria sido celebrada nessa data por um presbítero vindo da Vila de Rio Pardo, em Minas Gerais, que naquele período era referência religiosa para a região.
A documentação reunida em pesquisa histórica também registra que, na ocasião, a imagem de Nossa Senhora foi entronizada no altar da antiga capela e um cruzeiro foi colocado em frente ao templo.
A escolha do dia 15 de agosto tem também uma dimensão litúrgica. A Igreja Católica celebra nessa data a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Em Vitória da Conquista, a celebração da Assunção passou a estar profundamente associada à festa da padroeira.
De Nossa Senhora da Vitória a Nossa Senhora das Vitórias
Outro aspecto interessante da história é a própria mudança na denominação da padroeira.
Os registros mais antigos da região utilizavam a expressão Nossa Senhora da Vitória, no singular. Pesquisas históricas apontam que a forma plural, Nossa Senhora das Vitórias, passou a aparecer posteriormente e se consolidou ao longo do século XX.
Segundo levantamento histórico citado em estudo sobre a devoção mariana no Planalto da Conquista, a denominação no singular aparece na documentação dos séculos XVIII e XIX, enquanto registros do século XX passam a utilizar o plural. Em 1937, por exemplo, já aparece a referência a Nossa Senhora das Vitórias.
A mudança não alterou o núcleo da devoção. Maria continuou sendo venerada pelos conquistenses como a padroeira e intercessora da comunidade.
A antiga matriz e a Catedral
A primeira igreja dedicada à padroeira foi construída na área que corresponde ao núcleo histórico de Vitória da Conquista. Durante mais de um século, o templo esteve ligado à vida religiosa do então arraial e posteriormente da vila.
A antiga matriz acabou demolida na década de 1930. No mesmo local foi construída a atual Catedral Metropolitana de Nossa Senhora das Vitórias, cuja construção ocorreu entre as décadas de 1930 e 1940. A pedra fundamental foi lançada no contexto da atuação dos religiosos capuchinhos, que tiveram papel importante na vida religiosa da cidade.
A nova igreja foi concluída em 1944 e tornou-se um dos principais símbolos arquitetônicos de Vitória da Conquista. Em seu interior está a imagem de Nossa Senhora das Vitórias, considerada uma das peças mais antigas e significativas do templo e apontada como procedente de Portugal.
Em 1958, com a instalação da Diocese de Vitória da Conquista, a antiga matriz passou a ter status de catedral. Em 2002, com a elevação da diocese à condição de arquidiocese, o templo passou a ser a Catedral Metropolitana.
Uma festa que se tornou patrimônio cultural
Ao longo das décadas, a festa da padroeira deixou de ser apenas uma manifestação religiosa para também ocupar um lugar importante na memória coletiva de Vitória da Conquista.
Novenário, missas, peregrinações, procissões e a reunião de comunidades de diferentes municípios da região fazem parte da tradição. A festa atravessou gerações e continua mobilizando milhares de pessoas.
Em 2025, essa dimensão cultural recebeu reconhecimento oficial. A Lei Municipal nº 3.023 reconheceu a Festa de Nossa Senhora das Vitórias como Patrimônio Cultural e Imaterial de Vitória da Conquista. A proposta foi aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal e sancionada em junho daquele ano.
O reconhecimento considera a festa como uma manifestação de identidade, tradição e memória transmitida entre gerações.
Uma devoção que se confunde com a própria cidade
A história de Nossa Senhora das Vitórias se mistura à história de Vitória da Conquista. Desde os primeiros registros da antiga capela até as celebrações realizadas atualmente na Catedral Metropolitana e em outros espaços da cidade, a devoção acompanhou as transformações do município.
Há, nessa história, diferentes dimensões que precisam ser compreendidas: a tradição religiosa trazida pelos colonizadores portugueses, a formação do antigo arraial, os conflitos que marcaram a ocupação do território indígena, a construção dos primeiros templos, a organização da vida católica e, posteriormente, a transformação da festa em patrimônio cultural.
Por isso, celebrar Nossa Senhora das Vitórias em 15 de agosto significa também revisitar parte da memória de Vitória da Conquista.
Mais de dois séculos depois dos primeiros registros da devoção, a imagem de Maria continua ocupando lugar central na religiosidade de milhares de conquistenses. Para os fiéis, Nossa Senhora das Vitórias permanece como símbolo de fé, esperança e proteção. Para a cidade, sua festa representa uma tradição que atravessou gerações e se incorporou à própria identidade conquistense.
Nossa Senhora das Vitórias, padroeira de Vitória da Conquista, é celebrada neste 15 de agosto, mantendo viva uma tradição religiosa que remonta aos primeiros anos de formação da cidade.



