Após 46 anos, Cristo de Mário Cravo se torna primeiro monumento tombado de Vitória da Conquista
Obra inaugurada em 1980 recebeu proteção como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico; cerimônia foi realizada nesta segunda-feira (17), no Dia Nacional do Patrimônio Histórico
Um dos cartões-postais mais conhecidos de Vitória da Conquista acaba de ganhar uma nova proteção. O Cristo Crucificado, obra do escultor baiano Mário Cravo Júnior, tornou-se o primeiro monumento oficialmente tombado pelo município. A cerimônia foi realizada nesta segunda-feira (17), no Mirante do Cristo, na Serra do Periperi.
O tombamento reconhece a obra como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico de Vitória da Conquista e estabelece regras destinadas a impedir sua destruição, descaracterização ou alterações que comprometam suas características originais.
A escolha da data para a cerimônia não foi por acaso. O ato ocorreu em 17 de agosto, Dia Nacional do Patrimônio Histórico, data dedicada à valorização dos bens relacionados à memória e à identidade cultural brasileira. O tombamento foi estabelecido pelo Decreto Municipal nº 24.371/2026, publicado no Diário Oficial do Município na última quinta-feira (13).
Inaugurado em 9 de novembro de 1980, o Cristo Crucificado se tornou uma das principais referências visuais e culturais de Vitória da Conquista. Instalado na Serra do Periperi, o monumento integra há mais de quatro décadas a paisagem da cidade.
A obra também se diferencia das representações tradicionais de Cristo. Segundo o material divulgado pela Prefeitura, Mário Cravo adotou uma linguagem escultórica moderna, afastando-se do modelo acadêmico e da busca pelo chamado belo clássico.
No monumento conquistense, a representação de Cristo foi associada à identidade e à realidade social do povo sertanejo, característica que contribuiu para que a obra adquirisse significado para além de sua dimensão religiosa.
Durante a cerimônia, a prefeita Sheila Lemos afirmou que o tombamento deverá impedir modificações que descaracterizem a obra e destacou que o Cristo inaugura uma sequência de tombamentos de monumentos no município. “É o primeiro monumento que nós estamos tombando no nosso município, de uma série de outros monumentos que serão tombados”, afirmou.
Na prática, o tombamento cria um regime especial de proteção para o Cristo de Mário Cravo. A partir da medida, ficam vedadas a destruição, demolição, mutilação, descaracterização ou outras alterações capazes de comprometer as características essenciais da obra sem autorização prévia do órgão municipal responsável.
A proteção não se restringe à estrutura física. Também deverão ser preservados os aspectos artísticos, escultóricos, materiais, construtivos, formais, históricos, documentais, simbólicos e culturais, além da relação do monumento com a paisagem onde está inserido.
O tombamento, entretanto, não significa que o Mirante do Cristo deixará de receber atividades. O espaço poderá continuar sendo utilizado para ações culturais, turísticas, religiosas, educativas e de lazer, desde que sejam compatíveis com a preservação do patrimônio e respeitem as normas ambientais, urbanísticas e de proteção estabelecidas.
O presidente do Conselho Municipal de Cultura, Washington Rodrigues, destacou durante a cerimônia que uma das finalidades do tombamento é justamente impedir que futuras intervenções retirem características que fazem parte da identidade do monumento.
Segundo ele, o parecer passou pelo Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural e posteriormente recebeu aprovação unânime do Conselho Municipal de Cultura.
O jornalista e historiador Fábio Sena, integrante do Núcleo de Preservação, relacionou a importância da obra à representação social construída por Mário Cravo. “É um Cristo que representa uma dor que o sertanejo já sentiu, que foi a fome”, afirmou. Para ele, o tombamento permite uma apropriação pública e definitiva de um bem ligado à identidade de Vitória da Conquista.
Representando a família do escultor, Maria José Naponuceno, viúva de um dos filhos de Mário Cravo Júnior, também participou da solenidade e destacou a importância da preservação do legado do artista. “É uma honra ver que o nome de Mário Cravo não caiu no esquecimento e não vai cair”, declarou.
Apesar de ser o primeiro monumento tombado pelo Município, o Cristo de Mário Cravo passa a integrar uma relação de bens que já contam com proteção patrimonial em Vitória da Conquista. Atualmente, a cidade possui oito edifícios tombados em âmbito municipal: Casa Régis Pacheco; antigo prédio da Rádio Clube e do Cine Ritz; Casa de Dona Zaza; Palácio da Joia do Sertão Baiano, atual sede da Prefeitura; antiga Câmara de Vereadores, onde funciona o Memorial Manoel Fernandes de Oliveira; Casa das Artes, antiga Biblioteca José de Sá Nunes e atual Centro de Convivência do Idoso; Solar dos Fonsecas; e Solar dos Ferraz.
Outros patrimônios podem se juntar à relação. Segundo a Prefeitura, o município iniciou neste ano tratativas para o tombamento de dois imóveis religiosos: a Igreja e o Seminário de Nossa Senhora de Fátima e a Primeira Igreja Batista Bíblica de Vitória da Conquista.



